maio 21, 2005

Meu Tempo


De nariz no ar procurando contrastes

Procurando formas, texturas e tons

Jogos de planos

Descobrindo pormenores que me passaram facilmente despercebidos.
Congelando o vento que brinca, para lhe roubar um momento


Preciso de momentos assim!
Parar, sentir, sorrir
São folhas frágeis que nascem em troncos velhos
Passeios que são reencontros
O tempo passa.
O tempo corroi, altera.
Novas camadas de ferrugem mudam as formas
Mas a roldana lá continua
Luzidia
Pelo movimento da corda do tempo.


Fevereiro 2004

Maio 2005

[Originalmente publicado aqui] [Comentários iniciais]


Publicado por Cainha às 11:55 PM | Comentários (0) |

maio 14, 2005

O papel da literatura

“- É um engano e a causa de muita decepção. Uma pessoa lê livros e espera que a vida seja igualmente cheia de interesse e intensidade. E, é claro, não é assim. Há muitos momentos monótonos nos intervalos, e esses, também são naturais. (…)”
Anais Nin – Henry & June

Com as palavras,
teço outras realidades.

Com as palavras
pinto de novas cores
as fotografias que sempre conheci esbatidas
pálidas
sem contornos definidos

Com as palavras
sinto o que já vivi
revivo, dou-lhe sentidos
encontro razões.

Com as palavras
sou bisturi de cirurgião que disseca
separa terminais nervosos
destrinça sentimentos
corta finamente os tecidos
procura na transparência
os motivos

Com as palavras
sou ainda marinheiro
que vê a terra apenas de muito longe
sem pormenores
com o encanto que a névoa lhe confere
e a sedução que a distância determina.

Com as palavras
sou outra e outra vez
eu!

O papel da literatura é múltiplo.
Se pode ser “causa de muita decepção”, quando confronta a vida dos “momentos monótonos” com narrativas cheias de encanto, intensidade, ritmo, pessoas cativantes, de tal forma que o desejo é de nos tornarmos letras, palavras, para mais facilmente poder entrar num desses mundos mágicos, pode ainda ser uma forma de retirar a cortina leve que esbate o brilho do que vivemos, ser ainda os óculos que se colocam, filtros que determinam outros contrastes, outras composições, peles que se vestem e que se fundem.

Os textos que se escrevem podem ser sorrisos, arrepios repetidos, encantamentos, outras vezes exorcização de mágoas, que nem tudo é perfeito. Os amores ficam mais fortes, a sedução ampliada, céus adquirem profundidade impensada, gaivotas carregam-nos nas suas asas, as gotas de orvalho nas flores tornam-se diamantes em bruto, o céu escuro de tempestade acentua o verde vibrante das árvores…

Nas palavras amalgamamos finamente a vida, como massa de padeiro que saciará outras fomes.

[Originalmente publicado aqui] [Comentários iniciais]

Publicado por Cainha às 11:51 PM | Comentários (2) |

maio 07, 2005

Enganos

Os enganos são como luzes que se apagam, escurecendo o compartimento que é a vida.
Com as luzes todas acesas vemos perfeitamente os contornos dos objectos que pontuam esse espaço, reconhecemo-los, e tomamo-los apenas por aquilo que são.
Quando as luzes se vão apagando, os objectos, moldados pelas sombras, tomam outras realidades, e quantas vezes se tornam fantasmas, monstros invencíveis, extraterrestres implacáveis, tudo o que a nossa imaginação, permanentemente de criança, nos sugere.
A cada engano, uma luz se apaga, novas sombras se formam, outros sentidos se inferem.
O que vemos é um misto do que sabemos existir com o que as sombras agora modelam e revelam.
E porque as sombras vão ocultando a realidade, ficam dúvidas permanentes nas mudanças, será que a realidade se alterou a coberto da escuridão, ou serão apenas os nossos olhos, desconfiados, que assim julgam?
Os enganos são como luzes que se apagam, são como luzes que se extinguem, gastas pelos desgastes sentidos sem sentido.
E das luzes apagadas nasce a sombra, nasce o escuro, nasce o medo.
Que outros enganos nascerão destas luzes apagadas, e mais sombras e mais medos.
E no fim, quando todas as luzes enganadas se extinguirem, quando não existir mais sombra porque não existe mais luz, haverá outra sala onde entrar?
Existirão outras luzes, outros sóis, outros sonhos?
Ou apenas espelhos espalhados pelos cantos?

[Originalmente publicado aqui] [Comentários iniciais]

Publicado por Cainha às 11:48 PM | Comentários (0) |

abril 30, 2005

Questões de género

Haverá uma escrita feminina e uma escrita masculina?

E essa diferenciação a nível da escrita, a existir, será unicamente a nível dos conteúdos, ou também a nível formal?

O tema tem entusiasmado alguns estudiosos que fazem o que é suposto, estudam! E às vezes chegam a algumas conclusões, mas nem sempre. Não sendo eu uma estudiosa, não tenho opinião validada por inquéritos, análises, trabalhos de campo, mas tenho, quão mesmo, opiniões e sentires.

A minha perspectiva igualitária diz-me que não deve existir uma escrita feminina e uma masculina, que a existir a distinção, a mesma pode ser um motivo de descriminação ou valorização diferenciada. Que devem existir escritas de pessoas, e que cada uma delas se coloca de determinada forma nas palavras, forma essa que não será imutável ao longo do tempo, mas que muitas vezes será perfeitamente reconhecível.

Mas limpando a resistência inicial à diferenciação, sinto em muitos casos diferenças nos temas escolhidos, na forma como são tratados, muitas vezes até nas palavras usadas, nas imagens invocadas.

Limpando a resistência inicial, que é fruto maior do mundo em que vivemos, da necessidade de defesa, da reacção por antecipação, orgulho-me de me colocar a mim, mulher, naquilo que escrevo, e nesse sentido, considerar a minha escrita profundamente feminina. Profundamente feminina mas nem assim diferente da escrita profundamente masculina de homens que conheço que se colocam igual e inteiramente naquilo que fazem.

Acho que o problema da definição está essencialmente na carga que damos aos adjectivos de masculino e feminino, passando da identificação de feito por, para um conjunto de características, não explícitas e universais, mas implícitas, internas a grupos, e muitas vezes estereotipadas, que nos deixa relutantes no uso e na aceitação do qualificativo.

Este mundo dos blogs tem-me dado oportunidade de ir pensando sobre este assunto, na forma como eu escrevo, na forma como outros escrevem, nas assumpções que tomo quando leio artigo e coloco um sexo no seu autor que depois se revela não o correcto.

Quantas vezes já me abstenho desses processos divinatórios e deixo em suspenso tal decisão até encontrar variações explícitas do género das palavras que não deixem margem para dúvida. Outras vezes até já me questiono sobre a importância de estabelecer um sexo, uma idade, um contexto profissional e cultural para o autor do que lemos.

Mas os estudiosos estudaram, dissecaram a escrita de homens e mulheres, contaram artigos, adjectivos, número de palavras por frase, frases por parágrafo, enfim, parametrizaram a escrita de forma a estabelecer conclusões. E nessa dissecação formal da escrita, conseguiram encontrar divergências, percentualmente definidas, que apontam para a diferença.

Não querendo questionar a validade do estudo (que cito de memória) coloco ainda a hipótese de essas diferenças assim contabilizadas resultarem mais de um contexto cultural e social do que de uma estrutura cerebral efectivamente diferenciada. (Não que negue a sua existência, mas como todos sabemos o próprio cérebro se altera pela estimulação de que é alvo.) Porque nós todos somos moldados pelo banho cultural onde somos mantidos desde o berço, porque os nossos estudos, a nossa forma de aprender e ensinar, as conversas com os amigos, as leituras, as viagens, todas essas experiências fazem de nós aquilo que somos.

Por exemplo, se eu fizesse agora um inquérito tentando estabelecer a preferência de mulheres e homens pelo cor-de-rosa, acham que a resposta (diferente para os sexos, julgo eu, mas eventualmente sujeita a surpresa) decorria de uma estrutura cerebral diferenciada ou de uma questão de cultura, de educação, enfim de estereótipos?

As questões de género fascinam-me, quer sejam na escrita quer noutros campos, perceber o que é inato e o que é apreendido, o somos efectivamente e o que fazem e fazemos de nós, a formação e a formatação, discorrer sobre os diálogos tantas vezes mudos entre os sexos, a sedução, encantos, partilhas…

Utopicamente desejaria que quase nada fosse inato, porque assim teríamos a liberdade maior de poder efectivamente construir a nossa vida, de nos moldarmos, de poder assumir os desafios e a eles responder em função do nosso esforço. Em verdade assim não é, existem possibilidades cortadas desde a origem, limites que para alguns serão sempre quimeras inatingíveis, restrições físicas que cortam as asas a mais altos voos. Mas ainda assim a surpresa na ultrapassagem de limitações pode existir, como a que tive com o homem que vi há dias na Rua do Campo Alegre, na zona de pendente mais acentuada, pedalando com esforço na subida. Zona difícil, mais difícil ainda, quando na bicicleta carrega vários objectos, entre eles a muleta com que ampara a falta de uma perna. Senti-me tão pequena na minha vida nessa altura…

[Originalmente publicado aqui] [Comentários iniciais]

Publicado por Cainha às 11:43 PM | Comentários (0) |

abril 23, 2005

25 - IIII - 74

O meu lado preguiçoso e ocupado dizia-me;

“Pega no texto que escreveste no ano passado e colocaste no extinto blogsforana!.”

O meu lado consciencioso e marrão contrapunha;

“Não acho isso correcto, parece que estás a fugir a uma responsabilidade.”

Voltava o lado preguiçoso, ocupado e racional a dizer;

“Mas quase tudo o que possas dizer sobre o 25 de Abril já lá colocaste, as recordações que tens são tão poucas, eras pequena ainda.”

O lado consciencioso, marrão mas sensível não aceitava o argumento e dizia:

“Existem sempre muitas formas de contar a mesma história, existem recordações que são despertadas pelo som leve e ritmado do bater no teclado do computador, pela vontade de ver umas palavras seguirem as outras, como formigas no carreiro. Existem novas formas de sentir porque um ano se passou entretanto e com ele tantas coisas se alteraram e outras que se deviam ter modificado incrivelmente continuam na mesma.”

O lado preguiçoso, ocupado, racional e prático voltava à carga;

“Já não te reflectes no escreveste nesse texto?”

O lado consciencioso, marrão, sensível e responsável nem pensava em esquivar-se à resposta.

“Ainda me revejo completamente no texto, essas recordações não se alteraram nem o tempo que passou me obrigou a vê-las com outros olhos, senti-las de outra forma. Continuam a ser as minhas recordações desse dia, dessa época ”

O lado preguiçoso, ocupado, racional, prático e teimoso apenas disse;

“Não vejo razão lógica para que não possas utilizar o texto, não vejo necessidade de repetires ideias com ligeiras correcções apenas como um ensaio, não sinto em ti a vontade de contar outras coisas, de tentar outras relações entre eventos. Usa-o, e se achas que, em consciência, não estás a responder verdadeiramente ao desafio lançado, faz uma nota prévia, informa o leitor.”

E o lado consciencioso, marrão, sensível, responsável mas transigente aceitou os argumentos, pegou em caneta e papel e preparou-se para escrever a nota prévia. E como era também o lado minucioso, lado picuinhas diria o lado prático, explicou e fundamentou as razões da escolha.

O lado preguiçoso, ocupado, racional, prático, teimoso, lógico percebeu que vencendo, não venceu, e que das razões de ambos se fez o texto que acabam de ler, e que do ser de ambos se fez também, um dia, o texto que lerão a seguir, se sobrar folgo, tempo, paciência, pachorra, condescendência, energia, gosto, vontade … que a mim já se me esgotam os qualificativos …

[Originalmente publicado aqui] [Comentários iniciais]

Publicado por Cainha às 11:41 PM | Comentários (0) |

30 (+ 1) anos

Era dia de passeio, o primeiro desde que entrara para a escola primária. O farnel estava preparado do dia anterior, numa marmita de alumínio baço e tampa vermelho vinho, bebida, laranjada colocada numa pequena garrafa vestida com um entrançado plástico vermelho e preto. A excitação era grande, demasiada para adormecer.

Nessa noite outros não dormiram, percorreram quilómetros, encomendaram-se a santos e a ideais, colocaram o destino das suas vidas nas decisões e acções tomadas, e alteraram assim também o destino de um país.

O dia amanheceu para um país diferente, mas eu não o sabia nessa altura. O dia de passeio acabou a ser dia feriado, a escola fechada, a televisão ligada o dia todo. Um vizinho de quem eu gostava como um avô, passou esse dia na sala de casa dos meus pais, sentado em frente à televisão tentando não perder nada do que estava a suceder. Ainda hoje o revejo, de samarra vestida, sentado curvado na ponta do sofá, palito sempre no canto da boca e a na cabeça a boina que lhe deu o cognome.

O Boininha, como todos o conheciam, tinha feito campanha pelo Humberto Delgado e com isso granjeado a sua quota-parte de problemas, que poderiam ter sido bem maiores não fosse ele tão arraia-miúda.

Existem imagens que ficam vincadas na memória, marcadas como a ferro quente em madeira frágil, mesmo que o tempo desgaste a madeira, ficam sempre marcas, cicatrizes do que existiu. Lembro-me de ver, na televisão, a abertura da prisão, os presos que saíam, recordo imagens que mais tarde confundi com outros locais, a porta da prisão e de uma garagem pública, para mim enorme, pareciam o mesmo sítio. Precisava de situar os acontecimentos nos locais que conhecia.

O passeio acabou a ter lugar algum tempo depois, e se nas cidades pequenas não se viam ainda diferenças, na estrada nacional e no Porto notavam-se os movimentos das tropas que despertavam a nossa curiosidade. Não tenho a certeza mas é provável que nunca antes eu tivesse visto um militar em seu uniforme.

Apesar da meia dúzia de anos que tinha na altura, comecei a perceber outras diferenças, não que o antes tivesse sido difícil para mim, mas porque o depois me concedia coisas que antes não existiam. Os comícios políticos, os autocolantes da propaganda partidária, as músicas que simbolizavam a revolução, os slogans gritados aos quatro ventos, algum vocabulário entretanto aprendido, as pessoas que falavam, trocavam ideias, outras que se encolhiam, tentando perceber se aquele sol era de pouca dura, se a repressão viria mais forte depois, se a mudança estava ali para ficar, se a mudança poderia ser ainda maior do que a que desejavam.

Auto-gestão foi uma das palavras novas que aprendi, repetida muitas vezes à medida que os empregados das têxteis da zona tomavam conta das fábricas, se organizavam em comissões e geriam a empresa por sua conta. Não sei com que resultados, era pequena demais para me aperceber de tal, mas a avaliar pela situação alguns anos depois, nenhuma delas vingou.

Muita gente vendeu, naqueles tempos que se seguiram, os seus bens, temendo as nacionalizações. Outros aproveitaram esse pânico e compraram. Lembro-me bem disso porque assim ganhamos vizinhos novos na freguesia, pessoas que vinham de fora e que se instalavam à medida que algumas das maiores casas mudavam de mãos.

A escola também foi alvo de mudanças, a separação de sexos que ainda se mantinha foi abolida, mesmo antes do final do ano lectivo. Os rapazes que costumavam espreitar por cima do muro do recreio passaram a compartilhar a nossa sala de aula e as nossas carteiras. Apenas me recordo de um, a que chamavam “ratinho”, tão pequenino era. Tinha o dobro da minha idade mas ainda não sabia ler e era efectivamente ladino como um rato. Dos outros praticamente nem me lembro, no ano lectivo seguinte mudei de freguesia e de escola, mudei de professores e de colegas, e todas essas recordações ficaram empoeiradas.

Passaram (mais de) três décadas, as recordações próprias que tenho do 25 de Abril de 74 quase nada têm a ver com a revolução, e contudo estão fortemente ligadas a ela. Muitas das recordações da minha infância perderam já as datas, perderam o tempo em que aconteceram, perderam o antes e o depois. 1974 continua mais definido que qualquer outro ano, lembro-me dos dias de sol desse Verão, dos passeios que fazia com os meus pais como se percorrêssemos outro país, lembro-me de ter começado a descobrir outras músicas que antes estavam banidas e agora tocavam livremente na rádio. Mais do que recordações dessa altura eu tenho imagens, como se a minha mente se tivesse divertido a fotografar eventos para mais tarde recordar.

[Originalmente publicado aqui] [Comentários Iniciais]

Publicado por Cainha às 11:37 PM | Comentários (0) |

abril 16, 2005

Genealogia das idades

“I was once like you are now” (1)

Temos todos, assumidamente, uma relação filial com os mais velhos, com aqueles que nos antecederam, que desbravaram caminhos, coligiram conhecimentos e saberes que hoje nos permitem sermos quem somos, como somos. Somos, sem dúvida, filhos dos nossos pais biológicos mas somos também filhos, directos e indirectos, dos nossos pais culturais e sociais. Seres, cuja recordação muitas vezes nos arranca sorrisos de olhar, pelo carinho e gratidão que se mantém. Sonhos nossos que foram feitos de recordações emprestadas, sem suporte real mas palpáveis. Caminhos delineados em função de palavras escutadas ou lidas, de inspirações de exemplos externos.

“You're still young that's your fault
There's so much you have to go through” (1)

Mas essa relação de filiação não é pacífica, não é serena. No confronto das idades surge também imposição, surge revolta. Os laços existem para poderem ser atados e desatados, esticados, enrodilhados, desfeitos e refeitos. Os nossos desafios serão sempre os nossos desafios, erros devem ser cometidos também, que da experiência dos outros não podemos fazer sempre o nosso conhecimento, o nosso crescimento. Ciclos e rituais que devem ser cumpridos, metas estabelecidas e ultrapassadas. Novas metas alicerçadas em desafios, argamassadas por sonhos.

"It was said of them, in older times
That the child is the father of the man,
and, yet, in growing, know not the man, and of the man's ways.
He watches the aged ones, old and seemly wise and wonders, could he ever grow to be such as they...." (2)

Mas somos ainda filhos das crianças que outrora fomos. Somos filhos da evolução que tivemos, de todos os momentos que passamos. Relações parentais aparentemente estranhas. O adulto, refém da criança, das escolhas e decisões tomadas. O velho, filho do jovem.

Responsabilidade imensa, esta, das mais tenras idades, de construir caminho e garantir futuro.

(1) Cat Stevens – Father and son
(2) Magna Carta – Soliloguy 1

[Originalmente publicado aqui] [Comentários iniciais]

Publicado por Cainha às 11:31 PM | Comentários (0) |

abril 09, 2005

Expresso

Devia ser da responsabilidade, só podia ser da responsabilidade, esse nervoso miudinho que a tinha tomado de assalto.
Não que ela não tivesse já alguma experiência, já servia cafés, atrás daquele balcão, discreto e alto, há algum tempo, mas agora era diferente, o estabelecimento tinha amplas janelas para a rua, mais clientes, mais visibilidade.
No seu café, a penumbra protegia-a. Os clientes eram habituais, já se tinham estabelecido cumplicidades, jogos de olhar que substituíam longas conversas, pedidos ou agradecimentos destilados num único gesto.
Passar a trabalhar num novo café seria diferente, novas caras, novas exigências, novas personalidades, novas solicitações às quais era necessário responder.
Teria ainda de abandonar o conforto e a omissão de um balcão demasiado alto para a sua pequena estatura. Teria agora de circular entre as mesas, estar atenta, olhar os clientes nos olhos, ser chamada por eles, quem sabe, até ser apelidada de “dona”!
Entrou um cliente, o primeiro, que se sentou numa mesa próxima da entrada, o que a obrigava a ela a percorrer todo o espaço, a deixar a sombra protectora e a receber a luz do sol da manhã filtrada pelas janelas. Ajeitou a saia e fez-se ao caminho, quilómetros que eram, porque assim lhe pareciam.

“Bom dia, o que deseja?”
“Um Expresso.”

Tirou um café, e um segundo logo de seguida. Olhou para os dois, comparou o creme que se acumulava na superfície e escolheu o primeiro. Colocou no pires um pau de canela e um pequeno bago de café e chocolate.
Pousou-o tremulamente sobre a mesa, e mesmo sem deixar que a chávena se aproximasse dos lábios, perguntou ansiosamente:

-Como está?

[Originalmente publicado aqui] [Comentários Iniciais]

Publicado por Cainha às 11:26 PM | Comentários (0) |


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