agosto 31, 2004

Uma dança

Está um dia cinzento, empastelado, muito mais porque a janela que mo traz tem vidros sujos da poeira acumulada do Verão e da humidade da manhã que cria uma pasta fina e texturada. Às vezes parece que detecto um leve brilho lá fora, como se uma nuvem se espreguiçasse, esticasse e adquirisse transparência. Acho que o sol ainda não desistiu completamente de brilhar, aguarda apenas que as nuvens encontrem o seu caminho.
Último dia de Agosto, último dia do mês das férias. Setembro é ano novo que começa, são planos postos à prova, projectos que arrancam.
O sol continua na sua dança suave com as nuvens marcando um ritmo lento de sombras e de brilhos. Uma dança que se adivinha mas não se vê, uma dança que se intui e que se sente.
Uma dança que me convida…

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agosto 29, 2004

Divagando

Ás vezes apetece-me escrever mas o cérebro é o único local onde consigo deixar apontamentos, e então, vou sobrepondo notas e mais notas até ao ponto de, em vez de letras e ideias, reconhecer unicamente texturas.
Depois, de posse de papel e tinta, parece que a inspiração se esvai totalmente, outras vezes que a escolha é demasiado vasta para me cingir a um único texto, a uma única ideia, a uma única história.
Tenho, com a mente, diálogos ricos que no papel se tornam monólogos forçados. Na cabeça, o romance está já todo escrito, eu apenas lhe acrescento cenas, dou colorido a um pormenor ou outro. No papel em branco, não existe a história antes nem a história à volta, e sou eu responsável pelo que faço nascer.
No papel, perderá sempre força em relação ao que foi pensado. Eventualmente poderá reconquistá-la parcialmente quando quem lê, faz da sua vida, da sua experiência e da sua imaginação o cenário que a enriquece.

Reli, na mente era claro, aqui, no papel, confuso.

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agosto 27, 2004

Sentido da vida


Afastou o sofá e procurou atrás, espreitou debaixo dos móveis, levantou tapetes, afastou cortinas, saiu porta fora e tirou vasos do sítio, pedras do caminho…

- O que procuras?
- O sentido da vida
- Não sabes onde está?
- Não!
- Onde o perdeste?
- Nunca o tive…
- Mas pelo menos sabes como é?
- Também não!
- O que é?
- Não sei também.
- Então porque o procuras?
- Porque me disseram que existia…
- Um dia irás certamente encontrá-lo…E quando o encontrares, vai reconhecê-lo sem que seja preciso que te digam o que é.
- Achas?
- Tenho certeza. Vai-te parecer assim como uma estrada iluminada e convidativa, e não vais ter dúvidas.
- Assim como a “Yellow brick road”?
- Parecida, mesmo que os tijolos de que é feita sejam de uma outra qualquer cor.
- …
- E sabes uma coisa, quando encontrares a tua estrada, e te decidires a segui-la, vais olhar para trás e perceber que ela sempre ali esteve. E se tentares ver as marcas dos teus passos, vais notar que eles sempre seguiram a direcção dessa estrada, umas vezes caminhando paralelamente, outras vezes ziguezagueando à sua volta, mas nunca se afastando muito. O sentido da vida sempre te acompanhou, tu é que não te apercebeste.
- E porque não o consigo ver eu agora?
- Porque estás demasiado ocupado na sua busca. Vendo pequeno, só vês pormenores e para se vislumbrar o sentido da vida é preciso olhar de longe.

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Vivo em terra de brumas

Fiquei a ver o nevoeiro recuar mar adentro como invasor que desistisse da conquista.
Lembrei-me de um colega que costumava dizer que o Douro devia ter em suas águas uma qualquer mixórdia que em dois dias de sol se evaporava e criava névoas e neblinas nos dias que se seguiam.

Publicado por Maria em 04:10 PM | Comentários (1) | TrackBack

agosto 26, 2004

Gosto ...

Gosto de neblinas brilhantes que marcam a distância estabelecendo, em tonalidades cinza, as diferenças de planos. Sol coado por uma fina cortina branca, brilhos na textura de um rio. Falta de pormenores para que a nossa imaginação se entretenha a construir o que conhece. Gosto das matinais névoas de um dia abençoado pelo sol.

Publicado por Maria em 03:08 PM | Comentários (1) | TrackBack

Talvez seja

- O nosso cristal quebrou-se.
- Sim?
- A cápsula de cristal que nos envolvia partiu-se!
- E o que é que isso significa?
- Que a vida pode entrar! Deixamos de estar isolados.
- Isso é mau ou bom?
- Depende. Teremos que abandonar a protecção do casulo que nos envolvia e viver, com paixões, com alegrias, mas também com dores e mágoas. A morna apatia em que vivíamos terá de ser abandonada. Passamos a ser co-proprietários do nosso destino.
- Não é a isso que os humanos chamam nascer?
- Talvez seja, talvez seja …

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agosto 25, 2004

Adoro

Adoro o cheiro a sargaço no ar fresco da manhã...

Publicado por Maria em 06:40 PM | Comentários (4) | TrackBack

agosto 22, 2004

O papel do sonho

    “O que nos unia era a busca desse objecto que tens na mão. A busca, digo, não o objecto. (…) Compreendi esta noite que não devo ter eu o Gradal, nem dá-lo a alguém, mas só manter viva a chama da sua busca. (…) e começarei a escrever sobre o Gradal, e no meu relato residirá o meu único poder. (…) permanecerei fiel à minha busca de tantos anos se souber impelir outros a desejar o Gradal. Também não estou a falar dessa taça que tens na mão. Talvez diga, como dizia antes, que é uma pedra, caída do céu. Pedra, ou taça, ou lança, que importa. O que conta é que ninguém a ache, senão os outros deixariam de procurá-la. Se me quiseres dar ouvidos, esconde essa coisa: que ninguém mate o seu sonho pondo-lhe as mãos em cima.” Umberto Eco – Baudolino


    “- São o mistério e o maravilhoso que servem as nossas almas, não o Graal em si. A beleza do Graal reside na sua natureza etérea. (…) Para alguns, o Graal é uma taça que lhes proporcionará a vida eterna. Para outros, é a procura de documentos perdidos e da História secreta. Para a maioria, suspeito, o Santo Graal é apenas uma ideia grandiosa… um tesouro glorioso e inatingível que de algum modo, mesmo no nosso caótico mundo, nos inspira.” Dan Brown – O Código Da Vinci

O acaso fez que depois de um livro lesse o outro. Histórias diferentes com um ponto comum. A demanda por algo inatingível, cujo maior poder reside nessa intangibilidade, no mistério e no sonho que comporta.
Mas acho que as semelhanças entre os livros se esfumam aí.
Umberto Eco é um dos meus escritores de eleição, a forma imaginativa como ele consegue cerzir história e estórias, o modo como nos transporta no tempo nas asas das suas descrições, a maneira como coloca a narração na boca de alguém e como cola o tipo de escrita à época … tudo isso me deixa rendida.
A escrita de Dan Brown é bem diferente, frases curtas, parágrafos curtos, capítulos pequenos. Narração de acção, descrição de cenários, de uma forma directa e objectiva, menos pintura e poesia e mais fotografia e reportagem.
Mas quer de um quer de outro tiro uma mesma lição, a necessidade de acompanhar a escrita com a pesquisa, os factos, os locais, a história, os mitos, os edifícios, as personagens … um livro não como o produto da inspiração de um momento, mas como o resultado de um trabalho contínuo e consequente.

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agosto 18, 2004

Gosto ...

Gosto da calma agitada de um dia coberto de gotículas de água. Os molhes vazios, o mar em cinza azulado, o ruído da ondulação.
Também gosto de dias de sol intenso, de céu azul, temperaturas altas, praias movimentadas.
Gosto sobretudo desta mudança que coloca uns a seguir aos outros.

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agosto 14, 2004

Considerações sobre o nascer do sol

Embora o modo como o sol nasce e o sol se põe não seja efectivamente diferente, quando imaginamos a terra vista do espaço, a verdade é que a sensação que temos de um e de outro momento do dia é realmente diversa.

O ar frio da madrugada confere mais transparência à atmosfera, os níveis de poluição mais baixos pelo dia que ainda não começou ampliam o brilho do sol da manhã. Mas julgo que também os nossos olhos e os nossos sentidos estejam mais receptivos aos estímulos exteriores, ao encanto do dia que começa.

Durante uma parte da minha vida acompanhei de perto a passagem de madrugada a manhã. E se tenho consciência que este levantar cedo me condicionava o rendimento global, também sei dos encantos desses momentos em que vemos o céu mudar gradualmente de cor, em que sentimos o frio que antecede a aurora, em que vemos raios tímidos de luz espreitarem sobre a paisagem para depois incendiarem tudo com a sua cor quente e brilho.

Recordo essa transfiguração da paisagem com encanto, com carinho. Momentos muitas vezes passados em comboios, fazendo assim dois percursos simultâneos, um no tempo e outro no espaço.

A partida para férias, foi também motivo para um madrugar antecipado, e o recordar esses outros momentos. Quando saí de casa, uma neblina muito ligeira ainda cobria a paisagem, o sol aparecia apenas como reflexo nos edifícios mais altos, mas o céu já tinha a cor limpa de um dia de verão.

Mais tarde, do avião, à medida que o mesmo se afastava da terra, tive a percepção, à distância, de névoas que estabeleciam diferentes planos, de montes como sombras chinesas e de lenços de nevoeiro nas zonas mais baixas e mais húmidas. O sol brilhava com força iluminando tapetes de nuvens à medida que mais alto subíamos. Para cima, azul imenso, para baixo, a estranheza da distância que dá outra dimensão à paisagem.

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[2 fotos]

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agosto 06, 2004

O que escrevo

Um texto que escrevo é quase uma fotografia da alma que me tiro. Eu sei que a comparação é exagerada mas tal como a fotografia olhada mais tarde me permite recordar coisas para além das retratadas, dos meus textos retiro depois muito mais do que deixei expresso.

As memórias funcionam por associações, e às palavras escritas eu junto o ruído do mar em constante vai e vem contra o molhe, junto esta neblina fina que pontua o dia, junto as gotas de água acumuladas no vidro do carro, junto a temperatura fresca mas agradável, junto tudo mesmo que não o diga expressamente como o faço agora, e junto ainda o estado de espírito que me move, as sensações dos dias...

Nem todas as releituras são agradáveis. Às vezes existem textos antigos que eu inicio a leitura e não a termino, para que as raivas lá expressas continuem lá contidas. Mas não os destruo, poderá existir um dia em que a revisita aos mesmos seja importante

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julho 29, 2004

Diário de Bordo

A nave “familiar enterprise” continua a sua missão de exploração do universo.

Temos tido algumas dificuldades com o computador responsável pelas comunicações da nave, que desenvolveu um comportamento aleatório e profundamente desagradável, deixando-nos isolados por longos períodos de tempo. Os nossos técnicos mais qualificados e os nossos curiosos mais inspirados tem feito esforços para a resolução do problema, mas ainda não chegaram a uma solução perene. Temos comunicações intermitentes há já vários dias.

Esta avaria vem em altura pouco propícia (embora admita que qualquer outra altura também não fosse considerada mais propicia), porque a tripulação denota já sinais evidentes de cansaço e saturação, e procuramos ilha, perdão, planeta, paradisíaco que esteja disposto a receber-nos por um prazo relativamente curto e que não solicite demasiadas contrapartidas.

Até agora estas negociações tem sido atrasadas pela avaria nas comunicações mas também porque a tripulação não se decide para onde quer ir, se mais para o interior da galáxia, se apanha um buraco negro e dá um saltinho a um universo paralelo, se abre as escotilhas da nave, inunda um ou dois porões, aponta a nave a uma estrela próxima e faz praia mesmo sem sair de casa, perdão, da nave.

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julho 26, 2004

Mude ...

http://dukedan.sites.uol.com.br/mude.swf

É grande, por isso é preciso paciência para esperar enquanto carrega.
Para quem tem ligação lenta, fica só o texto, sem música nem imagens.

Mude, mas comece devagar, porque a direcção é mais importante que a velocidade.
Sente-se numa outra cadeira, do outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.
Quando sair, procure andar pelo outro lado da rua.
Depois, mude de caminho, ande por outras ruas, calmamente, observando com atenção os lugares por onde passa.
Apanhe outros autocarros.
Mude por uns tempos o seu estilo de vestir.
Dê os seus sapatos velhos.
Procure andar descalço alguns dias.
Tire uma tarde inteira para passear livremente na praia, ou no parque, e ouvir o canto dos passarinhos.
Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche as gavetas e portas com a mão esquerda.
Durma no outro lado da cama... depois, procure dormir em outras camas.
Assista a outros programas de TV, compre outros jornais... leia outros livros, viva outros romances.
Não faça do hábito um estilo de vida.
Ame a novidade.
Durma mais tarde.
Durma mais cedo.
Aprenda uma palavra nova por dia numa outra língua.
Corrija a postura.
Coma um pouco menos, escolha comidas diferentes, novos temperos, novas cores, novas sabores.
Tente o novo todo dia.
O novo lado, o novo método, o novo sabor, o novo jeito, o novo prazer, o novo amor, a nova vida.
Tente.
Procure novos amigos.
Tente novos amores.
Faça novas relações.
Almoce em outros locais, vá a outros restaurantes, beba uma outra bebida, compre pão em outra padaria.
Almoce mais cedo, jante mais tarde ou vice-versa.
Escolha outro mercado... outra marca de sabonete, outra pasta de dentes...
Tome banho em novos horários.
Use canetas de outras cores.
Vá passear noutros lugares.
Ame muito, cada vez mais, de modos diferentes.
Troque de bolsa, de carteira, de malas, troque de carro, compre novos óculos, escreva outras poesias.
Jogue fora os velhos relógios, quebre delicadamente esses horrorosos despertadores.
Abra conta noutro banco.
Vá a outros cinemas, outros cabeleireiros, outros teatros, visite novos museus.
Mude.
Lembre-se de que a Vida é uma só.
Pense seriamente em arranjar outro emprego, uma nova ocupação, um trabalho mais suave, mais prazeroso, mais digno, mais humano.
Se não encontrar razões para ser livre, invente-as.
Seja criativo.
E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa, longa, se possível sem destino.
Experimente coisas novas.
Troque novamente.
Mude, de novo.
Experimente outra vez.
Certamente conhecerá coisas melhores e coisas piores do que as já conhecidas, mas não é isso o que importa.
O mais importante é a mudança, o movimento, o dinamismo, a energia.
Só o que está morto não muda!
Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena!

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julho 25, 2004

Entre risos e sorrisos…

Hoje dei por mim a pensar se rimos da mesma maneira quando estamos sozinhos ou quando temos companhia. Isto é, perante a mesma circunstância, por exemplo, um programa na televisão, a nossa reacção é influenciada ou não pela presença de outras pessoas.

Será o riso um comportamento social que visa transmitir às outras pessoas o nosso estado de espírito? A nossa aprovação?

Sei por experiência que as gargalhadas incontroláveis sempre as tive em conjunto com outros e nunca sozinha. A companhia tem pelo menos um papel de ampliação de intensidade.

A partilha é importante, quantas vezes olhamos para o lado e perguntamos: “viste isto?” e o simples comentar já é uma valorização. E quantas vezes nos sentimos sós pelo simples facto dessa partilha já não surtir efeito, de às nossas palavras já não responderem sons nem trejeitos no rosto, apenas uma face impávida que já nem nos fita.

Por outro lado, quantas vezes dou por mim a rir sozinha, com as ideias mirabolantes que passam pela minha cabeça. A rir, não, a sorrir… talvez a linha de separação se faça aí … entre risos e sorrisos.

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junho 29, 2004

Bolo de Aniversário para um Blog

Ingredientes

1 pouco de inspiração
1 mão cheia de sonhos
2 chávenas de letras
2 copos de graça
1 colher de chã de ironia
1 pitada de melancolia
vontadade q.b.
imagens para decoração

Pegar nos sonhos com cuidado para não ferir e polvilha-los com a inspiração, até ficarem completamente recobertos. Se faltar inspiração, juntar um pouco de improviso, ou então de açúcar em pó que o doce nunca amargou. Numa taça grande, colocar as letras como cama e de seguida pousar cuidadosamente os sonhos. Aguardar algum tempo de fermentação, para que os sonhos cresçam e transformem as letras em palavras, as palavras em ideias, as ideias em imagens. A taça deverá ser suficientemente grande para permitir aos sonhos que cresçam sem entraves. Escolha alguns, faça-lhes um pequeno golpe imperceptível e recheie-os com a ironia. Pegue nos restantes e junte-lhes a graça, reserve e preserve. Pegue na pitada de melancolia e vá pontuando um ou outro. Tudo isto deve ser feito com muito cuidado e muita vontade.
Distribua tudo em posts e decore com imagens a seu gosto. Depois, é só saborear e partilhar com todos que apreciem comida simples, mas cuidada, sabores autênticos.
E passar a receita, que de cada vez que é feita por uma pessoa diferente, mais um ingrediente é adicionado, um novo sabor é descoberto, uma textura é refinada.

Aqui fica o bolo de aniversário deste blog, comam o quanto quiserem e voltem sempre para mais.

Publicado por Maria em 11:59 PM | Comentários (14) | TrackBack

junho 23, 2004

Utopia (III)

**Utopia
O sonho, a imaginação e a inconformidade revelaram-se na utopia como o desejo de conseguir uma sociedade ideal e perfeita. Fruto de épocas de crise, em que a imaginação do Homem se evade, fugindo duma realidade difícil, buscando a felicidade num mundo que é apenas imaginário, mas que seria o ideal, caso existisse.

No mundo ocidental, este assunto foi abordado tanto por Platão, na Grécia, como por Virgílio, em Roma. Contudo, foi no Renascimento, com Thomas More, na sua obra Utopia , que este vocábulo se tornou mais utilizado.
Elemento fundamental para percebermos este vocábulo é a vontade de ruptura com o presente e o desejo de transformação, por vezes radical, das estruturas e valores sociais em vigor.
A utopia pode distinguir-se em várias tipologias: absolutas, relativas, negativas. Absolutas, quando entra em total contradição com a vivência humana. Aqui incluem-se, sobretudo, as utopias mitológicas. Relativas, quando nunca existiram projectos semelhantes, mas seria possível a sua realização. Utopias negativas ou distopias, quando a perfeição tecnológica na sociedade escraviza a condição humana, ou há a proposta de uma sociedade fechada e totalitária, apesar de utópica.

**Quimera
Um dos animais fabulosos da mitologia grega. Era algo entre o leão e a cabra, ou, noutras versões, com três cabeças - de cabra, de leão e de cobra -, ou então, numa versão mais generalizada, um monstro com cabeça de leão num corpo de cabra e com uma cauda de serpente. Como o dragão, deitava chamas pela boca, para além de devorar homens e exércitos inteiros.
Quimera era filha do gigante Tífon e da víbora Equidna, monstro que era metade mulher e metade serpente. Foi criada por Amisodores, rei de Cária. Vivia em Pátera, na Lícia, região do sul da Ásia Menor (actual Turquia). A sua monstruosidade gerava sentimentos de medo e de repulsa, o que fez com que Ióbates, rei da Lícia, tivesse mandado a Belerofonte que aniquilasse Quimera. Esta era acusada pelo soberano de efectuar devastações e roubos no seu reino.
Belerofonte apenas a conseguiu matar graças à ajuda de Pégaso, o cavalo alado. Segundo a lenda, terá penetrado no corpo do animal pela garganta armado de uma lança. A ponta desta lança de Belerofonte era, segundo a lenda, feita de chumbo, o qual, aquecido pelas chamas soltadas por Quimera, se terá fundido no corpo desta, provocando a morte do monstro por sufocamento.
Existia também uma ninfa na Sicília chamada Quimera, a qual se apaixonou por Dáfnis.
A palavra quimera, tornada um substantivo comum veio a ser sinónimo de "criação ilusória da imaginação", de "ideia falsa", tendo também alimentado alguma iconografia medieval.

Do dicionário on-line da Porto Editora - Infopédia

Obrigada M. pelas passagem das definições.

Publicado por Maria em 01:19 AM | Comentários (4) | TrackBack

Utopia (II)

Utopia (substantivo feminino)

1. projecto de governo que, a ser exequível, asseguraria a felicidade geral;
2. projecto imaginário, irreal;
(Do gr. oü, «não» +tópos, «lugar», pelo lat. Utopìa-, «utopia, lugar que não existe»)

quimera (substantivo feminino )

1. MITOLOGIA monstro lendário, com cabeça de leão, corpo de cabra e cauda de dragão;
2. figurado fantasia; ilusão; utopia;
3. figurado absurdo;
4. BOTÂNICA organismo vegetal, misto, constituído por tecidos diferentes;
5. ICTIOLOGIA designação (por aportuguesamento da designação científica do género Chimaera) dos peixes holocéfalos, de corpo alongado, mais vulgarmente conhecidos por papagaio-do-mar, peixe-rato e rato;

(Do gr. khímaira, «monstro fabuloso», pelo lat. Chimaera-, «id.»)

http://www.infopedia.pt/homepage.jsp

A propósito dos comentários ao post anterior.

Sem querer desculpar a minha ignorância congénita por só ter descoberto a palavra utopia com uma dúzia de anos, gostaria de chamar a atenção para as definições acima de um dicionário on-line acabadinho de consultar. Admito, não levantei o meu traseiro do sofá para ir consultar os dicionários em papel que tenho cá por casa, mas sendo esta edição on-line da Porto Editora, julgo poder usá-la como referência.

Da génese grega da palavra temos o seu significado original – não lugar ou o lugar que não existe. Não existindo, de que forma é que essa não existência poderia melhorar de algum modo a vida que vivemos. Como um objectivo inatingível mas que serviria como um íman dos nossos percursos. E se a memória não me falha, que nem a história nem a filosofia são matérias que domine, o segundo sentido de utopia, como o lugar da felicidade, é um conceito que surge no século XIX em Inglaterra e em França, ligado aos movimentos sociais. Saint-Simon, Robert Owen e Charles Fourier ficaram conhecidos por socialistas utópicos. Em comum, uma ideia de que era possível organizar a vivência humana, o espaço e as formas de produção de uma forma mais justa e equitativa para todos. E em comum também o facto de nenhum deles ter vingado …

A utopia, se atingida, necessariamente seria um não movimento…
Mas a ideia subjacente a este texto é outra bem diferente, é que a quimera de um mundo melhor, a utopia, esse lugar ideal que não existe é o que nos inspira a caminhar. Chegar lá não é o importante, o importante é o percurso que se faz. E o percurso só se faz porque existem ideais a atingir, ou a procurar atingir.

E podem continuar a puxar-me as orelhas … existem muitas coisas que descobri muito tarde, outras cedo demais, mas é do somatório dessas experiências, desses erros, das ignorâncias, das pretensas sabedorias, dos sofrimentos, das alegrias, dos debates mais ou menos acessos, que eu me fiz quem sou, por isso não me envergonho de só ter descoberto a palavra utopia com 12 anos.

Publicado por Maria em 01:11 AM | Comentários (9) | TrackBack

junho 22, 2004

Utopia

Esta história que não conhecia apanhei-a no "Espelho Mágico" que espero não se importe deste pequeno "mirror" que lhe faço. Adorei a história e o que ela encerra, a importância de ter objectivos, mesmo quando os mesmos parecem inalcançáveis.

"Um dia um aprendiz de filósofo chegou junto do seu velho mestre e perguntou-lhe:
-Mestre, podeis explicar-me o que é a Utopia?
O velho sorriu e apontando para o caminho em sua frente, disse:
-Estás a ver a linha do Horizonte? Caminhemos até ela!
Durante dias e noites, caminharam Mestre e aprendiz lado a lado, tão entretidos e concentrados, que, quem olhasse, não saberia quem ensinava e quem aprendia.
Durante dias e noites, trocaram saberes e ideias, partilharam o que cada um sabia sobre o mundo dos homens e dos deuses, até que o aprendiz, já impaciente e um pouco cansado, disse:
-Mestre...caminhámos durante tantos dias e parece que a linha do horizonte está cada vez mais distante?!
-Sim, é verdade – disse o velho – tal como a Utopia te parece, que quanto mais caminhas para ela, mais longe está!

-Mas...Mestre!? Se é assim...para que serve então a Utopia?

-Para caminhar, meu bom amigo...serve para caminhar!..."

Publicado por Maria em 10:29 PM | Comentários (13) | TrackBack

junho 21, 2004

Freeware

O texto que a seguir transcrevo faz parte do contrato de licença de um software. Sim, aqueles textos que ninguém lê, e que concorda imediatamente, para poder seguir com a instalação do programa. Mas de vez em quando, principalmente nos programas que são “freeware” ou “shareware”, encontram-se pérolas de ternura, como neste caso.

"Dedication Public License (DPL)
By downloading the archive, you confirm your agreement in this license.

I. Freeware

First of all, the reasons why Spybot-S&D is free:

I.a. Dedication

Spybot-S&D is dedicated to the most wonderful girl on earth :)

I.b. Binary

What do you get if you buy software? Lots of ones and zeros, nothing more. If they were distributed as art, I could understand paying it. But if the main goal of their order is to earn money - by fees or ads - I don't like it!

I.c. Conclusion

This means that I grant you the license to use Spybot-S&D as much as you like. But if you like it, I ask two things of you: say a prayer for me (and the most wonderful girl while you're at it ;) ) to your god - or whatever you believe - and wish us some luck.
(...) "


Publicado por Maria em 11:37 PM | Comentários (2) | TrackBack

junho 18, 2004

:))))))

Ontem fizeram-me um convite que me deixou muito feliz ... e mais não digo, por enquanto.

Publicado por Maria em 05:09 PM | Comentários (7) | TrackBack

junho 13, 2004

A ronca

Na praia de Apúlia costumava eu, em miúda, passar os meses de Verão. Para guiar os pescadores em tempos de neblina existia uma ronca colocada na zona central da praia. O som grave invadia a praia juntamente com a névoa húmida que filtrava o sol. O som parecia que ficava confinado, como se a névoa construísse barreiras à sua propagação. E o seu som, para além de guiar os pequenos barcos, afastando-os das rochas que defendiam a costa, protegia a praia que assim se tornava unicamente nossa, dos que tínhamos coragem de desafiar a névoa. Nesses dias, armados de casacos, baralhos de cartas e bolas, conquistávamos barracas alheias, jogávamos desafiadoramente nos espaços normalmente não permitidos, dizíamos que não à tirania do creme nívea que nos colava areia ao corpo.
Eu adorava os dias de neblina, adorava a humidade fina que se colava à pele, gostava do efeito do mar calmo que se diluía no céu.

A neblina que invadiu a costa nestes dias, o som que a espaços certos marca o ritmo do dia fez-me recordar esses tempos de criança e recorda-me o prazer de viver a dois passos do mar.

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junho 11, 2004

Às vezes

Às vezes apetece-me escrever sem pensar, deixar que as palavras corram velozes pela mente e que a mão, se for suficientemente rápida, as capture e cristalize.
Às vezes apetece-me fazer ligação directa entre o que sinto e o que escrevo e esquecer o Eu que pensa, que ordena, que organiza, que define, que restringe.
Às vezes apetece-me apanhar unicamente o ritmo das palavras, esquecer significados.
Às vezes apetece-me brincar com os sentidos segundos das ideias, procurar o que não é directo, o que desponta apenas.
Às vezes apetece não pensar, não ter lógica, não justificar, não arguir.
Às vezes apetece-me o apenas brincar com as letras que se juntam ao sabor de ordens místicas.
Às vezes apetece-me algo que eu não consigo identificar.
Às vezes apetece-me a não responsabilidade.
Às vezes apetece-me o sonho.
Às vezes apetece-me a liberdade de quem não tem amarras que lhe tolham movimentos, apetece-me ignorar a gravidade que me prende ao solo.
Às vezes apetece-me …

Publicado por Maria em 01:50 PM | Comentários (11) | TrackBack

junho 06, 2004

Desafio

Estrado de madeira escurecida em que o uso acentua o veio, junta aberta, irregular. Uma salamandra contra o vidro, hoje desligada porque o tempo já aquece. Corrijo, não uma, mas quatro salamandras, distribuídas igualmente pelo espaço, reparo nas chaminés em inox já queimadas pelo uso.

Mesas redondas, pé de galo em alumínio e tampo em contraplacado, folha desenrolada, raiz de qualquer árvore, sou capaz de afirmar. Junto ao mar a aragem ainda corre forte, por isso o abrigo da caixilharia de madeira e vidro ainda é um conforto que não se dispensa.

Do lado de fora, um varandim contínuo, com mesas e cadeiras de encontro a uma guarda de aspecto náutico, corrimão em madeira e protecções em corda grossa. Uma pérgula executada em ripas de madeira protege com sombra o interior.

Lá em baixo, sobre o rochedo, brinca um dálmata ainda jovem.

O Inverno, que acabou, fez os seus estragos e o carpinteiro procura as tábuas soltas, passo atrás e passo à frente, numa dança cuja coreografia me parece familiar. Volta com martelo e pregos, meia dúzia de pancadas, um pouco de ruído que se sobrepõe á musica ambiente. Vou continuando a ouvir, com intervalos, outras pancadas, cada vez mais graves e distantes.
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Escrevi este texto há cerca de dois meses, no caderninho que anda sempre na minha carteira. Hoje estive a passa-lo para o computador e lembrei-me de vos lançar um desafio.

Conseguem, os que conhecem o Porto, identificar o local que eu estou a descrever?

Publicado por Maria em 12:52 AM | Comentários (1) | TrackBack

Variações

Trabalhar as ideias lentamente, como o oleiro que dá forma ao barro, acentuando uns aspectos, esbatendo outros, fazê-las rodar entre os dedos e quando chegar ao fim, se o resultado não me satisfizer, começar de novo.

Trabalhar uma ideia lentamente como o oleiro que molda o barro, fazendo nascer um objecto da quantidade amorfa de material.

Trabalhar o barro como um escritor que pega numa ideia e lhe dá forma, lentamente, linha após linha, imagem após imagem, relendo, corrigindo palavras e pontuação, e chegando ao fim, se não me agradar, amarrotar a folha e começar de novo.

Trabalhar ideias como barro, lentamente dando-lhe forma, definindo o objecto imaginado.

Trabalhar as ideias lentamente, como o oleiro trabalha o barro, fazendo-o rodar longamente entre as mãos, começando por definir uma imagem geral que sucessivamente se vai aperfeiçoando, enchendo de pormenores e decorações, e no fim, se ainda não me agradar começar de novo.

Trabalhar as ideias lentamente, como o oleiro trabalha o barro, primeiro definindo a estrutura geral e depois pormenorizando e caracterizando.

Trabalhar as ideias com cuidado, como o oleiro molda o barro, dando-lhe forma lentamente, como quem esculpe e retira o que é excessivo, como quem molda e coloca a matéria no local correcto, como quem pinta e junta as cores para melhor mostrar as imagens, como quem pensa, e escreve mentalmente, recuando sempre que necessário, reescrevendo o já pensado, trabalhar as ideias com carinho ...

Publicado por Maria em 12:12 AM | Comentários (1) | TrackBack

junho 05, 2004

Ainda a Lua

De tanto viver na cidade tenho tendência a esquecer coisas belas que aqui perdem a sua força, o seu encanto, como a luz da Lua que ilumina a natureza, sem qualquer auxílio eléctrico, hoje como há milhares de anos.

A intensidade dessa luz, esse brilho leitoso, perde-se completamente na cidade onde a iluminação artificial compete avidamente pelo estrelato.

Vi uma imagem num filme e pensei, há quanto tempo não ando eu, assim pela noite, iluminada só pela luz da lua e das estrelas?

O concurso do Zé António fez-me recordar este meu texto.

Publicado por Maria em 08:00 PM | Comentários (0) | TrackBack

junho 01, 2004

Verdadeiros Tesouros

Foi um post do Zé António que me fez recordar este outro texto, vindo do outro lado do Atlântico. Em comum, a evidência que as palavras dos outros nos conseguem ensinar a ver, a pensar, a sentir, a agir e quem sabe a viver. Ás vezes os nossos sentidos precisam de ser despertados, porque pelo hábito ficam embotados e deixam de apreciar o que os envolve.
A oferta de um olhar diferente, traduzido em palavras ou em imagens, consegue pintar de novas cores o que nos envolve, consegue muitas vezes devolver confianças e sonhos.

“O dono de um pequeno comércio, amigo do grande poeta Olavo Bilac, abordou-o na rua e disse:

- Sr. Bilac, estou precisando vender o meu sítio que o senhor tão bem conhece. Será que o senhor poderia redigir um anúncio para o jornal?

Olavo Bilac apanhou o papel e escreveu:

- Vende-se uma encantadora propriedade, onde cantam os pássaros ao amanhecer no extenso arvoredo cortado por cristalinas e marejantes águas de um ribeirão. A casa banhada pelo sol nascente oferece sombra tranquila das tardes na varanda.

Meses depois topa o poeta com o homem pergunta-lhe se havia vendido o sítio.

- Nem pensei nisso, disse o homem. Quando li o anúncio é que percebi a maravilha que tinha.

Ás vezes não descobrimos as coisas que temos connosco e vamos longe atrás de miragens de falso tesouro. Valorize o que você tem, os amigos que estão perto de você, o emprego que Deus lhe deu, o conhecimento que você adquiriu, a sua saúde, o sorriso de seus pais, esses são os verdadeiros tesouros!”

Publicado por Maria em 11:16 AM | Comentários (5) | TrackBack

maio 29, 2004

Fotografias do Olhar


O molhe marca uma linha horizontal escura pontuada no extremo pelo farol em granito com elementos em madeira e metálicos pintados de vermelho vivo. No céu cinzento, as nuvens quase uniformes deixam duas linhas, também horizontais, mais claras, não chega a ser céu, não chega a ser sol, apenas a diminuição da espessura que permite uma diferente tonalidade.

Em baixo o mar está dinâmico, ondulação média que se desfaz de encontro ao molhe ou no pequeno areal que serve de praia. Um perfil de gaivota em voo recorta-se sobre o branco de uma onda, mesmo no ponto em que esta toca o molhe.

É uma composição em tons de cinza azulado em que a única nota de cor está no pequeno farol.

O barco regressa da pesca, as cores esbatidas e as marcas de ferrugem mostram a sua idade. Vem carregado porque, qual cometa, traz na cauda um bando de gaivotas ansiando por comida fácil. Não tem um porte altivo, antes pelo contrário, parece afundar-se nas águas do rio, escondendo-se ou aconchegando-se na ondulação que provoca.

Outro grupo de gaivotas acompanha o borbulhar branco de uma crista de onda, daquelas que se desfazem em pequenas gotas deixando uma névoa localizada.
Ao longe, a linha de horizonte aparece difusa, efeito da névoa e da falta de luz do dia.

Fotografias tiradas pelo olhar que se entretém a observar a paisagem, olhar que descansa na agitação constante da natureza. Uma das vantagens destas fotografias que o olhar tira e a mente recorda é que na mesma imagem se conjugam elementos que estão desfasados no espaço e no tempo.

Publicado por Maria em 10:49 PM | Comentários (6) | TrackBack

maio 23, 2004

Fonte da eterna juventude

"A idade não protege contra o amor.  
Mas o amor, em medida certa, protege contra a idade"
Jeanne Moreau - actriz

Recebi esta frase no meio de outras num pps que circula pela net.

Não posso deixar de concordar.

O amor, a felicidade, a paixão, o viver com intensidade, o fazer o que se gosta, a companhia dos amigos, uma boa conversa, as coisas lindas que se apreciam … tudo isso são poções mágicas anti-envelhecimento.

E mesmo quando as rugas desenham já sulcos no rosto, a alma continua lisa e radiosa como a pele de uma criança, o sorriso continua franco e envolvente, os olhos com um brilho vivo.

Publicado por Maria em 12:11 AM | Comentários (5) | TrackBack

maio 21, 2004

Braço de Ferro IV


Obrigada a todos pela força, conselhos, simpatia e ajuda.
O braço de ferro continua segunda-feira, prometo dar notícia da evolução.
Hoje … foi dia de deixar a máquina pensar que eu tinha desistido, e de eu colocar a minha cabeça em outros afazeres.

Publicado por Maria em 06:58 PM | Comentários (7) | TrackBack

Braço de ferro III

Ao final do dia de trabalho a máquina ainda vencia o homem, neste caso, a mulher.

O bluff do “Format C:” não funcionou e a máquina riu-se na minha cara e disse-me:

“Então tu não sabes que o meu sistema operativo está no disco D?
E não te lembras como é que isto começou?
Contigo limpares com esfregona e detergente o disco C, não deixando nem vestígios de alguns ficheirinhos que me eram queridos.
A vingança é um prato que se serve frio … e eu tenho tempo, não me importa que as minhas entranhas estejam à mostra, despudoradamente, que me ligues e desligues sem respeito, com uma tampa de esferográfica, que me xingues, ameaces. A minha memória é perene, registo tudo o que fazes, tudo o que instalas, tudo o que tentas retirar e não esqueço uma afronta … vais sofrer ainda mais um pouco.
Sofrer de amnésia, eu? Só se não conseguir evitar, só se a pancada for muito grande.”

Computador 999 – Minzinha 0,5 *

*consegui instalar a impressora de rede :)

Publicado por Maria em 12:15 AM | Comentários (4) | TrackBack

maio 20, 2004

Braço de Ferro II

Actualização de resultados

Computador 2 - Minzinha 0

Posição de força pode ser tomada nas próximas horas ...

Format c:

Publicado por Maria em 03:01 PM | Comentários (11) | TrackBack

Braço de ferro

Hoje andei o dia todo num braço de ferro com o computador.
Já não é luta nova, mas hoje ele esmerou-se.
Em 15 dias já instalei o sistema operativo 3 vezes, e hoje, depois de instalar o anti-virus não é que o gajo tem a lata de me dizer que eu não tenho permissão de administrador, que não posso activar o anti-virus!!! Se quisesse um anti-vírus para enfeitar, arranjava um laçarote.
E como ele me diz que não tenho permissão de administrador (quem me manda deixar o campo das passwords em branco) nem sequer o consigo desinstalar.
Advinha-se para amanhã nova luta, que eu espero que não acabe como hoje:
Computador 1 – Minzinha 0

Publicado por Maria em 12:55 AM | Comentários (9) | TrackBack

maio 17, 2004

Procurar casa nova

Recordação do tempo em que procurava casa…dedicada a uma amiga que está a passar pelo mesmo.

“Ainda não encontrei a casa ideal, e já começo a estar farta de ver casas. O que na minha profissão não devia acontecer. Ainda por cima os meus alunos estão também a desenvolver programas de habitação pelo que ainda tenho que ver as casas que eles fazem.

A questão na procura de casa, para mim, coloca-se da seguinte forma:

- Procuro casa com boa orientação solar, sala a poente, quartos com qualquer orienação, excepto Norte. - já eliminei 30% do que existe disponível no mercado.
- Quero casa com 2 lugares de garagem - lá se foram mais 20%
- Quero casa com gás canalizado, e aquecimento central - lá se vão mais 20%
- Quero casa com acabamentos decentes, isto é, madeiras sem rabiosques e
roda-tectos o mais liso possível - lá se vão outros 10%
- Quero casa dentro de certos níveis de preço - eliminei 19.9%

Fico então com 0.1% para eu encontrar a casa ideal - mas onde é que ela para?

Já encontrei um apartamento jeitoso, com bom preço, boa localização. Já
estávamos para comprar mas antes queríamos fazer um teste à garagem, pois
parecia-nos apertada.
A garagem não passou no teste! O senhor da imobiliária esmurrou o carro dele 3 vezes a tentar provar que se fazia bem a manobra...

E é neste pé que estou.
Acho que já vi mais de 50 apartamentos neste último mês.
E encontro sempre defeitos....
Acho que a minha casa ideal anda muito bem escondida.”

Epílogo
Custou, mas acabei encontrando casa, depois de quase 3 meses de procura e mais de 100 apartamentos / moradias analisados, em diversos locais, sempre entre o rio Douro e o rio Leça, que de pontes e filas estava eu já farta. Uma casa em conclusão de construção, 2 meses para a escritura, diziam os vendedores, ano e meio até à mudança, foi o que efectivamente sucedeu.

Conselhos a quem procura casa:

- Definir logo à partida se pretendem casa nova ou se pode ser usada.
- Definir qual é o tempo de espera que aceitam.
- Definir com rigor qual é o limite máximo que podem gastar, incluindo custos indirectos.
- Definir tipologias e áreas mínimas (e máximas).
- Definir características das quais não abdicam, orientação solar, por exemplo.
- Só irem ver as casas que respondam a todos os vossos requisitos. (Não vale a pena ir ver algo que à partida tem logo algo que não vos agrada, só vão ficar maçados, moídos, vão perdendo a capacidade de discernimento e vão-se tornar presa fácil para compras menos aconselháveis).
- Depois de encontrada a casa “dos vossos sonhos” antes de assinar qualquer papel, exigir prova da existência de licença de habitabilidade (foi aqui que eu errei).
- Se comprarem em construção, estarem cientes que o tempo apontado poderá não ser cumprido, pelo que o melhor será estabelecer prazos e penalidades de atraso no contrato promessa. Nunca deixem nada só “de boca”, não é válido em tribunal.

E já agora, se tiverem mais conselhos, por favor deixem nos comentários. Por mim, não devem ser usados tão cedo, já tive a minha dose por alguns anos.

Publicado por Maria em 12:01 AM | Comentários (4) | TrackBack

maio 16, 2004

Terror

O meu maior medo confirmou-se …
A máquina de lavar roupa avariou!

Publicado por Maria em 10:10 PM | Comentários (6) | TrackBack

maio 15, 2004

Dejá-Vue

Ontem fiquei com um “dejá-vue” engasgado.
O problema dos “dejá-vue” que não nos agradam é que são extremamente difíceis de mastigar e engolir, porque já sabemos exactamente a que sabem e temos ainda memória fresca da forma áspera como atravessam a garganta parecendo querer levar a nossa pele junta com ele, queimando tudo à passagem. Tentamos assim esquivarmo-nos à sua ingestão, o que é quase impossível, porque um “dejá-vue” não se esfuma, não se derrete, fica ali, com cheiros e gostos bem presentes.
Mas existem também “dejá-vue” doces e deliciosos, nem todos são desagradáveis.

Publicado por Maria em 07:05 PM | Comentários (3) | TrackBack

maio 13, 2004

Se ...

Se fosse preciso parar para respirar ... hoje eu tinha morrido de asfixia. :)

Publicado por Maria em 11:10 PM | Comentários (11) | TrackBack

maio 11, 2004

Lisboa que amanhece …

Sérgio Godinho canta com Caetano Veloso e eu escuto, deliciada, o CD. Não é a revelação, que o CD já tocou vezes sem fim no leitor do carro. É um sentido de quem retorna a locais conhecidos depois de andar longe, quiçá perdido. O que nos provoca o sorriso é o retorno, é o já lá ter estado e voltar. Gosto destas viagens que me levam de volta a partes de mim que vão ficando para trás à medida que eu avanço na vida. Não me consigo levar integralmente vida fora. Como cobra que muda periodicamente a pele, também eu vou deixando partes de mim imutáveis na memória, na minha memória, mas praticamente imperceptíveis para os outros. E a visita a esses “Eu” que em tempos fui, mas que tive que abandonar para poder prosseguir, ou que acabaram esquecidos no meio de outras coisas que se tornaram importantes, urgentes, e que também elas passaram não deixando memória, essas visitas são momentos que me tocam, são dádivas trazidas por músicas, odores ou olhares. Ás vezes as saudades são fortes e irracionais porque já nem sei do que sinto falta, já não sei que memórias as músicas invocam, não identifico situações nem locais, apenas o sentido do retorno e do reencontro com pequenas coisas que me davam prazer.

Publicado por Maria em 11:02 PM | Comentários (7) | TrackBack

maio 08, 2004

Não sei ...

A propósito deste post no Vivendo a Vida .

Eu não tenho certezas sobre muitas coisas, Deus é uma delas.

Se por um lado não sou religiosa, e busco na ciência a explicação racional para os fenómenos observados, por outro lado não excluo a existência de uma entidade que agregue tudo. Se é uma entidade pré-existente e que ditou as regras que levaram à formação do nosso universo, se é um ser que resultou do nascimento do universo, não sei.

Só sei que é a existência dessas regras que nos permite existir e evoluir. Não criamos nada para o qual não estejam já definidas as regras que lhe dão suporte. Não existem invenções, apenas descobertas. As leis físicas que regem o universo são o que nos permite, por exemplo, comunicar à distância, transmitir imagens, ter equipamentos eléctricos em casa. Nós simplesmente aprendemos a fazer uso das potencialidades que este universo encerra. Não conseguiríamos inventar nada se à partida não estivessem definidas as regras, ou leis, que lhe darão suporte.

E é esse facto que nos permite lançar mensagens para o espaço, tentando comunicar com outras formas de vida, esperando que os mesmos possam descodificar o sinal enviado. As leis físicas são as mesmas por isso é unicamente uma questão de tempo e evolução tecnológica.

Se é Deus responsável pelo facto, ou se esse facto é a prova da existência de Deus, não sei.

Publicado por Maria em 05:51 PM | Comentários (4) | TrackBack

Um post fora do tempo

(7-5-2004 – 9:00)

Marginal do Porto, junto ao parque da cidade, o “vassourinhas” dá voltas e voltas tentando limpar os vestígios de uma madrugada de Queima. Dois lixeiros munidos de pistolas de ar empurram para a rua o lixo acumulado no passeio. Mesmo os caixotes do lixo são despejados para a rua, para que o veículo de limpeza aspire copos de plástico e restos de embalagens.

Nas ruas secundárias de Matosinhos – Sul ainda se encontram carros estacionados num improvisado e hipotético separador central, pelos passeios e junto ao mar ainda permanecem jovens envoltos em mantos escuros.

Ainda faltam mais duas madrugadas de insónia forçada até que a calma regresse a Matosinhos – Sul.

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maio 06, 2004

Saudades dos sorrisos

Tenho saudades de risos cristalinos, contagiantes, daqueles que nos libertam do peso da vida. Brincadeiras doidas, como crianças que ganham força num riso para o seguinte. Aquele riso dobrado, triplicado, replicado em sonoras gargalhadas.
Tenho saudades de tempos mais despreocupados, de tempos quentes de Verão, tardes passadas à beira-mar, livros lidos com a avidez de quem mergulha integralmente na história.
Tenho sim, também saudades de sorrisos. Tenho sim saudades de olhares sem mágoas, olhares sem tristezas lactentes.

15-3-2004

Publicado por Maria em 12:14 AM | Comentários (23) | TrackBack

abril 27, 2004

Encontro de blogs

Próximo sábado mais de meia centena de bloggers vão finalmente ver-se cara a cara. Por mim falo que não conheço ninguém, nem pessoalmente nem mesmo por foto. A Jacky diz que já está a stressar com a ansiedade.

Eu tenho algumas expectativas, claro, curiosidade em ligar textos e rostos. Nunca fui a um encontro destes, de bloggers, ou de frequentadores de canais do irc, por isso não sei como irei reagir. Tenho consciência que somos demais para conseguir conversar com todos, necessariamente se irão formar grupos.

Sei que vai ser sempre um choque porque vamos confrontar uma imagem de alguém com o que ela efectivamente é. E de certeza que quer essa imagem tenha resultado de descrições feitas quer da nossa própria imaginação dificilmente irá coincidir com a realidade.

imagem.jpg

“Que dizer? Que vestir? Como nos vamos apresentar?” continua a Jacky.

Acho que a última dúvida é importante. Não só como nos vamos apresentar mas como vamos ligar a pessoa que temos à frente ao blog que costumamos consultar no nosso computador. Já pensaram em fazer um daqueles crachás de lapela com o layout do blog para uma mais directa identificação? Deixo aqui o meu, directo e pouco imaginativo, que o tempo tem sido curto.

E o vosso como seria?

putadevida-m.jpg

Mas podemos sempre seguir a sugestão do Fernando e permanecermos incógnitos, cada um arranja um nome, por exemplo de uma personagem de B.D. e usa esse nome.

O que acham?

(Eu cá fico com o Garfield ou com a Pink Panther)
(Poxa não devia ter dito, agora vou ter de arranjar outro).

Publicado por Maria em 01:36 PM | Comentários (9) | TrackBack

abril 25, 2004

Horóscopo das Flores

PAPOILA (de 6/8 a 28/8 )

"Esta flor de cores brilhantes é a fonte do extracto usado para preparar o ópio. As pessoas nascidas sob o signo da Papoila gostam de viver ao ritmo da aventura. São optimistas, alegres e fazem questão de disseminar energia positiva e alto astral por onde quer que passem. Estão sempre em busca de novidades e não se lamentam quando algo dá errado, pois acreditam na importância de aprender com as experiências. Buscam avidamente novos conhecimentos e colocam paixão em tudo o que fazem. Tendem a exercer verdadeiro fascínio sobre o sexo oposto, mas podem se comportar de um jeito bastante instável nos relacionamentos amorosos." in Linguagem das Flores

Agrada-me ser uma papoila ...

Publicado por Maria em 12:08 AM | Comentários (4) | TrackBack

abril 17, 2004

Inspiração

Existem dias em que a inspiração não chega. Hoje é um desses dias.

Apesar do mar que se estende à minha frente, da sua ondulação ligeira e brilho vivo, apesar da espuma branca que se forma quase sob os meus pés, apesar do farol que se recorta contra o céu, sobre o molhe, apesar das gaivotas que passam lentamente à frente dos meus olhos, perscrutando o mar em busca de peixe, apesar do sol que brinda o mar, apesar de tudo não consigo escrever. Já ensaiei inícios vários, abandonados algumas linhas depois não satisfeita com o resultado. O erro deve ser certamente meu que quero contar algo que apenas se sente. Uma descrição é pálida, falta-lhe o calor do sol que me chega, reflectido pela ondulação do mar, falta o encanto da música, faltam todos os pormenores em que eu me prendo mas que contados perdem a graça.

A ferrugem na salamandra não é sinal de degradação, mas a marca do tempo e da proximidade do mar. Gosto da ferrugem, gosto da textura da ferrugem em cima do metal, do modo como lhe vai alterando a forma. A ferrugem nos metais é um pouco como as rugas nos humanos, existem porque estamos expostos, porque sorrimos, porque choramos, porque sentimos, porque vivemos. O ferro sem marcas ainda não viveu, ainda não cumpriu os seus desígnios.

Não consigo transmitir a beleza da corda escurecida pelo uso quando o sol desenha com sombras os fios que se entrançam.

Existem dias em que a inspiração tarda em chegar …

Publicado por Maria em 12:33 AM | Comentários (9) | TrackBack

abril 12, 2004

O mais lindo!!

Para mim, este é um dos arruamentos mais bonitos do Porto.
Gosto do desenho da via, do percurso que se faz, curvando num sentido e depois no outro, mostrando sempre vistas diferentes.
Gosto muito das árvores, e das cores que adquirem nas diversas estações. Gosto da forma como filtram a luz do sol e a luz do dia, criando uma atmosfera diferente.
Hoje passei por lá e as arvores estavam com esta cor.
E vocês! Qual é a vossa rua / avenida / alameda / viela …. preferida?

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Quando precisarem de mapas, este site tem mapas de todo o mundo.

Publicado por Maria em 11:35 PM | Comentários (7) | TrackBack

abril 11, 2004

A praia

A praia lançava-me um convite, à medida que eu contornava a rotunda do Castelo do Queijo, e depois seguia, descrevendo a curva da marginal de Matosinhos e o cheiro a maresia invadia o carro.

Abri mais as janelas, o ar exterior não conseguia competir em frescura com o ar condicionado, mas o odor forte marítimo compensava o calor.

O dia fora extraordinariamente quente, o sol brilhava com uma força pouco usual desde manhã cedo. Uma centena de metros de distância do mar e a temperatura subia logo vários graus. Na praça atravessar o espaço que separava umas arcadas das outras, parecia ser atravessar o deserto, o ar seco e o sol queimando a pele.

Debaixo das arcadas, por comparação até parecia fresco... mas era uma sensação rapidamente ultrapassada mal a pele se habituava de novo à temperatura e uma fina camada de suor a recobria outra vez.

Estava decidida a aceitar o convite lançado pela beira-mar, e estender-me no areal aproveitando os últimos raios de sol. Não esperava que esses últimos brilhos, já quebrados, conseguissem alterar a tez da minha pele, branca ainda, mas esperava que pelo menos me conseguisse proporcionar aquela sensação de ligeira ardência de pele em fim de dia de praia. Sensação que, inexplicavelmente, não consegue ser atingida se em vez de me estender no areal, preferir a calma da varanda a três quarteirões do mar. Aquela sensibilidade que transforma o calor de obsessivo em reconfortante, envolvente, acariciante. Aquela sensação de arrepio que mimetiza outros momentos.

No areal, o sol já havia perdido parte da sua força, uma ligeira neblina filtrava a luz, e uma aragem mantinha a pele fresca. Cruzei-me com varias pessoas que terminavam o seu dia de praia, seis da tarde, exactamente no momento em que estendi a tolha na areia e olhei o telemóvel, meu único relógio desde que acabei conquistada, ou vencida, ou rendida à comodidade de estar sempre contactável. O relógio de pulso foi abandonado no verão, como todos os anos para não marcar o braço com uma mancha clara, mas também pela sensação de liberdade que isso proporciona, não saber que horas são e não me importar com isso. Foi abandonado e não mais retomado.

Deitada iniciei a leitura de um livro, o tipo de escrita não me cativava, frases curtas, ambiguidade. Algumas imagens bonitas, sim, mas uma história que se conta muito pouco, que se deixa perceber, que se deixa imaginar mas que não corre fluida como um rio, como a água que foge da nascente, como eu gosto.

Gosto de ler e gosto que as palavras me conduzam ao longo da história como quem faz um passeio, com ritmos diferentes, vendo cidades diferentes, mas num movimento que evolui e que não se imobiliza abruptamente.

Não gosto da condução nervosa de quem pára bruscamente e acelera com a mesma rapidez, não gosto de sentir o solavanco, gosto do iniciar suave, de uma paragem que se anuncia.

O texto não me agradou, parecia a escrita nervosa de quem está parado num semáforo esperando impacientemente que o sinal fique verde.

Se tivesse o ritmo da poesia, as frases curtas, as paragens abruptas seriam bem vindas, como quando fico brincando com o pedal do travão ao som da música, tentando, pelas luzes vermelhas intermitentes, passar a música que escuto a quem mais compartilha a fila comigo.

Abandonei a leitura no final do segundo capitulo. Não abandonei, interrompi, porque apesar do estilo de escrita não ser aquele com que mais me identifico, não quero colocar palas nos olhos e fechar-me para outras formas de sentir a nossa língua.

O sol já não tinha praticamente força para se sobrepor à brisa que sopra em fim de tarde e a pele vai sentindo, alternadamente, o arrepio de frio e a sudação do calor.

Opto por dormir um pouco, fechar os olhos, pensar, reflectir e esperar que a mente se desligue um pouco da realidade, dos sons que a envolvem, os gritos dos miúdos que jogam à bola, os comentários do grupo que joga às cartas. Se abstraia mesmo do som do mar, e sinta unicamente um zumbido sem sentido, sem significado mas que aconchega o meu cérebro.
(5-8-2003)

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abril 04, 2004

Vícios, Hábitos e Prazeres III

Mais vícios, hábitos e prazeres descritos passo a passo. E como quem conta um conto acrescenta um ponto, mais uma palavra a ser lançada para a reflexão; Fotografia.

Tirar fotografias é uma prazer desde há muito tempo, desde criança e da altura em que pela primeira vez me colocaram uma máquina nas mãos. A máquina fotográfica da família passou a ser a minha máquina, dela me apropriei sem pedido de autorização mas também sem contestação. Ainda conservo essa máquina, embora um pouco maltratada face a uma queda em que ela me amparou o embate com o solo.
Hoje, com a facilidade e a economia das fotografias digitais, acabo a fazer muitas mais, a experimentar muito mais, se não gostar, se ficar mal, é só apagar. Mas continuo a gostar de uma máquina não digital, em que eu controlo velocidade, abertura, brinco com a profundidade de campo, em que imagino o resultado mas tenho de esperar pela confirmação. O imediatismo da fotografia digital também lhe retira algum encanto.

Publicado por Maria em 10:51 PM | Comentários (3) | TrackBack

abril 02, 2004

Vícios ou hábitos II

O Alex fala dos seus Vícios, Hábitos e Prazeres. E lançou mais um tema a juntar aos restantes, as viagens.

Então falemos de Viagens.
Adoro viajar, conhecer outros locais, comungar de outros tipos de vida. Gosto particularmente quando a viagem se afasta do que são os guias turísticos e se embrenha em rotas menos trilhadas, em olhares menos espantosos mas nem por isso menos belos. Gostava de dizer que as viagens são um hábito de todos os dias, mas não são. São um hábito de férias grandes em que me transformo em esponja tentando absorver tudo aquilo com que entro em contacto.

Publicado por Maria em 03:25 PM | Comentários (3) | TrackBack

abril 01, 2004

Vícios ou hábitos?

De uma conversa com um amigo surgiu uma lista de palavras, coisas que geralmente associamos, mesmo que em brincadeira, a vícios. Não sou particularmente atreita a vícios, mais a hábitos.

Internet:
Hábito absorvente. Vício, muito provavelmente. Vou fazendo desintoxicações cíclicas nas férias grandes! Até já me disseram que o meu local preferido para sair à noite é o portátil.

Álcool:
Muito pouco, em festas, um jantar mais formal ... e umas cervejinhas nas férias... ou quando me sinto ... de férias. Muito pouca resistência, pareço o Mercúrio, com asas nos pés.

Tabaco:
Dei uma passa uma vez, chegou ... não era mau, mas também não valia a pena pelas consequências.

Drogas:
Nunca... o meu corpo fabrica tudo o que preciso.

Café:
Sim, vários por dia ... com adoçante (mas não por questões de engordar, é mesmo porque um comprimido é a dose certa)!

Comida:
Pode ser um prazer, um hábito é de certeza.

Sexo:
Sim, por prazer, nunca por hábito. Mas vício, também não é.

Cinema:
Gosto, mas infelizmente não é um hábito.

Música:
Sempre, mesmo no silêncio existem melodias que ecoam na minha cabeça. Vício, talvez... como o ar que respiro.

Livros:
Podem ser viciantes, já me perdi até de madrugada com livros. Foram um hábito forte, desde miúda. Nos últimos anos, o hábito tem perdido a força, resultado do ritmo de vida e de outras coisas com que facilmente me perco.

(Ultima actualização)
Blogs:
Ainda nem um vício nem um hábito, estou ainda na fase da paixão. Mas acho que são completamente viciantes, de um passa-se a outro, desse ao seguinte e assim, quando damos conta, se passou o serão.

E quais são os vossos vícios? Ou os vossos hábitos?

Publicado por Maria em 12:28 AM | Comentários (7) | TrackBack

março 24, 2004

Tempo de recordações

"Como vai Senhor Contente?
Como vai meu caro amigo, Senhor Feliz?
Diga à gente, diga à gente, como vai este país…"

A RTP está em tempo de recordações … e não pude deixar de sorrir ao ouvir esta música. Eu era miúda e adorava. Mas acho que naquela altura eu era fácil de contentar.

Hoje, com a televisão que temos, nem feliz nem contente. Só ainda está ligada pela preguiça de me esticar e apanhar o telecomando, porque o meu maior interesse é despertado por um outro ecran, mais pequeno mas muito mais interactivo.

"… como vai este país…"

Vai diferente, com toda a certeza. Em algumas coisas vai bem mal, mas noutras vai a anos-luz de distância, se por uma lado temos mais violência, menos segurança, por outro temos mais informação ( e desinformação), acesso a muitas mais coisas, podemos ser mais exigentes, aspirar a mais conforto e comodidade. Se por um lado somos mais consumistas, por outro lado também os bens ligados à cultura se tornaram mais acessíveis, quer por serem menos caros, quer por existirem formas alternativas de divulgação, como a Internet.

Sorri da lembrança da criança que eu era então, da forma como olhava o mundo, como sentia a vida. Mas não tenho saudades do Portugal de então, reconheço-lhe certamente virtudes a par com muitos defeitos. E como diz o Povo, para a frente é que é caminho.


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março 23, 2004

Amigo

Olá Amigo

Se a vida fosse simples, não teria metade da graça que tem, isso tenho por certo. Mas sei que também não teria metade dos problemas, das dores ou angústias.

Se em cada momento tivéssemos certezas de tudo, saberíamos sempre o nosso caminho, mas onde ficariam a surpresa, a espontaneidade, onde ficaria a emoção da descoberta?

Não tenho certezas absolutas, sei o que sinto em cada momento, não sei se daqui a alguns anos pensarei da mesma forma, sentirei com a mesma intensidade, com as mesmas cores.

As questões que me colocaste são extremamente pertinentes, e só provam a ideia que tinha de ti, de alguém com uma sensibilidade especial e uma boa capacidade de avaliar situações.

Talvez seja como tu dizes, alguém com alguma experiência de vida.

Muitas são questões que eu já me coloquei, que já me foram colocadas, ou que nos colocamos mutuamente. São assuntos debatidos, muitas vezes aceites em teoria, mas que sabemos que só a pratica e a vivência de situações permitirá ter certezas.

Conseguir debater uma situação, sem cometer o mesmo erro, isto é, sem revelar questões que não são só minhas, é extremamente difícil, quiçá impossível.

Sempre me coloquei por inteiro no que faço, e acabei por ter a mesma postura na net, esquecendo que esta é uma realidade diferente, realidade feita de reflexões disformes em espelhos espalhados, em que cada um vê o que quer ver, em que cada um mostra o que quer mostrar.

Tenho gostado imenso de falar contigo, já tinha deixado de ser meu hábito ficar até de madrugada na "conversa". Acho que o que me atraiu nesta forma de utilização da internet são as conversas que eu não me imagino a ter cara a cara, por timidez, decoro, falta de oportunidade, tempo, e sei lá o que mais.

E depois de descobertas estas conversas, é difícil abdicar delas. E ás vezes ficamos presos a um ecran vazio à espera que algo se mostre, porque nos apetecia mais do que trabalho, mais do que um livro. Apetecia-nos espreitar directamente para o interior de outro ser, apetecia-nos deixar que alguém compartilhasse o que nos vai na alma.

Apetecia-nos observar a vida por uns outros olhos, saber de outras experiências.

Os momentos são raros, mas por vezes acontecem. Desenvolvem-se cumplicidades, atracções, dependências, ideias de sentidos ocultos, destinos ... uma miríade de sensações porque naquela conversa estamos a colocar tudo o que desejaríamos sentir nesse momento.

Fui escrevendo isto, no meio de descrições de portas e janelas, tijolos e argamassas... saltando entre janelas. E é também isto que me atrai na net, a inspiração para a escrita, para a reflexão, sozinha ou acompanhada.

E o poder deixar fluir as sensações, poder ser suficientemente louca para falar sério, ou demasiadamente ajuizada para poder brincar, para me poder deixar levar, simplesmente, ao sabor de uma frase, de uma palavra. Buscar as imagens, brincar com elas, adorar escrever, adorar ver o efeito das palavras, em mim e nos outros.

Tens aqui um espelho de mim, nesta altura, neste momento. Espelho fiel nunca será, basta que a inclinação mude para que o que mostre já seja diferente. Vale pelo que vale. Para mim vale essencialmente pelo prazer que me deu.
Um beijo

Amiga

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março 21, 2004

Era uma vez …

Era uma vez um reino distante habitado por sentimentos e sensações.

Havia paixões, amores, amizades, ódios, tristezas, alegrias, havia também orgulhos, preconceitos, avarezas. Viviam separados por castas, as paixões com paixões se davam, os ódios alimentavam outros ódios, as tristezas contagiavam-se mutuamente.

As invejas eram como hienas, sempre dissimuladas na abordagem, ávidas pelo saque mas sem coragem para assumirem a vontade.
Os orgulhos mantinham-se à parte, ignorando completamente os demais.
As desconfianças eram rios tumultuosos que minavam tudo à sua passagem.
Os amores eram quais frágeis flores que necessitavam todo o cuidado para não perderem o viço.
As ignorâncias eram felizes e inocentes, já que nada sabiam nada as perturbava.
As raivas eram como nascentes de águas quentes e sulfurosas.

Este era o reino de Norte, onde as castas viviam isoladas. A Sul existia outro reino, onde os sentimentos se misturavam.

Os amores eram contaminados por dúvidas e desconfianças. Os desalentos eram diluídos pelas alegrias, as saudades mitigadas pelas recordações.

No reino de Norte os dias decorriam sempre iguais, no reino de Sul ninguém conhecia o seu futuro.

(apeteceu-me ser criança e contar uma história que começasse por: ERA UMA VEZ...)

Publicado por Maria em 06:34 PM | Comentários (1) | TrackBack

Amor e paixão

Erro simplista e infantil o meu, o de confundir amor e paixão. O de tomar a parte pelo todo.
As paixões são fortes e efémeras, podem ser lavadas facilmente pelas gotas de orvalho da manhã. Ou podem transmutarem-se em amores, mais constantes, calmos e confiáveis.
Uma paixão é uma montanha russa, cheia de adrenalina. Um amor é um carrossel de criança, vai dando as suas voltas muito mais calmamente. As paixões têm a urgência, os amores todo o tempo do mundo.

Mas ás vezes confundimos as definições tentando com isso dar notícia da intensidade com que sentimos. Como se ao dizer paixão, usássemos um superlativo, e estivéssemos a falar de um amor intenso, forte, de um amor apaixonado, que se mantém palpitante. Mas paixão não é um superlativo de amor. Amor e paixão são efectivamente sentimentos diferentes, que em determinada altura podem mesmo coexistir.

Publicado por Maria em 06:23 PM | Comentários (1) | TrackBack

março 20, 2004

Conhecer


Conhecer as pessoas como um livro.
Não ficar só pelas informações da capa, nem se ater aos pequenos resumos e opiniões diversas que colocam nas badanas.
Mas folhear cada página, ler com cuidado tudo o que contam.
Apreciar a forma como os capítulos se sucedem, as histórias que narram, o testemunho das experiências que transmitem.
Apreciar as imagens que nos incendeiam a imaginação.
E ler quantos livros forem colocados ao nosso alcance.
Era isto que eu gostava de fazer sempre, de poder fazer sempre.

Publicado por Maria em 04:34 PM | Comentários (5) | TrackBack

março 17, 2004

A duração de uma paixão!

Foram-me dadas muitas respostas e muitas dúvidas também. Não sei qual é a duração de uma paixão, mas acho que tem razão quem disse, depende da pessoa e do objecto da paixão.
A minha paixão pelo blog ainda não esmoreceu, e já lá vão quase 9 meses, uma gestação inteira. Mas a minha paixão pelo blog está arreigada numa paixão mais antiga, que é a minha paixão pela escrita, a minha paixão por palavras, a minha paixão por ideias e por sentimentos. E essa paixão, posso afirmar com toda a convicção, me irá acompanhar vida fora, quantos anos quantos somar a minha existência e consciência neste mundo. Mesmo que o meu corpo já não responda sei que o meu cérebro vai continuar a escrever histórias como agora faz noite dentro, ou quando estou presa no trânsito, ou no meio de outras coisas que vou fazendo. Vai continuar ensaiando frases que tantas vezes acabam diluídas na memória porque não existe suporte que as cristalize.

A duração de uma paixão pode ser uma vida inteira.

Publicado por Maria em 07:26 PM | Comentários (3) | TrackBack

março 10, 2004

A Confiança

Ao ler este post (SEM TÍTULO- 3/9/2004) da Didas, lembrei-me de um texto meu. Outras palavras mas, para mim, uma sensação idêntica, um recuar no tempo, um sentir que existe algo mais forte que se nos sobrepõe.
Que tudo se resolva, é o que te desejo.

    A confiança é algo efémero!
    Quando parece que tudo está sob controlo, que finalmente iremos conseguir realizar alguns dos nossos desejos, algo acontece para nos lembrar que somos títeres nas mãos de uma qualquer entidade.
    O destino nunca nos pertenceu, os percursos que fazemos não são vontade nossa, mas uma reacção aos obstáculos que nos vão sendo colocados no caminho.
    O que fazemos, o que queremos, é sempre um resultado condicionado por tudo o que nos acontece.
    Na adolescência pensava poder vir a ser dona do meu destino, no momento em que deixasse de estar dependente dos pais. Foi sonho curto, desfeito ainda no limiar da vida adulta.
    Os sonhos grandiosos de um dia conquistar o mundo, de ser alguém diferente, único, depressa se desvaneceram.
    A vida tem que ser vivida momento a momento. Planos não são possíveis, apenas objectivos em traços largos.
    Mas desistir dos sonhos, nunca!
    Isso é que me dá alento para superar todas as provações.
    Nem sempre o caminho entre dois pontos é uma linha recta, pensando bem, nunca o é. Pode ser uma linha, mais ou menos curva, mais ou menos sinuosa, mas sempre uma curva.
    Mas, se não perdermos o ponto de onde partimos e o ponto onde queremos chegar, o percurso é possível.
    Gosto de pensar que isto é verdade, consola-me, devolve-me um pouco da confiança retirada.
Publicado por Maria em 10:21 PM | Comentários (3) | TrackBack

março 07, 2004

Ser mulher!

Nunca dei grande importância ao dia da mulher, nem à necessidade da existência de um dia que celebrasse as mulheres. A minha ideia de igualdade dizia-me que se não existia um dia que celebrasse o homem porque haveria um dia especialmente dedicado às mulheres. Mesmo a discriminação positiva é uma discriminação porque evidencia o facto de haver necessidade de impor qualquer coisa, quer ela seja uma cota de sexos, de raças, de limitações físicas ou mentais, de crenças…quer ela seja um dia para pensar especialmente em alguém ou em algo.

Com a idade os olhos vão-se abrindo para outras realidades que não só as que me rodeiam, e vou constatando que são necessários símbolos para fazerem as ideias perdurarem e singrarem. Que existem muitas mulheres para quem, mesmo que seja num único dia do ano, um tratamento especial será bem acolhido. Não celebro o dia da mulher mas hoje apetece-me falar dele, apetece-me falar delas, apetece-me falar de nós.

O que é ser mulher neste início do século XXI?

Seguramente coisas muito diferentes para cada uma de nós. Não existe um “Ser Mulher”, mas vários certamente. Cada uma terá os seus trunfos e as suas derrotas a relatar na relação entre sexos. As vitórias de umas serão derrotas para outras, o não ter conseguido passar a mensagem. O homem que ajuda em casa para algumas será a conquista, mas para outras será o homem que ajuda, que não faz, que não toma a seu cargo a responsabilidade de pensar e executar, que só ajuda quando alguém pede ou já está a fazer.

E profissionalmente também temos visões diferentes, sem dúvida. Algumas terão prazer (e a possibilidade) em ficar em casa e apreciar o crescimento dos filhos, outras preferem a emoção de uma ocupação agitada, o contacto com muita gente, desafios, obstáculos a ultrapassar, o prazer da conquista, e há também as que gostam de tudo um pouco e conciliam uma vida em casa com os filhos e uma profissão gerida à distância, ou desenvolvida em casa, ou a tempo parcial. Nem sempre cada uma tem o que prefere, o que teria sido uma opção. Nas oportunidades também não existe igualdade, nem entre sexos nem dentro do mesmo sexo. Vamos gerindo o que nos é dado e o que é conquistado da melhor forma. O que TODAS buscamos, acho que é igual ao que TODOS buscamos, A FELICIDADE, que mais poderia ser! Uma palavra que engloba tudo o que lá quisermos colocar, tanto ou tão pouco.

Para mim ser mulher é ser eu própria, é sentir com força a vida, é fazer o que gosto, como gosto, é assumir que sou diferente e apreciar essa diferença. É dividir-me entre tudo o que gosto, repartir-me pelos muitos objectivos que tenho. É apreciar a sensualidade, a emotividade mas também a razão e a lógica. É gostar de partilhar, de ensinar e de aprender. É apreciar a companhia, mas também os tempos que passo só comigo. Esta é quem eu sou, e sou MULHER.

E vocês quem são?
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Dia Internacional da Mulher – a história.

Publicado por Maria em 11:32 PM | Comentários (7) | TrackBack

Sem título

Hoje de tarde resolvi digitalizar alguns desenhos, com muitos muitos anos, feitos no secundário e no primeiro ano da faculdade. A uma conclusão cheguei. Pequeninos, tem melhor aspecto do que na realidade. Perdem as imperfeições, as cores ganham mais brilho. No caso dos desenhos, posso até melhorar o enquadramento, equilibrar melhor a posição dentro da folha.
Deixo aqui um deles para amostra, uma brincadeira com cores.

laranja2.jpg

Publicado por Maria em 12:59 AM | Comentários (4) | TrackBack

março 02, 2004

Depressão

Sentem que um dia é igual ao outro,
que nada existe que os faça ansiar que o tempo passe,
é a monotonia completa e absoluta.
Um descer os braços,
o olhar que não tem vida ...
O quão pouco gostam de si,
daquilo que fazem,
com quem convivem.
é uma vida sem emoção,
uma vida sem sedução,
uma vida de sentidos adormecidos,
de sentimentos encurralados,
Uma vida feita de páginas de calendário,
de projectos adiados,
de planos esquecidos.


(inspirado aqui)

Publicado por Maria em 11:26 PM | Comentários (3) | TrackBack

fevereiro 24, 2004

As Portas

A vida é mesmo uma sequência de salas, uma sequência de portas.
Cada dia uma sala, com algumas portas.
E nós vamos percorrendo, sala após sala, sabendo que cada sala a que acedemos é condicionada por todas as outras por onde já passamos.
Vamos desenhando um percurso no labirinto da vida.
E algumas vezes chegamos à conclusão que a porta que abrimos não nos reservava o que pretendíamos, outras vezes surge mesmo arrependimento pela escolha.
Voltar atrás, fazer o percurso inverso, desfazer o caminho já trilhado, não é fácil, porque as salas já percorridas, vistas de outro ângulo são diferentes.
E nós deixamos de conseguir identificar as portas por onde passamos.
Mas ficar parada no meio da sala, não abrir portas, não fazer escolhas, não arriscar, não experimentar não é solução.
Ficar parada no meio da sala é não viver, é apenas deixar o tempo passar.

A sensação que tenho da minha vida há um tempo atrás é que eu me tinha deixado adormecer numa dessas salas, tinha estagnado.
Acordar significou tomar decisões, fazer escolhas, experimentar emoções.
Significou também sofrer.
Mas não voltava atrás, não trocava o que consegui pela anulação do sofrimento sentido.

Publicado por Maria em 06:43 PM | Comentários (9) | TrackBack

fevereiro 23, 2004

De repente…

De repente apeteceu-me ouvir músicas antigas, não sei quais, só sei que me apetece regredir no tempo e buscar sensações de tempos já esquecidos, de dias intensos, de melodias cheias de fascínio.

Publicado por Maria em 11:10 PM | Comentários (2) | TrackBack

fevereiro 22, 2004

Mickey

mickey1.jpg

Mickey era o gato siamês que vivia em casa dos meus pais. Gato rezingão, indolente, sempre senhor do seu nariz, dos seus bigodes, sempre senhor de si. Não lhe agradava um colo e fazia-o saber alto e bom som, num rosnar típico de cão. Não pedia, exigia alimento, aceitava mimos a contra-gosto.

Comilão quanto baste, tinha especial predilecção por aves. Costumava atacar as armadilhas que o vizinho armava no quintal e roubava os pássaros. Que o esforço de caçar era demasiado grande para ele, ele gostava de comida fácil, se viesse depenado ainda era bem melhor. O vizinho ficava chateado, não pelo pássaro comido, mas pela armadilha que o gato insistia em levar consigo.

Durante nove meses do ano, engordava a olhos vistos, armazenava alimento, qual camelo, para gastar imparavelmente nos três meses que se seguiam, perdido que andava fora de casa, perseguindo todas as gatas da vizinhança. Voltava a casa, com intervalos de semanas, sujo, esquelético, pêlo mal tratado, às vezes magoado por algum dono que não apreciava a sua corte declarada e descarada. O esforço era certamente bem sucedido e recompensado, a avaliar pela quantidade de gatos siameses que começaram a proliferar pelas redondezas.

Mickey saiu mais uma vez para ir às gatas, só que este ano teve pouca sorte ao atravessar a estrada e foi colhido por um carro. Não sobreviveu.

Mickey, vamos ter saudades tuas, vais sempre fazer parte da nossa memória. Daqui a anos ainda nos vamos rir com as tuas tropelias, com o teu típico humor, com a tua pachorrenta presença, com a tua gulodice por asinhas de frango e biscoitos crocantes.

Publicado por Maria em 08:52 PM | Comentários (4) | TrackBack

fevereiro 14, 2004

A espera

A escola secundária estava em período de campanha eleitoral para a associação de estudantes. Mais do que debate de ideias, o que parecia existir era um gladiar de sons, de ver quem mais alto conseguia colocar a aparelhagem junto ao portão.
Espero a minha filha no carro e observo, tapete no chão, música e alunos que à vez vão dançando break-dance, a julgar pelo menos pelos movimentos que vislumbro no meio das pernas dos assistentes.
Do outro lado da rua, em cima de um muro, um grupo de trolhas em intervalo de almoço observa com interesse o espectáculo da dança e o espectáculo de quem assiste.
Entre os trolhas da obra e os alunos da escola não se nota, aparentemente, diferença de idades. 17 ou 18 anos e vidas tão diferentes em trabalhos e tipos de responsabilidade.
Uns têm um trabalho que exige esforço físico e que se esgota no horário a cumprir, outros têm um trabalho que exige esforço intelectual e que implica responsabilização para além do horário das aulas.
Em comum, uma idade e a curiosidade por quem dança.

Publicado por Maria em 01:29 AM | Comentários (1) | TrackBack

fevereiro 06, 2004

Consciente

"Organização parece ser seu lema de vida. Segundo o psicólogo americano Samuel Gosling, este costuma ser o perfil de quem é muito racional e vive em constante duelo entre suas emoções e sua razão. O importante é saber dosar as duas coisas para que essa 'assepsia' não signifique um problema em sua vida."

Pois, foi isto que me saiu em mais um teste descoberto na net. Mais um do blog da Lara.
Este é bem divertido de se fazer.

Publicado por Maria em 12:18 AM | Comentários (4) | TrackBack

fevereiro 05, 2004

Cerejas

“O erotismo é uma das bases do auto-conhecimento, tão indispensável quanto a poesia."
(Anaís Nin)

Li esta citação no Piiiirrrr corocorcooorrrrrrrrr.... e copiei.
A personalidade de Anais Nin sempre me fascinou, apesar de ter lido muito pouco do que ela escreveu. É um daqueles planos que vai ficando em suspenso, ler mais do que pequenos extractos, perceber um pouco a mulher que viveu sem se sentir demasiado presa às convenções rígidas de uma época. Pelo menos é assim que a sinto, alguém que se descobriu na sensibilidade, na sensualidade, no erotismo, na sexualidade.

Disseram-me um dia, com razão, que os links são como as cerejas, atrás de um vem sempre outro… ou outros. E assim foi. Encontrei no site anterior um link para o site da “Victoria Secret”, e resolvi ir espreitar.

Que acham destes modelos?
Eu gosto particularmente do primeiro, da forma como as tiras contornam as ancas e do tom vermelho cereja.


O dia de S. Valentim aproxima-se, podemos sempre escolher alguma peça alusiva ao dia. Talvez me deixe levar pela febre consumista … ou talvez não.

E para o Verão, que acham deste biquini?

Com o tempo que temos tido nos últimos dias, dá mesmo vontade de ir à praia, vontade de ir de férias. No Verão sempre me sinto mais leve, mais alegre, mais feliz.
Estou a precisar de um Verão.

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fevereiro 04, 2004

Os sonhos

Os sonhos são muitas vezes cristalizadores de coisas más que nos acontecem.
Há quem lhes chame pesadelos. Eu chamo-lhes sabotadores.

São sabotadores da determinação de esquecer.
Do desejo de perdoar, de seguir em frente.

Mas piores que os sonhos que povoam o nosso sono, são aqueles que se passaram de olhos bem abertos. Era sonho, mas nós nem nos apercebemos.

Se eu pretendesse ver nessa realidade distorcida, apesar de tudo, um lado positivo, diria que esse sonho serviu um propósito em determinada altura, mas que está no tempo de abrir olhos e continuar em frente. E principalmente, não recordar o sonho, não recordar as circunstâncias do sonho, o engano do sonho. Confiar mais nos sentidos do corpo e menos nos sentidos da alma e da mente.

Publicado por Maria em 01:20 AM | Comentários (0) | TrackBack

fevereiro 03, 2004

Sem título

O que fazer quando os amigos morrem ou desaparecem?
O que fazer daquele espaço na nossa mente, ou no nosso coração, que lhes pertencia?
O que fazer às palavras que lhe eram destinadas, aos sentimentos que lhe eram votados?
Com quem iremos partilhar a dor da sua perda?
Quem nos irá enxugar as lágrimas?
Ficamos ainda mais sós do que estávamos antes de eles entrarem na nossa vida.

Publicado por Maria em 10:07 AM | Comentários (1) | TrackBack

fevereiro 02, 2004

A morte

É difícil aceitar a morte. Mas mais difícil é compreender a morte.

Como é que tudo que uma pessoa foi, de repente não é mais? Para onde vão os seus pensamentos, a sua sensibilidade, os seus conhecimentos? O que se passa com todas as recordações, todos os sonhos, toda a informação que foi recolhendo ao longo da vida?

Nós somos computadores sofisticados, com uma linguagem de programação que só agora começamos a decifrar. Se pensarmos bem não somos muito diferentes dos computadores que criamos, apenas mais evoluídos, mais refinados.

Se imaginarmos que alguém nos criou, podemos estabelecer as premissas colocadas por esse ser e ver que não diferem muito do que vislumbramos possível para as máquinas que nós próprios criamos.

Os nossos computadores utilizam linguagem binária, tudo são zeros e uns. A nossa linguagem genética é quaternário, tudo é Citosina, Guanina, Tiamina e Adenosina. A conjugação destes quatro ácidos permite estabelecer um código, software bastante elaborado que permite recriar cada indivíduo a partir de uma única célula.

Mas se neste aspecto a comparação com um computador me parece fácil e directa, em termos de memória não tenho certezas.

Se a comparação fosse directa o nosso cérebro é como um disco duro que arquiva toda a informação, em que tudo está guardado e preservado enquanto a integridade física do cérebro é mantida.

Mas isto não é muito reconfortante, significa que com a morte tudo se esvai, que tudo o que consideramos ser a nossa personalidade é destruído com a morte, que os momentos belos que vivemos e que douramos na nossa recordação são destruídos pela morte e é como se nunca tivessem existido.

Mais agradável é pensar que para além deste corpo físico existe uma entidade não palpável e não destrutível, que guardará tudo aquilo que consideramos ser o nosso ser. Como se existisse uma grande unidade de backup garantindo que mesmo que o nosso disco duro seja destruído, toda a informação que nele existia é preservada, e possa mesmo ser reposta numa outra unidade de arquivo.

Abril de 2001

Publicado por Maria em 01:31 AM | Comentários (4) | TrackBack

janeiro 30, 2004

Bibbidi bobbidi boo.

Estamos a ensaiar músicas da Disney. E não pensem que por serem músicas para crianças são fáceis. Tentem cantar esta. Eu para já sou um desastre. Vamos ver se o tempo e o treino ajudam.

Bib bi di bob bi di bib bi di bob bi di bib bi di bob bi di boo

Salagadoola menchicka boola
Bibbidi bobbidi boo.
Put 'em together and what have you got.
Bibbidi bobbidi boo.

Como minhota que sou já estou habituada a trocar letras, mas até há bem pouco tinha-me ficado nos “b” pelos “v”. Agora estou a alargar horizontes e a aprender a trocar coerentemente os “b” pelos “d”. É um exercício interessante, porque quanto mais pensamos a letra mais erramos no que dizemos, chega a uma altura que o único som que acerta o local é o “Boo”, e se acerta o local, erra o tom. Só vai funcionar quando deixar de ser pensado e quando sair naturalmente, tal qual uma criança o faria.

O meu erro é não conhecer esta música de miúda. Não querendo parecer anúncio comercial, eu ainda sou do tempo em que não existiam vídeos, e o filme da Cinderella foi algo que não me levaram a ver ao cinema.

E para mim, não era a Cinderella, mas a Gata Borralheira dos livros de histórias que existiam em casa, livros grandes, de capa dura e lombada amarelo girassol, com pinturas bem elaboradas como ilustrações. Colecção que ainda resiste. Resistiu à minha leitura, à dos meus dois irmãos e à rápida passagem por eles da minha filha. O encanto para ela era bem mais reduzido, face a tudo o resto que a rodeava, e que lhe despertava a atenção.

O país evoluiu muito em trinta e tal anos. O 25 de Abril foi um marco, eu senti-o nos meus seis anos de idade. Passou-se de um “orgulhosamente sós” para uma permeabilidade ao que vinha de fora, as telenovelas brasileiras foram o primeiro indício mas muitas outras coisas se foram seguindo. Mais músicas, mais livros, mais desenhos animados, mais brinquedos, mais guloseimas, mais, mais, mais…

Passou-se de uma cultura de sobrevivência para uma cultura de vivência.

Não foi imediato, nada é imediato. Mas foi muito rápido, dez anos transformaram completamente o país. O aumento do poder de compra, as importações de coisas até então não disponíveis, ou não acessíveis ao cidadão de bolso médio, a alteração de gostos, melhor, a satisfação possível dos gostos. As taxas de juros altíssimas que nos davam a sensação de riqueza de alguém que consegue viver unicamente de rendimentos.

Podem achar que é tolice mas acho que existe algo que caracteriza extremamente bem este período e mudança que ele implicou no nosso país.

São as Bombocas, alguém se lembra? Bolacha por baixo, fina camada de chocolate por cima, e no meio uma espuma leve, doce, colorida, que não matava fome nenhuma. Algo pensado unicamente em função da gulodice, um não-alimento. Podiam-se comer dúzias e nem por isso sentir a barriga cheira. Era uma oferenda aos sentidos. A vivência em vez da sobrevivência.

Bib bi di bob bi di bib bi di bob bi di bib bi di bob bi di boo

Publicado por Maria em 12:15 AM | Comentários (3) | TrackBack

janeiro 28, 2004

O Tempo

Sinto a passagem do tempo.
Sinto as horas e os dias que se acotovelam com pressa.
Sinto a falta do tempo.

Queria existir nem aqui nem agora.
Queria existir!
Queria poder passear no tempo.
Visitar as vidas do tempo que passou.
Percorrer as do tempo que virá.
Que o tempo não fosse uma estrada num sentido só.

Tenho saudades daquela que fui.
Tenho saudades de tudo o que vi e que se foi esbatendo na recordação.
Tenho saudades do que não vivi, do que não senti…
Apegada que estava à passagem do tempo.


02-07-2002

Às vezes os factos e as ideias fazem curto-circuito.
Tinha colocado um pedido de ajuda no consultório da Comadre, e não é que ao correr o ficheiro de Word que tinha aberto dou com este pequeno texto que tinha escrito! Acho que o tempo hoje me persegue. Ou persigo-o eu a ele, ao tempo de tudo fazer.


Publicado por Maria em 01:05 AM | Comentários (1) | TrackBack

janeiro 25, 2004

Ajuda de Berço

sorriso1.gif

Um click no sorriso, uma pequena ajuda.

A Ajuda de Berço, fundada em 1998, acolhe crianças dos 0 aos 3 anos, necessitadas de protecção urgente, face a situações que as coloquem em risco, tais como maus tratos, abusos sexuais, pais alcoólicos ou toxicodependentes, prostituição, falta de lar ou abandono. A Ajuda de Berço nasceu na sequência das necessidades sentidas por um grupo de profissionais - médicos pediatras, sociólogos, enfermeiros, psicólogos, técnicos de serviço social e juristas - para dar resposta aos problemas das crianças em risco, situação de abandono e vítimas de exclusão social.

Ajudas maiores, veja aqui como pode colaborar ainda mais.
http://www.ajudadeberco.pt/html/colabore.html

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janeiro 20, 2004

A música

“Estou sozinha!
A música cresce de tom, ondula, é bela... mas eu estou sozinha. A dança pára sempre porque falta alguém que me acolha em seus braços depois de uma pirueta. Os lábios entreabrem-se esperando encontrar no ar algo que os complete. Todo o meu corpo está incompleto porque faltas tu.

Seria uma carta de amor se tu fosses alguém com um rosto e um corpo definidos, e não só essa vontade do outro, daquele que comigo fará um só. O meu destino é deambular pela vida procurando nos olhos com que me cruzo o meu próprio ser. Só serei eu quando te encontrar. Quando for mulher completa nos braços de um homem, ouvido amigo de lábios ardentes, ombro companheiro das nossas dores. Só serei eu quando tu fores tu, quando não fores nenhum desses substitutos que eu te arranjo.

O amor é o sentimento ideal mas que não se sente puro. Apenas misturado com raivas, ódios, piedade, compaixão e, quantas vezes, indiferença.

Frequentemente o que importa é ter alguém compreensivo, amigo, também amante, e não necessariamente o verdadeiro amor. Quantas vezes nos deixamos satisfazer por personificações do amor verdadeiros quantas vezes passamos a vida toda partilhando-a com imitações.

Se a música se elevasse e as correntes que me prendem se dissolvessem, eu seria um pássaro que se livrou da gaiola, seria novamente livre. Mas a música teima em manter o ritmo, consonância, teima em não desafinar de tão apegada às normas que está.

Sou assim pássaro enjaulado, ainda que em gaiola de oiro. Não posso seguir com o vento, planando ao sabor da sensação de voar, de ser livre, de ser eu e de saber quem sou.

Mas a música é bela e eu não posso parar de chorar. As lágrimas são gritos cristalinos e salgados. São os elos das correntes quebradas. São minhas. E eu sou lágrimas porque as lágrimas correm sem razão aparente, quando querem. Na minha imaginação eu sou a lágrima de um ser superior que só agora se desprendeu para iniciar a viajem rumo à vida, rumo ao ser.

Só agora eu sou, quando a música se torna cada vez mais forte, e eu tremo, balanço e ondulo. Só agora sou eu quando os tambores marcam o ritmo da vida, o ritmo do amor. Tu, que não tens rosto, ama-me até à exaustão. Beija-me como se fosse esta noite a última vez, porque é a primeira, porque é a única como únicos são todos os momentos da vida.

Tu, que eu amo sem conhecer, que espero a presença, não me abandones sem nunca me teres feito sentir a plenitude de ser mulher.

Conduz-me nesta dança exótica em que cada gesto é uma palavra, em que cada expressão é um sentimento que aflora e em que cada momento é completo.

Guia o meu corpo ao som da música, ama-me ao ritmo do som e beija-me em pensamento.”

Fui desempoeirar este texto no meu baú.
Ai! Adolescência sonhadora!
Tantos anos, tanta diferença no ser.

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janeiro 16, 2004

...II

Corrigindo...
Somos carregados no ventre para dentro desta vida e em braços para fora dela.

A chuva caía miudinha e gélida à medida que o cortejo fúnebre percorria as dezenas de metros que separam Igreja e Cemitério. Parecia que a natureza, tipo camaleão, se pretendeu colar ao estado de espírito das pessoas.
Não gosto de funerais, acho que ninguém gosta, mas cada vez mais os funerais funcionam como espaço de reencontro de pessoas que há muito não se vêem.
A vida dá imensas voltas, cruzamo-nos com inúmeras pessoas nos anos que nos é dado viver, fazemos muitas coisas, pertencemos a mundos diversos, mas é na morte que conseguimos integrar tudo, é na morte que conseguimos reunir toda essa gente à nossa volta. E já cá não estamos para apreciar.
Irónico, não é?

Publicado por Maria em 06:24 PM | Comentários (5) | TrackBack

janeiro 11, 2004

Eu Aprendo ...

“Eu aprendo, tu aprendes, ele aprende...
Pena é que, o tempo de assimilação seja tão prolongado...
Conclusão: toda a gente aprende... tarde demais!”


Vantagens de acreditar na reencarnação, é que existe sempre uma próxima vez” Escutado hoje numa série na televisão

Eu aprendo sempre, nem que seja para fazer uso do ensinamento na minha próxima vida.

Publicado por Maria em 10:31 PM | Comentários (3) | TrackBack

janeiro 10, 2004

O Centro do Porto

O centro da cidade esvazia-se cada vez mais!
Toda a gente sabe que o centro do Porto fica mais deserto à medida que o tempo passa, que as pessoas envelhecem, que os novos deixam o ninho paterno e procuram casa nova nos aforas da cidade. Á medida que os imóveis se degradam e é mais fácil, mais barato e mais rápido, comprar casa nova, mesmo usada, numa zona periférica, do que tentar recuperar um edifício, quase invariavelmente sem garagem, em lote estreito e rua escura, com as demoras dos processos camarários, com o deslizar de prazos e custos de empreitadas, com as burocracias de uma licença de habitabilidade ou de um empréstimo bancário sobre um projecto.

A diminuição de caixas Multibanco no centro da cidade espelha a desertificação, o esvaziar de vida. Menos pessoas, menos comércio, menos dinheiro a circular, menos agências bancárias, menos necessidade de caixas ATM, é uma relação directa de causa e efeito.

Hoje senti assim a mudança no centro da cidade, nas mesmas ruas que outrora percorria diariamente, cheias de gente, de ruído, cheias de vida. Nessas mesmas ruas hoje cheias de uma neblina pálida tão típica do Porto.

As pessoas abandonam o centro na cidade! Não o fiz também eu?
Tento voltar, periodicamente. Ainda existe para mim muito encanto nas ruas estreitas, de granito escuro, traçado irregular. Ainda existem muitas boas recordações pousadas em bancos de jardins, em praças, em esquinas de ruas palco de despedidas diárias de outrora.
Não nasci no Porto, mas sinto o Porto com muita força.
Metade da minha vida já tem esta cidade por cenário.

Publicado por Maria em 10:39 PM | Comentários (1) | TrackBack

janeiro 08, 2004

An(im)o Novo

Acho que isso sim, ânimo novo o ano novo trouxe!


Tinha escrito esta frase ontem de manhã, animada por uma série de coisas que pareciam finalmente estar a encontrar o seu lugar na minha vida. Animada especialmente pelo jantar da véspera, em roda de amigos, pela diversão que daí tinha resultado.
Mas o corpo não quis captar a energia da mente e os braços foram adquirindo o peso de toneladas, o nariz ficando entupido, a garganta essa, ferida ainda mais com as cantorias da véspera, parecia uma bolinha de dor. Mas pior do que isso tudo era a cabeça, que parecia nem me pertencer, tão distante estava.
Com o corpo assim, quem consegue manter o ânimo?
Só apetece enroscar-me dentro do meu casulo à espera que a Primavera chegue. Só que o dia amanheceu triste e cinzento, frio e chuvoso, que nem um ligeiro odor a Primavera se sente.
Se o sol brilhasse …

Publicado por Maria em 10:02 AM | Comentários (4) | TrackBack

janeiro 07, 2004

Congratulations!

Parabens.jpg

Acho que este fractal é bonito, não só pela coloração, não só pelo desenho, mas também porque parece tridimensional, porque parece albergar espaço, albergar luz, albergar vida.
Fica aqui como uma pequena prendinha para esta menina aqui que hoje faz anos.
Parabéns!

Publicado por Maria em 01:00 AM | Comentários (0) | TrackBack

janeiro 06, 2004

Ano Novo

Para mim o ano novo começou verdadeiramente hoje, com a volta ao ritmo de trabalho.
Costuma-se dizer “ano novo, vida nova”, mas comigo o que se passa, em cada ano que muda, é que transporto comigo a vida velha, junto-lhe a vida nova e fico ainda mais preenchida do que antes.
E independentemente dos meus planos para o novo ano, ou da decisão de fazer ou não planos, as pessoas à minha volta também tecem considerações acerca do novo ano acabando por me envolver nos seus projectos.

Ano novo, novas e velhas responsabilidades!
Ano novo, novos e velhos trabalhos!
Ano novo, bons amigos que se mantêm!
Ano novo, prazeres antigos!

Não quero uma vida nova no novo ano, quero manter a vida velha, a vida que já tenho, e melhorá-la onde e se possível. Afinal já investi nela tantos anos que seria desperdício deitar tudo fora e começar de novo, não acham?

Publicado por Maria em 12:57 AM | Comentários (1) | TrackBack

janeiro 04, 2004

Bilhete de Identidade I

Uma das coisas que me deixa curiosa quando passeio pelos blogs é conhecer um pouco mais sobre as pessoas que os escrevem. Porquê? Não sei explicar racionalmente. Não deveria fazer qualquer diferença saber se é escrito por homem ou mulher, por criança a entrar na puberdade ou por adulto com larga experiência de vida. As palavras deveriam valer por si só.
Mas apesar disso continuo a ter curiosidade, se não em todos, mas em alguns pelo menos, naqueles que de alguma forma me tocam.
E cometo o mesmo erro em relação a mim, não me apresentei minimamente. Tenho que preparar uma apresentação condigna, por isso fica para outro dia, de maior inspiração.

Hoje apanhei um blog com bilhete de identidade completo, feito com graça, sim senhor.
Quem quiser saber quem é Binoc, vá aqui.

Publicado por Maria em 09:32 PM | Comentários (2) | TrackBack

dezembro 31, 2003

Ano Novo

Dezembro de 2001

Um ano novo está sempre cheio de novos propósitos, como se o mudar de folhas do calendário fosse mudar efectivamente algo em nós. Mas não é só o novo ano que nos faz acalentar a esperança que vamos conseguir ser diferentes, fazer as coisas de modo diferente. Qualquer mudança na nossa vida, ou mesmo nos nossos pertences, pode ter também esse condão. Uma mudança de casa, um armário novo, um computador novo são coisas que me fazem pensar, por algum tempo, que vou conseguir organizar melhor as minhas coisas, (melhor dizendo, as minhas tralhas) e consequentemente a minha vida.

Normalmente a desilusão é rápida e garantida. Os velhos hábitos mantém-se mesmo nos novos espaços, as tentativas de mudança ficam-se por isso mesmo, tentativas, mas sem qualquer efeito prático.
Mas eu não sou verdadeiramente desorganizada! Pensando bem, também não sou verdadeiramente organizada. É algo um pouco difícil de explicar, sou mesmo bastante organizada em certos aspectos, parcelares, mas tenho geralmente tudo um pouco desarrumado.
Quando arrumo alguma coisa sou bastante organizada e meticulosa no modo como o faço, separando, etiquetando. Contudo, como tal comportamento, por um lado determina grandes dispêndios de tempo, e por outro lado, tarefas demoradas que rapidamente se tornam enfadonhas, vejo frequentemente os trabalhos ficarem pela metade, restando um caos maior do que inicialmente tinha.

“Tudo o que faço ou medito
fica sempre pela metade,
Querendo, quero o infinito.
Fazendo, nada é verdade.”

Fernando Pessoa

..............................................
Dois anos passados, o que é que a vida me ensinou?
Que mais válida que os propósitos de mudança, voluntariosos e afirmativos, é a mudança que se insinua, que se vai instalando, que vai alterando os hábitos, pouco a pouco, dando tempo à consolidação dos mesmos.

Mais importante do que dizer, ou vou fazer, é olhar e poder dizer, eu já fiz, eu estou fazendo.

E é isso que eu vos desejo para 2004, Um Ano de Concretizações.

FELIZ ANO NOVO


Publicado por Maria em 02:07 PM | Comentários (1) | TrackBack

dezembro 27, 2003

Mimados

Ao descobrir este blog chamado desenhos animados e jogos lembrei-me de um texto que escrevi em que também falava deles.
Acho que hoje estou com disposição de regressar à infância.

(…) para mim a situação mais engraçada de arranjar um outro nome para uma coisa e fazer o seu uso sistematicamente, foi o caso dos desenhos animados.

Os desenhos animados eram os "mimados". Quando a minha irmã nasceu também começou a ver "mimados". Às vezes ecoava em casa um grito de guerra em tom agudo "Mimados", largávamos o que estivéssemos a fazer e corríamos escadas acima para nos "plantarmos" em frente da televisão.

Quando o meu irmão nasceu, já tinha eu quase 11 anos, tornou-se o número 3 do clube dos "mimados". E a palavra “mimados” era tão natural que nem me questionava sobre a correcção do seu uso, apesar de saber perfeitamente qual a sua designação correcta.

Foi já após o nascimento da minha filha, quando ela começou a falar, e a conviver desde cedo com outras crianças no colégio (que não pertenciam ao clube dos mimados), foi nessa altura que eu tive de finalmente abandonar um dos últimos bastiões da minha linguagem infantil.

Um dia a minha filha voltou-se para mim e disse-me:

"Mãe, tu não sabes falar, é desenhos animados que se diz!"

E eu nessa altura contei-lhe a história dos "mimados”, mas a partir de então abandonei o termo.(…) 22-9-1995

O termo infantil que ainda não abandonei é o nome com que designava a minha avó, e esse nunca será abandonado.

Publicado por Maria em 05:24 PM | Comentários (1) | TrackBack

dezembro 26, 2003

Para lá do Natal

Depois de uma pausa programada no blog, (ao contrário de todas as anteriores que sempre foram constatadas à posteriori), retomar a actividade parece quase um segundo nascimento.
Acho que deve ser da quadra esta sensação de que tudo na natureza começa novos ciclos.
Foi o Inverno que começou há poucos dias, o Natal que celebra o nascimento de um menino, de uma religião, de uma forma de estar na vida, o novo ano que se avizinha.
Novos propósitos que se assumem, desejos efectivos de mudança, novas aquisições…

Passei parte da tarde passeando de blog em blog, pensando que queria escrever algo, mas ao mesmo tempo, deixando pela metade tudo o que iniciava, porque achava que este post não deveria ser só mais um post. E assim continuei no meu passeio por blogs, percorrendo os meus links, e os links dos meus links, como quem percorre com os dedos os galhos de uma árvore, os braços até aos dedos da mão.

Alguns blogs começam a retomar a actividade, outros mantém-se em descanso natalício. Há quem não tenha tido direito a descanso nesta quadra e tenha aproveitado pausas de trabalho para mais um post, há os que não resistiram ao afastamento e madrugada dentro, ainda ao som das vozes em conversas de família, tenham ligado o computador para uma pequena espreitadela e comentário.
As vezes temos a sensação que a verdadeira vida não é a que se passa lá fora, mas a que se passa dentro deste mundo, desta comunidade em que a comunicação é pedra de toque.
Quantas vezes, quando por necessidade ou vontade, passo um dia ser ver o e-mail, sem entrar na net, sem fazer as visitas habituais aos blogs, sem comentar nem ler comentários, sinto que ando vendada, sinto que fiquei encerrada em casa, de janelas fechadas e cortinas corridas enquanto a vida decorria lá fora. Mas lá fora andei eu o dia todo, e contudo sinto falta da vida que decorre neste mundo de impulsos eléctricos. Sinto falta, mas mais do que falta é a curiosidade, é a vontade de ser surpreendia por algo. Uma mensagem, um texto, uma foto, um pensamento …

Uma surpresa bem gostosa foi este texto do Pedro, do outro lado do Natal
Foi ao lê-lo que decidi que já era hora de voltar a escrever, porque precisava de dizer o quanto apreciei a estória. Ás vezes nem sei explicar porque é que determinadas coisas tocam de forma especial algo que tenho dentro de mim, só sei que este conto está cheio delas.

Nesta altura Caetano Veloso canta:
“Navegar é preciso, viver não é preciso.”
Parece quase brincadeira de palavras com tudo o que estava a escrever.

Publicado por Maria em 12:23 AM | Comentários (4) | TrackBack

dezembro 23, 2003

Furo

Ontem tive um furo.
Clarificando …
Ontem tive um grande buraco no pneu do meu carro, tão grande que conseguia meter o meu dedo sem dificuldade pela cratera aberta. Mal dei por ela, o que foi imediatamente porque o ar saiu num ápice, encostei num lugar de estacionamento miraculosamente vago numa rua onde só passa mesmo um carro de cada vez e sem passeios onde pudesse subir.
No azar, tive sorte!
Estou a imaginar o meu carrinho parado no meio de uma das artérias de saída da cidade, com carros e autocarros parados atrás e sem dúvida, buzinas a tocar e palavras menos próprias. E tudo isto a dois dias do Natal, com o trânsito “de la saison”.
Tive o azar de um furo e a sorte de um local para estacionar.
Carro encostado, saí e fui buscar a chave à mala para constatar o já esperado, por mais que me esforçasse, não conseguia rodar um grau que fosse nenhuma das porcas que prendem a jante.
Mais um azar.
Voltei ao carro, peguei o telemóvel e comecei a procurar o número de telefone da assistência em viagem. Mais uma vez teria que recorrer aos seus serviços, porque pura e simplesmente não tenho força para fazer rodar a chave de má qualidade que equipa o carro. Mesmo colocando todo o meu peso em cima da chave ela não se move. Da última vez que tive um furo, o que foi ainda no mês passado, tinham-me dito que era conveniente comprar uma chave diferente. Mas como acabo muitas vezes a deixar para amanhã … e para depois de amanhã, o que já podia ter feito, não tinha comprado a chave ainda. E assim, por culpa minha, fui apanhada mais uma vez desprevenida.
Bateram-me na janela do carro, um casal que passava ofereceu ajuda para mudar o pneu. Como me disseram, estavam a fazer horas à espera do filho que tinha vindo à faculdade. Ainda bem que ainda existem pessoas assim, que olham à sua volta e não hesitam em oferecer ajuda a alguém que não conhecem de lado nenhum.
Tive o azar de não conseguir mudar o pneu e a sorte de me ser oferecida ajuda.

E lembrei-me do post do Jotakapa que tinha lido “Sorte ou Azar”
Aparentemente, sorte e azar caminharam de mãos dadas, tentando o equilíbrio. Acho que foram como dois coxos apoiando-se mutuamente.
Nenhuma das duas com força suficiente para se aguentar sozinha.
AINDA BEM!

Publicado por Maria em 06:35 PM | Comentários (2) | TrackBack

dezembro 19, 2003

A velha fábrica

O trânsito estava intenso e fiquei parada, em fila, em frente da velha fábrica. Era uma presença familiar mas até então não me tinha dado ao trabalho de a observar com algum cuidado. Era constituída por dois corpos, um mais alto, e uma ala lateral. A ruína em que se encontrava dava-lhe um certo encanto. Dei por mim a pensar que tinha que tirar uma fotografia, talvez a preto e branco.

As paredes revestidas a azulejo amarelo, as janelas, duas, com uma grelha metálica, em que o vandalismo tinha aberto um quadrado maior, simetricamente central, as telhas que emolduravam a fachada, todo o conjunto tornava para mim aquela uma presença agradável.

Pensei em que poderia ser transformado o edifício, uma vez que a velha cerâmica há muito que fora encerrada. Dava um óptimo ninho de empresas, com a criação de escritórios laterais em torno de um átrio central. Colocaria uma enorme clarabóia, um jardim de Inverno e o sistema de acessos nessa zona central. Seria como espaço de convívio e zona de espera.

Poderia ser também um edifício de ateliers de artistas, e a zona central um espaço de exposições permanentes.

Embrenhada nestes meus pensamentos lá fui arrastando o carro, lentamente, ao ritmo dos outros, até que passei sob o Arco do Prado.

Esqueci a velha fábrica, agora eram só mais dois minutos e estaria em casa, jantar a preparar, algum trabalho a fazer e finalmente dormir.

No dia seguinte, quando voltava a casa pelo mesmo caminho de sempre (esperando nenhuma surpresa), ao desfazer a curva da velha fábrica, ergui os olhos e nada. Não estava lá nada. Num único dia tinham demolido a velha fábrica. Unicamente restava, isolada, a chaminé de tijolo vermelho. Mesmo os escombros acumulados, não pareciam suficientes para terem sido aquelas paredes que eu conhecia e apreciava.

Senti que me tinha sido retirado algo. Durante oito anos passei por ali quase diariamente e só no dia anterior tinha observado verdadeiramente com cuidado o edifício. Hoje já não existia!

Não havia tirado a tal fotografia, nunca havia visitado o interior e agora já não seria possível.

Nós damos muitas vezes por adquiridas certas coisas, mas é tudo tão efémero que num pestanejar de olhos já lá não está.

Não é à toa que a sabedoria popular diz:
“Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje.”

(18-8-1999)

Publicado por Maria em 11:07 PM | Comentários (1) | TrackBack

dezembro 18, 2003

“The hardest to learn is the least complicated”

(Indigo Girls – Swamp Ophelia)

O Cd rodava já há vários dias no leitor do carro, mas os pensamentos em mente deixavam apenas apreender os ritmos, os sons e não o sentido das palavras.

As coisas mais simples são às vezes as mais difíceis de atingir, as mais duras de implementar.

Quando olhamos para o que foi a nossa evolução, enquanto humanidade, vemos que os saltos decorreram geralmente da constatação de factos que se tornaram evidências.

Imagino, perdido nas brumas do tempo, um homem que olha outro fazendo transportar algo com uma roda e pensa, não com os seus botões, que essa solução provavelmente ainda não existia, ainda não tinha sido descoberta, mas pensa, de si para si:

“Como não me consegui eu lembrar disto, tão simples, e sempre aqui esteve! Porque é que ninguém usou este sistema antes?” (claro que a formulação deve ter sido ligeiramente :) diferente, mas em essência... não deve ter andado muito longe :)

Exemplos todos nós temos, no âmbito profissional e no âmbito pessoal.

A solução era tão simples e todavia... difícil de encontrar. Mas quando se atinge... a satisfação enorme de ter atingido a simplicidade.

O Cd continua a rodar, outra música toca já, outra música de que só do ritmo me apercebo, embrenhada que estava novamente em pensamentos.

Publicado por Maria em 10:28 PM | Comentários (0) | TrackBack

Olhando a Vida

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Deixa-me olhar nos teus olhos para sempre!
Deixa-me ver a vida neles reflectida,
quer sejam verdes de relva fresca ao amanhecer,
azuis de céu de verão escaldante,
ou castanhos cor de monte no Inverno.

Não me mostres injustiças!
Não me mostres dor, fome ou morte!.
Mostra-me paz, amor, alegria
que os meus são olhos de criança.
São verdes de esperança em dias melhores.

Mas se os teus forem olhos de leão
mostra-me então, paixão,
que os meus são olhos de mulher.

Publicado por Maria em 12:28 AM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 17, 2003

Desafios

Gosto de desafios.
Desafios que ponham à prova a inteligência, a capacidade de dedução, “little gray cellules” como costuma dizer Mr Hercule Poirot, que tenho o prazer de ver neste momento na televisão.
Mas não gosto de desafios perdidos à partida ou só desvendáveis por recurso a artifícios menos recomendáveis.

Publicado por Maria em 01:13 AM | Comentários (0) | TrackBack

Diário

Nunca considerei este blog como um diário, provavelmente em parte porque não quis ser cobrada de razões de alegrias ou tristezas por aqueles que me conhecem. A ideia inicial era ser um blog anónimo e nessa circunstância poderia verter para o papel, desculpem, deformação de uso, verter para o teclado impressões mais coladas à realidade.

Quando optei por partilhar o que escrevo com pessoas que conheço, o blog teria que ser menos um diário, menos um contar de situações e muito mais um conjunto de reflexões, mas claro que não consigo descolar o que escrevo das situações que vivo ou já vivi.

Hoje num dos blogs por onde passei encontrei um texto de desalento, e enquanto colocava um comentário veio-me à lembrança um texto que escrevi para alguém que conheci e que intentou o suicídio. Nunca cheguei a enviar, mas eu própria tenho relido o texto ás vezes quando me sinto mais em baixo e tenho que adquirir nova perspectiva.

“Quando hoje soube o que tinha tentado fazer não consegui conter as lágrimas.

Imagino o desespero, o turbilhão de problemas que se lhe apresentavam para pensar em terminar tudo.

Sinto a angústia que lhe devia ir na alma, um vazio de não saber o que realmente é esperado, o que deve fazer, se responde às expectativas…

Mas tudo é circunstancial, o que ontem era importante ou intolerável, hoje com outra luz, e também com outra disposição, tem que parecer suportável. Ainda que o ontem e hoje estejam a mais do que um dia de distância.

Feche os olhos e sinta o calor do sol a bater em cheio no rosto! Alheie-se de tudo e sinta unicamente o calor do sol, sinta a luz que lhe trespassa as pálpebras, e respire fundo!

Sinta a proximidade do chão, o calor que emana da parede branca, sinta o cheiro da terra regada ao amanhecer, sinta o sussurro da brisa, o canto dos pássaros, a agua que corre nos regatos, sinta, sinta, sinta com os sentidos do corpo e não com os sentidos da alma.

Encha-se de sensações físicas, sinta prazer pelo seu corpo, prazer por ser.
Não seja avestruz que enterra a cabeça demasiado fundo e por demasiado tempo.

Se existem problemas, eles vão sendo resolvidos ou perdendo a importância.

Não se pode deixar dominar pelas situações, pelo desânimo!

Pense que este tempo foi uma noite de sono agitado, com pesadelos e percepções estranhas da realidade, mas que o sol já desponta sobre os montes. Sinta o arrepio da madrugada, quando a temperatura desce ao mínimo para depois aquecer.”

Publicado por Maria em 12:29 AM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 15, 2003

Pontualidade

Acho que se existe um local onde o conceito de pontualidade está completamente ausente, é nos consultórios médicos.

E não é um percalço num dia porque alguma coisa não correu segundo o planeado e se atrasou. Não, é por sistema!

Médicos que chegam tarde, consultas que duram meia hora, marcadas de quarto em quarto de hora, consultas para ver exames metidos no meio de consultas normais sem ter sido reservado previamente o tempo necessário, ou duas consultas marcadas para a mesma hora, como hoje me aconteceu.

“Como é particular, podemos fazer isso” explicava a recepcionista “sabemos que as pessoas tem urgência e marcamos”

Então como é? Pagamos e ainda por cima temos o direito a ser pior servidos?

O “over booking “ utilizado pelas empresas de transporte aéreo parece já ter chegado ás consultas médicas.

Resultado, ou alguém falta, ou ficamos em terra, algumas horas à espera.

HOJE, EU CRIEI RAÍZES!

Publicado por Maria em 09:58 PM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 14, 2003

Intimidade II

Do comentário do Jotakapa:
"Interessante... assim a intimidade deixa-nos mais vulneráveis, daí a necessidade de saber escolher com quem podemos partilhar a intimidade.
Depois de partilhada a intimidade, as pessoas podem começar a exigir direitos sobre o que antes sonharam.
E quando passam a querer a intimidade mais vezes do que aquela que estamos dispostos a aceitar... corremos o risco de ficar vulneráveis, porque ficamos exposto.
Mas às vezes é bom estar vulnerável e existir alguém que cuide de nós sem exigir nada em troca.”


A intimidade, a verdadeira intimidade, deixa-nos sempre mais vulneráveis porque, para que ela exista, é necessário que a nossa couraça exterior se rompa, que se permita a proximidade, que se partilhem ideias e pontos de vista, enfim, é necessário que demos permissão a alguém para olhar para a nossa alma, para o nosso ser. E mais do que a intimidade física é importante a intimidade mental, a partilha, melhor ainda, a conjugação das duas, de corpo e alma , essa ligação que nos faz pensar que aquele é o nosso príncipe encantado.
E concordo que devemos ser selectivos quando nos decidimos desvendar assim, cativar e ser cativados, oferecer e receber.

Mas no comentário feito a ideia de intimidade é diferente da que eu pensei inicialmente, é vista mais como intimidade física, que pode ser contabilizada em vezes, que pode ser exigida e negada. Eu acho que a intimidade, pelo menos a que tinha em mente, quando é permitida, mantém-se, não se retira, não se consegue retirar. O contacto físico, a comunicação, esses podem ser cortados mas a intimidade, as ideias que foram partilhadas, os momentos que foram vividos, permanecem e permanecerão enquanto as recordações se mantiverem.

Acho que tudo parte do duplo sentido da palavra intimidade, e que no contexto do programa de televisão em questão tinha a ver com comunicação de desejos, com mostrar-se e não com contacto físico. (O programa era sobre pessoas com um desejo sexual bastante forte, e a tentativa de perceber os porquês e as implicações. Foi no Odisseia, não sei se vai repetir.)

Publicado por Maria em 11:35 PM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 13, 2003

Tabaco II

Tinha um amigo que tinha vontades de deixar de fumar cíclicas.
Era uma pessoa bastante afirmativa, que se entregava por inteiro e com paixão a tudo o que se resolvia a fazer.
Mas era também uma pessoa algo volúvel...que saltava de interesse em interesse, de propósito em propósito, como abelha de flor em flor.

Um dia, numa dessas decisões imperativas de deixar de fumar, deitou dramaticamente os cigarros janela fora, espalhando-os pelo jardim da casa.

Foi encontrado nesse mesmo dia, pelas 3 da madrugada, de gatas no meio da relva e das flores, tentando encontrar os cigarros que lhe iriam acalmar o resto da noite.

Não sei o que foi feito dele, os nossos percursos seguiram direcções diferentes ainda antes da idade adulta.

Ás vezes tenho curiosidade em saber o que é que a vida fez de todos os idealismos que tínhamos, das tardes que passávamos juntos a ver como iríamos mudar o mundo. Das discussões metafísicas, das músicas dos Beatles e do Zeca Afonso cantadas em roda de amigos, das aulas de guitarra, do clube cultural, das animações nas escolas…
Foram tempos intensos, passaram entretanto 20 anos … uma vida para muitos.

Publicado por Maria em 12:10 AM | Comentários (4) | TrackBack

dezembro 12, 2003

Tabaco

Uma amiga que fuma desde a adolescência deixou de fumar há semana e meia.
O tempo é pouco para cantar vitória, ela sabe.
Mas também sabe que agora as motivações são bem mais fortes.
Um dos filhos, agora ele adolescente, começou a fumar.
E esta foi a forma que ela encontrou para que o tabaco fosse abandonado.

Tem que ser, antes de tudo, uma questão de coerência!
Como poderia ela tentar ditar leis que não tencionava cumprir?
Infelizmente, o exemplo dela não é o mais corrente.

Publicado por Maria em 01:30 AM | Comentários (2) | TrackBack

dezembro 05, 2003

Sapos

Vi esta frase no Elas por Elas

”Minha avó sempre dizia:
Todos os príncipes um dia se transformam em sapos.
O segredo de ser feliz é saber que os sapos podem ter suas qualidades!”

Acho que esta era uma avó sábia, cheia de experiência de vida.

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Para quem quiser saber mais sobre sapos e as suas qualidades >
http://www.feelinfroggie.com/frogs.htm

Publicado por Maria em 01:22 AM | Comentários (3) | TrackBack

dezembro 04, 2003

Manhã

Hoje o mar tinha um borbulhar de nuvens junto à linha de horizonte, como se os raios de sol da manhã o tivessem feito entrar em ebulição.

Publicado por Maria em 03:08 PM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 03, 2003

Blog

Às vezes, com o meu blog, sinto-me como um DJ, que apenas faz a selecção da música que outros criaram.
Mas ainda assim, com essas melodias, das quais não tenho nem a honra nem a culpa, estou a tomar uma posição, a passar uma mensagem.
Afinal é só uma questão de instrumentos…
Algumas vezes toco letras, umas a seguir às outras, formando palavras que contam do que se passa à minha volta.
Outras vezes toco frases já escritas, imagens já definidas, e o “eu” está na escolha que faço.
Isto é um pensamento … tecla a tecla, desculpem se não faz muito sentido.
(No que eu me meto, só para me afastar por momentos do trabalho que tem que ser feito.)

Publicado por Maria em 11:42 PM | Comentários (1) | TrackBack

dezembro 02, 2003

Haverá vida após a morte?

Quando vi o titulo do post aqui, lembrei-me de uma frase brincalhona, de que desconheço o autor que dizia "Haverá vida antes da morte?”.

Sabemos que a morte é uma fronteira, que se cruza unicamente num sentido. Se é mais vida o que nos espera do lado de lá, ou a labuta diária que vamos fazendo por cá, não sei.
Gosto de pensar que tudo o que senti, tudo o que pensei, aquela que sou e fui, não se extinguirá quando a chama da minha vela deixar de arder. E que deixarei saudades, como saudades terei ...
Viverei enquanto a recordação do que sou e do que fiz permanecer naqueles com quem me cruzei.

Publicado por Maria em 10:05 PM | Comentários (2) | TrackBack

AS COISAS BOAS DA VIDA … III

Este texto e imagem foram apanhados aqui, mas foi o Jotakapa que descobriu e me enviou.

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“Com excepção de vinho, chocolate e morangos, as coisas mais importantes da vida não são coisas... apesar de que, às vezes, as chamamos de... coisinha mais linda do mundo... coisa mais fofa que eu já vi... coisinha meiga que dá vontade de morder... coisinha que me faz morrer de saudades o dia todo... Não é coisa, e mesmo com todo nhé nhé nhé brega meloso, é importante igual. Agora me confundi.

Tem coisas, como o amor, que são coisas importantes. Mas o amor não é coisa. E as coisas mais importantes não são coisas. Mas o amor é importante. E a gente fala que o amor é uma das melhores coisas da vida... Se o amor não é coisa, como ele pode ser uma das coisas mais importantes da vida? ... ops, deu tilt...

Brincadeiras a parte, concordo com a ilustração total in love acima. O que seríamos para este mundo, sem as "coisas" inumeráveis, impalpáveis, invisíveis, inimagináveis, insuperáveis, incompreensíveis, e ao mesmo tempo, inacreditáveis que resolvem dar o ar de sua graça de vez em quando? “

As coisas boas da vida não são coisas palpáveis em que se lhe pode colocar uma etiqueta e um preço. Mesmo quando são efectivamente coisas, como o chocolate e os morangos, não são as melhores do mundo por essa razão, mas pelo prazer que o nosso corpo, e mais do que isso, a nossa alma, retira delas.
E se consumidas sem moderação, incansavelmente, acabam por perder o encanto, acabam por saturar.

Ao contrário existem outras coisas das quais nunca nos cansamos. E não são objectos, não as posso agarrar com a mão e guardar no bolso, são sensações, sentimentos…partilhas.

E mesmo não as conseguindo agarrar, nesses momentos o mundo inteiro cabe na nossa mão.

Publicado por Maria em 10:00 PM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 29, 2003

Pré-adolescente…

O João perguntou-me se sou pré-adolescente.
Claro que sou, a criança que me acompanha desde sempre não arreda pé por mais que lhe digam que já era tempo de me ter abandonado. Não sei se é ela que me acompanha se sou eu que a carrego a ela, acho que é por dias … somos dois membros que se apoiam mutuamente e que sincronizam movimentos … e sentimentos.

A minha experiência serve-se da inocência dela.
A minha experiência nasce da experiência dela.
Em mim tenho a criança de tenra idade que descobria o mundo pela primeira vez.
Tenho a adolescente idealista que achava que iria mudar o mundo, que iria fazer a diferença.
Em algum canto permanece a jovem que se apercebeu que a maior parte dos sonhos podem ser roubados num segundo.
E a adulta que sabe que quando nos roubam os sonhos só temos que lutar para os conquistar de volta ou então construir novos sonhos. Nunca devemos baixar os braços e chorar em cima dos sonhos destroçados.

Enquanto escrevia estas linhas martelavam na minha cabeça alguns versos de uma música, de um grupo especial para mim - Magna Carta.

"It was said of them, in older times
That the child is the father of the man,
and, yet, in growing, know not the man, and of the man's ways.
He watches the aged ones, old and seemly wise and wonders, could he ever grow to be such as they...."

Envelhecer é quase uma relação parental.

Publicado por Maria em 07:31 PM | Comentários (1) | TrackBack

novembro 27, 2003

Liberdade de escolha, divagando à volta do tema.

Reagindo ao retardador, não por falta de vontade mas por falta de tempo.
E mais ao retardador parece tendo em conta o ritmo assimétrico de post nos dois blogs.
No meu blog, o post de referência está ainda ao virar da esquina enquanto no +/- Virgem já está lá ao fundo da avenida.

Recordando…
(…)
Mas também acho que existem níveis diferentes de virgindade, e nem sempre a mais problemática de ser abandonada é a virgindade física.
Psicologicamente, muitas mulheres ficam virgens vidas inteiras, outras precisam de décadas para que o hímen mental se rompa e elas finalmente se entreguem sem receios a uma sexualidade que deveria ser natural.

---
(…) "o entregar-se "sem receios a uma sexualidade que deveria ser natural"... Estremeço um bocadinho. Estremeço porque (não sei se é o caso) muitas vezes se parte do princípio que é aquilo que é natural é ter vida sexual activa, mesmo que não haja paixão, mesmo que não haja amor. "(…)

Quando falava numa sexualidade que deveria ser natural, não me referia ao facto de ter vida sexual activa ou não, mas sim ao modo como devemos encarar o nosso próprio corpo, o nosso desejo, e a forma como nos relacionamos com os outros, com os sentimentos e com os sentidos.
Referia-me sim a tabus que tolhem a liberdade de escolha, a educações que foram restritivas e que condicionaram a forma de estar posterior.
Para mim é uma opção tão natural ter uma vida sexual como permanecer à espera de alguém especial, ou nem estar à espera, simplesmente decidir que existem outras coisas a que nos queremos entregar e que o sexo não faz parte delas.

E acho que é uma decisão tão válida ter sexo por amor, ou ter amor pelo sexo.

Importante é ter a possibilidade de decidir. E concordo, que independência económica é um passo fundamental no caminho da liberdade.
Ainda me lembro bem da expressão “enquanto viveres à minha custa fazes o que eu mando”.

Publicado por Maria em 10:38 PM | Comentários (5) | TrackBack

novembro 26, 2003

Passear o cão

A chuva voltou!
O céu carregado de nuvens escurece o dia, que fica com uma luminosidade débil e triste. No carro, vendo as gotas que escorregam pelo vidro, sinto-me protegida.
Lá fora, envolta numa gabardina, numa mão segurando guarda-chuva, na outra segurando trela, uma mulher passeia o seu cão. Hábito matinal, eu sei, que já a vi várias vezes em dias mais bonitos e mais agradáveis do que o de hoje.
O tempo de certeza não convida, mas ter um cão significa ter de abdicar da comodidade pela companhia.
Como tantas outras coisas … pensando bem.

escorrendo.jpg

Publicado por Maria em 07:43 PM | Comentários (1) | TrackBack

novembro 25, 2003

As coisas boas da vida ...

Não costumo nem fazer post nem comentar emails, mas hoje abro uma excepção. Razão? Apetece-me simplesmente.
No mail diziam para reflectir sobre cada ponto antes de passar ao seguinte, que isso me faria sentir bem. E assim fiz.

1. Apaixonar-se.
Sim, definitivamente é uma das coisas boas da vida, a paixão que nasce, que se desenvolve, ter espaço e tempo para apreciar esse estado de exaltação que nos invade, o corpo que perde o peso, o rosto que se ilumina. Apaixonar-se e manter-se apaixonada, por alguém, por algo, ou simplesmente pela vida.

2. Rir tanto até que as faces doam.
Já não me lembro de assim rir. Pensando melhor, recordo sim, já lá vai tempo, mas como podia esquecer.

3. Um chuveiro quente.
Acho que prefiro uma banheira cheia de água quente, mergulhar completamente. Melhor ainda, com hidromassagem e deixar o borbulhar da agua ser o ritmo que marca os meus pensamentos.

4. Um supermercado sem filas.
Melhor ainda, não precisar de ir ao supermercado

5. Um olhar especial.
Sempre. Adoro olhos. O velho cliché do “espelho da alma” veio-me à cabeça.

6. Receber correio.
Ou email … receber noticias de quem gostamos.

7. Conduzir numa estrada linda.
E poder encostar o carro numa berma e ficar a apreciar.

8. Ouvir a nossa música preferida no rádio.
Principalmente quando não é habitual ela passar na rádio … mas nessa altura fico dividida, porque a partilha lhe pode tirar algum do encanto.

9. Ficar na cama a ouvir a chuva cair lá fora.
Há quanto tempo não faço isto

10. Toalhas quentes acabadas de serem brunidas.
Toalheiros aquecidos na casa de banho

11. Encontrar a camisola que se quer em saldo e a metade do preço.
E que nos sirva … e não tenha defeito.

12. Batido de chocolate (ou baunilha) (ou morango).
Em alguma coisa teria de ser diferente … não sou especialmente apreciadora de batidos. Prefiro antes o sumo natural.

13. Uma chamada de longa distância.
E que não seja eu a pagar. Gosto de falar mas não gosto de telefones, gosto mais de Olhos nos Olhos.

14. Um banho de espuma.
Já tinha falado no banho, com espuma ainda é melhor.

15. Rir baixinho.
Rir, pura e simplesmente.

16. Uma boa conversa.
Daquelas que nos enchem completamente a alma.

17. A praia.
A praia deserta, o som das ondas, as pegadas das gaivotas marcadas na areia, o brilho do sol reflectido no mar com uma intensidade tal que temos que semicerrar os olhos.

18. Encontrar uma nota de 20 euros no casaco pendurado desde o último Inverno.
Encontrar uma nota de 20 euros …

19. Rir-se de si mesmo.
Ter a capacidade de se rir de si mesmo.

20. Chamadas à meia-noite que duram horas.
21. Correr entre os jactos de água de um aspersor.
Lavar o carro em dia de verão e acabar numa luta de mangueiras …

22. Rir por nenhuma razão especial.
Rir, pura e simplesmente.

23. Alguém que te diz que és o máximo.
Alguém que te diz que fazes diferença…

24. Rir de uma anedota que vem à memória.
Rir, pura e simplesmente.

25. Amigos.
Os amigos especiais.

26. Ouvir acidentalmente alguém dizer bem de nós.
Ficar com um sorriso de orelha a orelha e o ego inchado

27. Acordar e verificar que ainda há algumas horas para continuar a dormir.
E conseguir voltar a adormecer.

28. O primeiro beijo (ou mesmo o primeiro ou o primeiro com o novo namorado).
Aquele contacto que transforma afastamento em proximidade, estranheza em intimidade.

29. Fazer novos amigos ou passar o tempo com os velhos.
Amigos especiais

30. Brincar com um cachorrinho.
Brincar …

31. Haver alguém a mexer-te no cabelo.
E mexer no cabelo de alguém …

32. Belos sonhos.
Que não se esfumem na memória.

33. Chocolate quente.
Chocolate frio, em finos quadrados a saber a laranja …

34. Fazer-se à estrada com amigos.
Sem planos e sem destino certo, à descoberta.

35. Balancear-se num balancé.
36. Embrulhar presentes sob a árvore de Natal comendo chocolates e bebendo a bebida favorita.
37. Letra de canções na capa do CD para podermos cantá-las sem nos sentirmos estúpidos.

Letras na capa do cd para apreciar os poemas com calma

38. Ir a um bom concerto.
Este fim-de-semana vou a dois …

39. Trocar um olhar com um belo desconhecido.
;)

40. Ganhar um jogo renhido.
Vencer um desafio.

41. Fazer bolo de chocolate.
Comer o bolo de chocolate que foi feito especialmente para nós.

42. Receber de amigos biscoitos feitos em casa.
Deliciosos

43. Passar tempo com amigos íntimos.
Amigos especiais

44. Ver o sorriso e ouvir as gargalhadas dos amigos.
Estar com os amigos especiais

45. Andar de mão dada com quem gostamos.
Sentir o toque quente da pele …

46. Encontrar por acaso um velho amigo e ver que algumas coisas (boas ou más) nunca mudam.
Saltar no tempo e recordar coisas que já nem lembrava mais…

47. Patinar sem cair.
Quem me dera…

48. Observar o contentamento de alguém que está a abrir um presente que lhe ofereceste.
Adoro comprar prendas, tentando que as mesmas sejam especiais para quem as recebe.

49. Ver o nascer do sol.
Nascer do sol, no meio do mar, brisa fria e húmida, cobertor roubado da cama e colocado sobre os ombros.

50. Levantar-se da cama todas as manhãs e agradecer outro belo dia.
E deitar-se continuando a agradecer …


”Amigos são anjos que nos levantam pelos pés quando as nossas asas não se conseguem lembrar de como se voa. “

Apetecia-me um amigo agora

Publicado por Maria em 11:27 PM | Comentários (3) | TrackBack

novembro 23, 2003

Mais ou menos VIRGEM

Este post é para vos falar de inaugurações.

Primeira inauguração.
Ontem coloquei no blog um campo com o endereço de email, já andava para o fazer, mas ia sempre ficando para depois.

Segunda inauguração.
Hoje recebi o meu primeiro email. Publicidade a um blog, recém-nascido mas que já esperneia que dá gosto ver. Mais ou menos virgem.

Terceira inauguração.
Usando a terminologia brasileira, tudo começou com um anúncio pedindo alguém que a inaugurasse definitivamente.

Anuncio engraçado: Virgem procura homem carinhoso para tirar virgindade
30 anos, bonita, 1 namorado, virgindade mal tirada, procura homem muito meigo para romper o resto.

Brincadeira pegou. De tanta mensagem até se torna confuso. Visitas pelos vistos não faltam, ainda não passou uma semana e já se prepara para completar o primeiro milhar …QUE INVEJA ;)

Mas a brincadeira merece reflexão, o tema não deixa de ser interessante.

Perder a virgindade fará diferença no comportamento sexual posterior?

Isto é, se a virgindade tivesse sido bem tirada da primeira vez, o comportamento que teve ao longo destes anos teria sido diferente?

Em que medida é que um hímen condiciona a forma como uma mulher se comporta? (não um íman, como pelos vistos alguns homens o designam, fruto sem dúvida da atracção desenvolvida)

Eu acho que condiciona, de tal forma que existem mulheres que o preferem perder sozinhas. Lembro-me de ter lido um artigo brasileiro sobre isso, já lá vão alguns anos.

Mas também acho que existem níveis diferentes de virgindade, e nem sempre a mais problemática de ser abandonada é a virgindade física.
Psicologicamente, muitas mulheres ficam virgens vidas inteiras, outras precisam de décadas para que o hímen mental se rompa e elas finalmente se entreguem sem receios a uma sexualidade que deveria ser natural.


Publicado por Maria em 04:50 PM | Comentários (2) | TrackBack

novembro 21, 2003

Olhos nos olhos

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Acabei de ler “Olhos nos Olhos” de Júlio Machado Vaz.
Gostei, estranho seria não ter gostado dado a forma como avidamente sigo tudo o que (publicamente) faz, e o modo como a sua visão da vida me toca.
Experiência longa no contacto com outras vidas permitem-lhe contar histórias inventadas mas tão reais como se efectivamente tivessem acontecido.
E provavelmente aconteceram, não mimeticamente, não em todos os detalhes, não apenas a uma pessoa. Todos nós vamos colhendo a inspiração, vamos tomando lições, das pessoas que connosco se cruzam.
Eu sei que em alguns pontos dos vários contos me senti retratada, senti que existiam pontos de contacto, quer na forma de pensar, sentir, agir … quer mesmo no que posso chamar a “história da minha vida”.
E o que mais me fascinou neste livro é que apesar de ser um conjunto de contos, agradável, de leitura fácil, cativante, que pode ser lidos num sentido puramente recreativo, não deixa de ser um livro sobre sexologia que pretende ter uma função didáctica … e que o consegue, sem dúvida.
Se ainda não leram, não percam!
Não percam também Júlio Machado Vaz em:
Antena 1 – todos os dias da semana, cerca das 9:25 “O amor é…”
Antena 1 – Segunda-feira 23:59 – “olhos nos olhos” com Ana Lamy.
NTV, RTP1, RTPI e RTP Africa – “Estes difíceis amores” nos seguintes horários:

NTV - SABADOS - 22:OO DOMINGOS 19:30
RTP1 - TERÇAS FEIRAS - 1:30 (MADRUGADA DE SEGUNDA PARA TERÇA)
RTP I / RTP AFRICA - SABADOS - 23:45

Publicado por Maria em 07:25 PM | Comentários (0) | TrackBack

Feridas

“E todas as feridas cicatrizam!?” comentário de Xupacabras a Cães, gatos e a tristeza

Acho que as feridas podem cicatrizar … mas a pele fica com marcas, mais ou menos vincadas, fica mais débil, mais sujeita, mais sensível.
Com a alma passa-se exactamente o mesmo, depois da chaga aberta nunca voltaremos ao ponto de partida, aquele que éramos antes de sermos feridos.
Saudades fortes que ficam de alguém que deixamos de ser, confianças perdidas que se tentam reconquistar mas que são mais frágeis como a epiderme da cicatriz, melancolia sem razão aparente que nos ataca e apanha desprevenidos.
Mas a isso chama-se VIVER. Faz parte do bolo que decidimos provar no momento em que escolhemos respirar.

Publicado por Maria em 10:50 AM | Comentários (2) | TrackBack

A pressa do tempo

O meu computador tem pressa que o tempo passe... deve ser vontade de receber prendas de natal.
Adiantou-se um mês, para ele o mês de Dezembro ia já a dois terços. O Natal mesmo a chegar. Deve ser da chuva e do dia cinzento.
E eu sem entender porque é que os post nos blogs estavam complemente malucos.
Melhor, acho que essa seria a razão ... a prova ainda não foi tirada. Só quando colocar este post on-line é que terei certeza.

Publicado por Maria em 10:34 AM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 20, 2003

"What's your element"

water
Your element is Water. You are a deep person and a
good communicator. Incredibably loving and
loyal when your trust is gained and you are
fairly mature.Myterious to the utmost water is
in everything. One can be an Ocean or a river
but nobody truly knows you.


What's your element
brought to you by Quizilla

Água?
Acho que sim, que será com a água que mais me identifico, onde melhor me sinto.
Estou a gostar destes testes … afinal já são duas certas em dois testes.
Já fizeram o teste? E qual é o vosso elemento?

Publicado por Maria em 05:50 PM | Comentários (4) | TrackBack

novembro 19, 2003

Uma folha de papel em branco

(do meu baú, ainda a propósito dos sonhos e de Morfeu)

Uma folha de papel em branco. A indecisão. O que escrever? Sobre o que escrever? Dizem que o mais difícil é começar. Não é verdade! Tantos inícios tenho eu perdidos por folhas meias brancas de papel. Tantas ideias afloradas que nunca chegaram a ser desenvolvidas. Tantos inícios que não chegaram mesmo a ser ideia, a ser projecto.

Não consigo definir bem esta minha necessidade de escrever. Não é pela história que quero contar, não tenho à partida uma história. Acho que é pela necessidade de falar comigo própria, de me compreender, de entender os meus sonhos e os meus pesadelos.

Quantos livros já eu escrevi nas longas noites de insónia, mas cuja recordação foi varrida pelos primeiros raios de sol da manhã. Quantas sensações novas já eu experimentei naquele ponto intermédio de consciência, em que não estamos adormecidos mas também não totalmente despertos, em que o sonho (ou pesadelo) surge involuntariamente mas cujo controlo, a partir de determinado momento já é nosso.

Penso que os sonhos foram criados para nos proporcionarem sensações e conhecimentos que de outro modo poderíamos não experimentar na nossa vida. Nos sonhos é-nos possível experimentar sensações em graus de intensidade que acordados não conseguiríamos ou não teríamos oportunidade. Medo absoluto e paralisante, felicidade completa…

Ainda me lembro, com mais clareza do que fossem hoje, de alguns sonhos que tive em criança, de algumas imagens associadas a esses sonhos.
Sei que muitos deles me tornaram mais rica, me permitiram crescer e assimilar etapas de desenvolvimento. Sei que outros foram unicamente uma ida ao cinema para ver um filme "fast-food" de ingestão fácil e digestão rápida, sem mais consequências.
Os meus sonhos permitiram-me conhecer o medo, o pavor e a lidar com eles. Permitiram compreender e aceitar a morte e a vida.

Na escuridão da noite, na semiconsciência do sono, as coisas ganham uma dimensão diferente, conceitos podem tornar-se entidades palpáveis, objectos podem ter vida própria.
No sonho reinterpretámos a nossa vida, como se um, ou a outra fossem representações teatrais feitas ao gosto e para prazer de seres superiores.

Gosto de escrever, gosto como as palavras se encadeiam naturalmente, gosto como as ideias fluem ao sabor do lápis.
Quando escrevo restrinjo necessariamente a amplitude do pensamento. A mão não é suficientemente rápida e funciona num único nível. A escrita mental, que faço em noites de vigília é como um labirinto tridimensional, cheia de pequenos caminhos que se cruzam, de becos que não vão dar a sítio algum e que obrigam ao retrocesso, de atalhos que fazem o salto entre dimensões. Nesses estados de semiconsciência é possível que o irreal seja a mais concreta das realidades. E essa ginástica mental é impensável no nosso dia a dia.
Tudo isto começou porque eu queria escrever e não sabia, e não sei, sobre o quê. Sinto uma necessidade incrível de escrever e ao mesmo tempo uma dificuldade extrema em o fazer sistematicamente.

Gosto de escrever reflexões curtas, e a escrita deve ser, antes de mais, uma questão de prazer próprio, de satisfação de anseios. Se o que daí resultar for algo cuja leitura possa trazer algum beneficio, ou prazer, para os outros, tanto melhor. Senão, o próprio prazer de escrever estas, e outras linhas, é mais do que suficiente.

30/07/2000

Publicado por Maria em 01:57 AM | Comentários (1) | TrackBack

Cães, gatos e a tristeza

Li no blog do JotaKapa um post que começava sendo sobre cães e gatos mas acabava sendo sobre muitas mais coisas.

"Numa coisa os gatos são muito sábios: quando se magoam, lambem as feridas e seguem em frente. Mais! Caem sempre, mas sempre, de pé!!!"

A imagem de lamber feridas aplica-se de igual forma quer a cães, quer a gatos. Acho que se aplica a todos os animais que tem língua e capacidade de contorção para com ela chegar aos mais variados sítios. No não ficar eternamente a lamber as feridas é que reside a sabedoria. A capacidade de aterrar sobre as patas é essa sim uma vantagem notoriamente felina.

Mas acho que nem cães nem gatos se deixam abater facilmente pelas adversidades. Cada um resolve os problemas à sua maneira, um pela força, outro pela astúcia, um pelo confronto directo, outro pela dissimulação. E nós, humanos, somos também assim, diferentes na forma como reagimos perante as adversidades, como as contornamos, como lutamos ou como sucumbimos. Porque nem só de vitórias reza a história…

“Quantas vezes temos a tendência para ficar a curtir a fossa quando algo nos magoa?
Valerá a pena?...”

Acho que tal como o animal que lambe as feridas antes de se levantar de novo e seguir em frente, também nós necessitamos de tempos, um tempo para sentir, um tempo para analisar, um tempo para ressurgir, e muitas vezes um tempo para esquecer.
O “lamber das feridas” ou a “tristeza que cai sobre nós” são imagens diferentes para um mesmo tempo, o tempo da cicatrização.

Publicado por Maria em 01:47 AM | Comentários (1) | TrackBack

novembro 18, 2003

Até Um Novo Alvorecer

Morfeu, não me deixes sequer pensar o que dizer, não me deixes pensar, o meu cérebro rebola-se, contorce-se e eu não consigo dormir.

OH! Morfeu!
Quem me dera embalar-me suavemente em teus braços, ver meus pesares esquecidos, transformados em belas fantasias.
Que o sono e o sonho invadam a minha vida, as minhas noites. Nada mais doce do que um sono povoado de belos sonhos, que sensação de felicidade.

Morfeu não me abandones!
Guia-me nesta passagem por um mundo frenético, agitado. Dá-me a paz e o sossego.

Diz-nos: "Durmam em paz" (Até um novo alvorecer!).

22/09/1984

(outro texto saído do meu baú, este já estava escrito em papel carcomido pelo tempo e pela distância, quase 20 anos ...)

Publicado por Maria em 10:38 PM | Comentários (0) | TrackBack

?? Which Of The Greek Gods Are You ??

Morpheus
Morpheus


?? Which Of The Greek Gods Are You ??
brought to you by Quizilla

Morpheus … Morfeu…
Acho que tem alguma verdade, pensando bem.
Embora eu me tenha sempre visto mais como Mercúrio, de asas nos pés … principalmente depois de uma taça de champanhe, a verdade é que é o Morfeu quem eu invoco mais vezes.
Não deixa de ser engraçado como poucas questões conseguem cristalizar tendências.

Publicado por Maria em 10:20 PM | Comentários (0) | TrackBack

Tristeza

Sabem aquela tristeza
Que cai sobre nós como neblina em fim de tarde,
Que gela a alma e arrepia o corpo.
Com uma angústia que nos vai enchendo, enchendo …
E para a qual não encontramos motivos?
Sabem aquela tristeza
Da qual não nos apetece libertar
Antes saborear a melancolia
Saborear a pele crispada
Mergulhar profundamente
Suster a respiração
E então, quando a vida parece que nos abandona
Emergir refeito, revigorado
Como se a tristeza fosse um casulo em que nos abrigamos
Para que o ser pudesse evoluir
Para que o ser pudesse crescer.

Publicado por Maria em 12:50 AM | Comentários (1) | TrackBack

novembro 13, 2003

A caneta

Resolvi ir buscar um texto antigo ao baú.
Baú!!!! Megalomania minha …
Pasta … melhor “folder”, que cada vez mais as ideias ficam arquivadas em bites e bytes.


“Às vezes somos cativados por pormenores, pequenas coisas que nos agradam, e que acabamos a valorizar mais do que efectivamente o merecem.

A caneta que uso para escrever, reparei agora, está quase a acabar, e pensei, tenho que arranjar outra para a substituir. Pensamento normal, não fora o estojo pousado a meu lado ter mais quatro canetas de cores variadas. E se o vermelho pode resultar contrastante demais, qualquer uma das outras é uma cor utilizada correntemente em escrita, verde, preto e azul.

Esta caneta com que agora escrevo, de um azul celeste, de tinta em gel, de bico fino, movimento fácil, prestes a acabar a sua vida útil, parece-me mais própria a traçar gatafunhos no papel que qualquer uma das outras.

Fico presa a pequenos pormenores, como a cor da tinta, a textura do papel, a forma do caderninho que uso, o tipo de encadernação do mesmo.

Uns inspiram-me mais do que outros, com alguns identifico-me melhor do que com os restantes.

Não deveria ter efeito nenhum sobre a escrita, o papel em que é feita, nem a cor da caneta que lhe dá forma. E talvez, em verdade não tenha, objectivamente, rigorosamente, nenhuma influência directa.

O criar de hábitos, de novos hábitos tem muitas vezes de ser rodeado de rituais, e talvez a escolha da caneta faça parte de um conjunto de actos que pretenderam criar um espaço para a escrita, não rígido, não determinado pelo local onde estivesse, mas simplesmente pela vontade de o fazer.

E assim, passou a ser presença na minha carteira, um pequeno bloco, formato A6 ou aproximado, e pelo menos uma caneta que proporcione uma escrita agradável, fluida, rápida, como as ideias que pululam na minha cabeça.

Se este simples facto teve alguma influência?

Claro que teve, porque passei a ter sempre disponível um suporte para prender as minhas ideias antes que se volatilizem, ou simplesmente para brincar com formas, pensar desenhando, experimentar texturas.

Neste último ano, quando passei a carregar sistematicamente com os meus blocos, escrevi mais do que em vários dos anos anteriores, desenhei mais do que na década precedente.

Talvez um dia, estes blocos que com o tempo eu terei que ir numerando, me permitam regredir e encontrar-me com recordações adormecidas, de visitar o meu passado com a distância de quem observa a vida de outrem.

Quando releio coisas antigas, três ou quatro anos são suficientes, tenho surpresas porque já não recordo a maior parte dos factos, porque já não identifico formas de estar e de pensar.

O tempo tem o dom de esbater a cor de tudo, cobrir de névoa e finalmente de esquecimento.

As recordações que perduram já são mais uma produção da nossa mente, que retratos efectivos do que se passou. Quanto mais recordada uma situação mais ela se afasta do que efectivamente foi. Chegamos a uma altura em que o que recordamos já não é o facto em si mas o conjunto de recordações que fomos tendo dele, ao longo do tempo.

Já não recordo o banho que tomei em miúda, na fonte da aldeia em dia de festa, o que recordo são já as imagens criadas com o tempo, de cada vez que esse banho foi mencionado pelos outros ou pensado por mim.

Nesta altura os cenários já se misturam e sei que no local onde eu recordo o banho, nunca existiu uma fonte, mas mesmo assim é aí que eu me vejo, nua sob a bica de água fresca, como se me tivesse conseguido desmultiplicar e ser simultaneamente observadora exterior e actriz principal.

O que eu tenho na recordação já não é o que aconteceu mas a imagem mental que eu criei.

Um testemunho escrito na altura, e ser verdadeiro e não escrito em busca de um qualquer efeito, poderá um dia ajudar-me a recordar o que foi a minha vida nestas alturas.

A esferográfica continua o seu percurso em direcção à extinção. Quando nem mais uma letra sair do seu bico terei de procurar outra cor que me atraia, que contraste com o tom cinza azulado do papel.

Presa a pequenos detalhes continuarei a estar sempre.”
30-08-2003

Publicado por Maria em 10:10 AM | Comentários (1) | TrackBack

novembro 08, 2003

Pensando...

Existem vocábulos que tem mais música noutras línguas, tem sons que se aproximam mais do que designam.
“Home” é um som fechado, aconchegante, quente.
“Lar” é aberto, escancarado, cheio de correntes de ar.

Publicado por Maria em 12:25 AM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 06, 2003

Patchwork

É um dos meus hobbies, guardar todos os paninhos que sobram, recorta-los com formas pré-estabelecidas e depois conjuga-los de modo a criar novos padrões.
Gosto de jogar com a regra e com o elemento surpresa. Ver o efeito que a combinação pseudo-aleatória dos diferentes padrões cria.
É um misto de regras e não-regras, de elementos que decido e outros que não consigo controlar.
São regras gerais, as formas, o tamanho, que estruturam e o aleatório da quantidade disponível, das conjugações possíveis que criam um caos.
E gosto que assim seja.
Já não me atrai tanto programar com antecedência, comprar os tecidos na quantidade certa, desenhar, recortar e voltar a juntar. Prefiro brincar com os resto… estar condicionada em vez de livre.
Engraçado, acho que posso fazer a transposição do patchwork para outros campos.
Nos projectos gosto de jogar com as pré-existências. Gosto de descobrir regras gerais, geométricas ou outras e depois brincar dentro desse balizamento.
Se pensar, a natureza também não é diferente disso, existem as regras que são as leis da natureza e depois existe a multitude de cenários que essas regras permitem.
As árvores são sempre diferentes sem nunca deixarem de ser árvores.

Publicado por Maria em 03:25 PM | Comentários (0) | TrackBack

outubro 31, 2003

Mar II

O mar hoje está com uma ondulação fabulosa.
As rajadas de vento desenham a superfície da água.
O molhe de protecção constantemente envolvido em nuvens de espuma branca.
Gotículas de água levadas pelo vento, criam uma neblina ténue.
As gaivotas esvoaçam, pontuando o céu.
Os barcos apressam-se para atingirem a protecção do porto.
Um cargueiro, cheio de contentores, parece ter dificuldade em manter-se à tona, em manter-se direito, vertical.
A luz da manhã, envergonhada, coloca um filtro prateado na paisagem.

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outubro 30, 2003

Mar

Existe, para mim, um encanto enorme em ficar dentro do carro, junto ao mar num dia de mau tempo. Sentir o carro fustigado pela chuva e pelo vento. O som ritmado da chuva que vai variando a intensidade e o ângulo, o vento que embala a viatura. Ir perdendo a visibilidade, à medida que os vidros do carro ficam embaciados, confundir o cinza azulado do mar com a névoa do céu, perder completamente as referências exteriores. Não saber onde estou, ficando apenas o ruído que me envolve.

Publicado por Maria em 10:15 PM | Comentários (1) | TrackBack