Está um dia cinzento, empastelado, muito mais porque a janela que mo traz tem vidros sujos da poeira acumulada do Verão e da humidade da manhã que cria uma pasta fina e texturada. Às vezes parece que detecto um leve brilho lá fora, como se uma nuvem se espreguiçasse, esticasse e adquirisse transparência. Acho que o sol ainda não desistiu completamente de brilhar, aguarda apenas que as nuvens encontrem o seu caminho.
Último dia de Agosto, último dia do mês das férias. Setembro é ano novo que começa, são planos postos à prova, projectos que arrancam.
O sol continua na sua dança suave com as nuvens marcando um ritmo lento de sombras e de brilhos. Uma dança que se adivinha mas não se vê, uma dança que se intui e que se sente.
Uma dança que me convida…
Ás vezes apetece-me escrever mas o cérebro é o único local onde consigo deixar apontamentos, e então, vou sobrepondo notas e mais notas até ao ponto de, em vez de letras e ideias, reconhecer unicamente texturas.
Depois, de posse de papel e tinta, parece que a inspiração se esvai totalmente, outras vezes que a escolha é demasiado vasta para me cingir a um único texto, a uma única ideia, a uma única história.
Tenho, com a mente, diálogos ricos que no papel se tornam monólogos forçados. Na cabeça, o romance está já todo escrito, eu apenas lhe acrescento cenas, dou colorido a um pormenor ou outro. No papel em branco, não existe a história antes nem a história à volta, e sou eu responsável pelo que faço nascer.
No papel, perderá sempre força em relação ao que foi pensado. Eventualmente poderá reconquistá-la parcialmente quando quem lê, faz da sua vida, da sua experiência e da sua imaginação o cenário que a enriquece.
…
Reli, na mente era claro, aqui, no papel, confuso.
Afastou o sofá e procurou atrás, espreitou debaixo dos móveis, levantou tapetes, afastou cortinas, saiu porta fora e tirou vasos do sítio, pedras do caminho…
- O que procuras?
- O sentido da vida
- Não sabes onde está?
- Não!
- Onde o perdeste?
- Nunca o tive…
- Mas pelo menos sabes como é?
- Também não!
- O que é?
- Não sei também.
- Então porque o procuras?
- Porque me disseram que existia…
- Um dia irás certamente encontrá-lo…E quando o encontrares, vai reconhecê-lo sem que seja preciso que te digam o que é.
- Achas?
- Tenho certeza. Vai-te parecer assim como uma estrada iluminada e convidativa, e não vais ter dúvidas.
- Assim como a “Yellow brick road”?
- Parecida, mesmo que os tijolos de que é feita sejam de uma outra qualquer cor.
- …
- E sabes uma coisa, quando encontrares a tua estrada, e te decidires a segui-la, vais olhar para trás e perceber que ela sempre ali esteve. E se tentares ver as marcas dos teus passos, vais notar que eles sempre seguiram a direcção dessa estrada, umas vezes caminhando paralelamente, outras vezes ziguezagueando à sua volta, mas nunca se afastando muito. O sentido da vida sempre te acompanhou, tu é que não te apercebeste.
- E porque não o consigo ver eu agora?
- Porque estás demasiado ocupado na sua busca. Vendo pequeno, só vês pormenores e para se vislumbrar o sentido da vida é preciso olhar de longe.
Fiquei a ver o nevoeiro recuar mar adentro como invasor que desistisse da conquista.
Lembrei-me de um colega que costumava dizer que o Douro devia ter em suas águas uma qualquer mixórdia que em dois dias de sol se evaporava e criava névoas e neblinas nos dias que se seguiam.
Gosto de neblinas brilhantes que marcam a distância estabelecendo, em tonalidades cinza, as diferenças de planos. Sol coado por uma fina cortina branca, brilhos na textura de um rio. Falta de pormenores para que a nossa imaginação se entretenha a construir o que conhece. Gosto das matinais névoas de um dia abençoado pelo sol.
- O nosso cristal quebrou-se.
- Sim?
- A cápsula de cristal que nos envolvia partiu-se!
- E o que é que isso significa?
- Que a vida pode entrar! Deixamos de estar isolados.
- Isso é mau ou bom?
- Depende. Teremos que abandonar a protecção do casulo que nos envolvia e viver, com paixões, com alegrias, mas também com dores e mágoas. A morna apatia em que vivíamos terá de ser abandonada. Passamos a ser co-proprietários do nosso destino.
- Não é a isso que os humanos chamam nascer?
- Talvez seja, talvez seja …
“- São o mistério e o maravilhoso que servem as nossas almas, não o Graal em si. A beleza do Graal reside na sua natureza etérea. (…) Para alguns, o Graal é uma taça que lhes proporcionará a vida eterna. Para outros, é a procura de documentos perdidos e da História secreta. Para a maioria, suspeito, o Santo Graal é apenas uma ideia grandiosa… um tesouro glorioso e inatingível que de algum modo, mesmo no nosso caótico mundo, nos inspira.” Dan Brown – O Código Da Vinci
O acaso fez que depois de um livro lesse o outro. Histórias diferentes com um ponto comum. A demanda por algo inatingível, cujo maior poder reside nessa intangibilidade, no mistério e no sonho que comporta.
Mas acho que as semelhanças entre os livros se esfumam aí.
Umberto Eco é um dos meus escritores de eleição, a forma imaginativa como ele consegue cerzir história e estórias, o modo como nos transporta no tempo nas asas das suas descrições, a maneira como coloca a narração na boca de alguém e como cola o tipo de escrita à época … tudo isso me deixa rendida.
A escrita de Dan Brown é bem diferente, frases curtas, parágrafos curtos, capítulos pequenos. Narração de acção, descrição de cenários, de uma forma directa e objectiva, menos pintura e poesia e mais fotografia e reportagem.
Mas quer de um quer de outro tiro uma mesma lição, a necessidade de acompanhar a escrita com a pesquisa, os factos, os locais, a história, os mitos, os edifícios, as personagens … um livro não como o produto da inspiração de um momento, mas como o resultado de um trabalho contínuo e consequente.
Gosto da calma agitada de um dia coberto de gotículas de água. Os molhes vazios, o mar em cinza azulado, o ruído da ondulação.
Também gosto de dias de sol intenso, de céu azul, temperaturas altas, praias movimentadas.
Gosto sobretudo desta mudança que coloca uns a seguir aos outros.
Embora o modo como o sol nasce e o sol se põe não seja efectivamente diferente, quando imaginamos a terra vista do espaço, a verdade é que a sensação que temos de um e de outro momento do dia é realmente diversa.
O ar frio da madrugada confere mais transparência à atmosfera, os níveis de poluição mais baixos pelo dia que ainda não começou ampliam o brilho do sol da manhã. Mas julgo que também os nossos olhos e os nossos sentidos estejam mais receptivos aos estímulos exteriores, ao encanto do dia que começa.
Durante uma parte da minha vida acompanhei de perto a passagem de madrugada a manhã. E se tenho consciência que este levantar cedo me condicionava o rendimento global, também sei dos encantos desses momentos em que vemos o céu mudar gradualmente de cor, em que sentimos o frio que antecede a aurora, em que vemos raios tímidos de luz espreitarem sobre a paisagem para depois incendiarem tudo com a sua cor quente e brilho.
Recordo essa transfiguração da paisagem com encanto, com carinho. Momentos muitas vezes passados em comboios, fazendo assim dois percursos simultâneos, um no tempo e outro no espaço.
A partida para férias, foi também motivo para um madrugar antecipado, e o recordar esses outros momentos. Quando saí de casa, uma neblina muito ligeira ainda cobria a paisagem, o sol aparecia apenas como reflexo nos edifícios mais altos, mas o céu já tinha a cor limpa de um dia de verão.
Mais tarde, do avião, à medida que o mesmo se afastava da terra, tive a percepção, à distância, de névoas que estabeleciam diferentes planos, de montes como sombras chinesas e de lenços de nevoeiro nas zonas mais baixas e mais húmidas. O sol brilhava com força iluminando tapetes de nuvens à medida que mais alto subíamos. Para cima, azul imenso, para baixo, a estranheza da distância que dá outra dimensão à paisagem.

[2 fotos]


Um texto que escrevo é quase uma fotografia da alma que me tiro. Eu sei que a comparação é exagerada mas tal como a fotografia olhada mais tarde me permite recordar coisas para além das retratadas, dos meus textos retiro depois muito mais do que deixei expresso.
As memórias funcionam por associações, e às palavras escritas eu junto o ruído do mar em constante vai e vem contra o molhe, junto esta neblina fina que pontua o dia, junto as gotas de água acumuladas no vidro do carro, junto a temperatura fresca mas agradável, junto tudo mesmo que não o diga expressamente como o faço agora, e junto ainda o estado de espírito que me move, as sensações dos dias...
Nem todas as releituras são agradáveis. Às vezes existem textos antigos que eu inicio a leitura e não a termino, para que as raivas lá expressas continuem lá contidas. Mas não os destruo, poderá existir um dia em que a revisita aos mesmos seja importante
A nave “familiar enterprise” continua a sua missão de exploração do universo.
Temos tido algumas dificuldades com o computador responsável pelas comunicações da nave, que desenvolveu um comportamento aleatório e profundamente desagradável, deixando-nos isolados por longos períodos de tempo. Os nossos técnicos mais qualificados e os nossos curiosos mais inspirados tem feito esforços para a resolução do problema, mas ainda não chegaram a uma solução perene. Temos comunicações intermitentes há já vários dias.
Esta avaria vem em altura pouco propícia (embora admita que qualquer outra altura também não fosse considerada mais propicia), porque a tripulação denota já sinais evidentes de cansaço e saturação, e procuramos ilha, perdão, planeta, paradisíaco que esteja disposto a receber-nos por um prazo relativamente curto e que não solicite demasiadas contrapartidas.
Até agora estas negociações tem sido atrasadas pela avaria nas comunicações mas também porque a tripulação não se decide para onde quer ir, se mais para o interior da galáxia, se apanha um buraco negro e dá um saltinho a um universo paralelo, se abre as escotilhas da nave, inunda um ou dois porões, aponta a nave a uma estrela próxima e faz praia mesmo sem sair de casa, perdão, da nave.
http://dukedan.sites.uol.com.br/mude.swf
É grande, por isso é preciso paciência para esperar enquanto carrega.
Para quem tem ligação lenta, fica só o texto, sem música nem imagens.
Mude, mas comece devagar, porque a direcção é mais importante que a velocidade.
Sente-se numa outra cadeira, do outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.
Quando sair, procure andar pelo outro lado da rua.
Depois, mude de caminho, ande por outras ruas, calmamente, observando com atenção os lugares por onde passa.
Apanhe outros autocarros.
Mude por uns tempos o seu estilo de vestir.
Dê os seus sapatos velhos.
Procure andar descalço alguns dias.
Tire uma tarde inteira para passear livremente na praia, ou no parque, e ouvir o canto dos passarinhos.
Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche as gavetas e portas com a mão esquerda.
Durma no outro lado da cama... depois, procure dormir em outras camas.
Assista a outros programas de TV, compre outros jornais... leia outros livros, viva outros romances.
Não faça do hábito um estilo de vida.
Ame a novidade.
Durma mais tarde.
Durma mais cedo.
Aprenda uma palavra nova por dia numa outra língua.
Corrija a postura.
Coma um pouco menos, escolha comidas diferentes, novos temperos, novas cores, novas sabores.
Tente o novo todo dia.
O novo lado, o novo método, o novo sabor, o novo jeito, o novo prazer, o novo amor, a nova vida.
Tente.
Procure novos amigos.
Tente novos amores.
Faça novas relações.
Almoce em outros locais, vá a outros restaurantes, beba uma outra bebida, compre pão em outra padaria.
Almoce mais cedo, jante mais tarde ou vice-versa.
Escolha outro mercado... outra marca de sabonete, outra pasta de dentes...
Tome banho em novos horários.
Use canetas de outras cores.
Vá passear noutros lugares.
Ame muito, cada vez mais, de modos diferentes.
Troque de bolsa, de carteira, de malas, troque de carro, compre novos óculos, escreva outras poesias.
Jogue fora os velhos relógios, quebre delicadamente esses horrorosos despertadores.
Abra conta noutro banco.
Vá a outros cinemas, outros cabeleireiros, outros teatros, visite novos museus.
Mude.
Lembre-se de que a Vida é uma só.
Pense seriamente em arranjar outro emprego, uma nova ocupação, um trabalho mais suave, mais prazeroso, mais digno, mais humano.
Se não encontrar razões para ser livre, invente-as.
Seja criativo.
E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa, longa, se possível sem destino.
Experimente coisas novas.
Troque novamente.
Mude, de novo.
Experimente outra vez.
Certamente conhecerá coisas melhores e coisas piores do que as já conhecidas, mas não é isso o que importa.
O mais importante é a mudança, o movimento, o dinamismo, a energia.
Só o que está morto não muda!
Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena!
Hoje dei por mim a pensar se rimos da mesma maneira quando estamos sozinhos ou quando temos companhia. Isto é, perante a mesma circunstância, por exemplo, um programa na televisão, a nossa reacção é influenciada ou não pela presença de outras pessoas.
Será o riso um comportamento social que visa transmitir às outras pessoas o nosso estado de espírito? A nossa aprovação?
Sei por experiência que as gargalhadas incontroláveis sempre as tive em conjunto com outros e nunca sozinha. A companhia tem pelo menos um papel de ampliação de intensidade.
A partilha é importante, quantas vezes olhamos para o lado e perguntamos: “viste isto?” e o simples comentar já é uma valorização. E quantas vezes nos sentimos sós pelo simples facto dessa partilha já não surtir efeito, de às nossas palavras já não responderem sons nem trejeitos no rosto, apenas uma face impávida que já nem nos fita.
Por outro lado, quantas vezes dou por mim a rir sozinha, com as ideias mirabolantes que passam pela minha cabeça. A rir, não, a sorrir… talvez a linha de separação se faça aí … entre risos e sorrisos.
Ingredientes
1 pouco de inspiração
1 mão cheia de sonhos
2 chávenas de letras
2 copos de graça
1 colher de chã de ironia
1 pitada de melancolia
vontadade q.b.
imagens para decoração
Pegar nos sonhos com cuidado para não ferir e polvilha-los com a inspiração, até ficarem completamente recobertos. Se faltar inspiração, juntar um pouco de improviso, ou então de açúcar em pó que o doce nunca amargou. Numa taça grande, colocar as letras como cama e de seguida pousar cuidadosamente os sonhos. Aguardar algum tempo de fermentação, para que os sonhos cresçam e transformem as letras em palavras, as palavras em ideias, as ideias em imagens. A taça deverá ser suficientemente grande para permitir aos sonhos que cresçam sem entraves. Escolha alguns, faça-lhes um pequeno golpe imperceptível e recheie-os com a ironia. Pegue nos restantes e junte-lhes a graça, reserve e preserve. Pegue na pitada de melancolia e vá pontuando um ou outro. Tudo isto deve ser feito com muito cuidado e muita vontade.
Distribua tudo em posts e decore com imagens a seu gosto. Depois, é só saborear e partilhar com todos que apreciem comida simples, mas cuidada, sabores autênticos.
E passar a receita, que de cada vez que é feita por uma pessoa diferente, mais um ingrediente é adicionado, um novo sabor é descoberto, uma textura é refinada.
Aqui fica o bolo de aniversário deste blog, comam o quanto quiserem e voltem sempre para mais.
**Utopia
O sonho, a imaginação e a inconformidade revelaram-se na utopia como o desejo de conseguir uma sociedade ideal e perfeita. Fruto de épocas de crise, em que a imaginação do Homem se evade, fugindo duma realidade difícil, buscando a felicidade num mundo que é apenas imaginário, mas que seria o ideal, caso existisse.
No mundo ocidental, este assunto foi abordado tanto por Platão, na Grécia, como por Virgílio, em Roma. Contudo, foi no Renascimento, com Thomas More, na sua obra Utopia , que este vocábulo se tornou mais utilizado.
Elemento fundamental para percebermos este vocábulo é a vontade de ruptura com o presente e o desejo de transformação, por vezes radical, das estruturas e valores sociais em vigor.
A utopia pode distinguir-se em várias tipologias: absolutas, relativas, negativas. Absolutas, quando entra em total contradição com a vivência humana. Aqui incluem-se, sobretudo, as utopias mitológicas. Relativas, quando nunca existiram projectos semelhantes, mas seria possível a sua realização. Utopias negativas ou distopias, quando a perfeição tecnológica na sociedade escraviza a condição humana, ou há a proposta de uma sociedade fechada e totalitária, apesar de utópica.
**Quimera
Um dos animais fabulosos da mitologia grega. Era algo entre o leão e a cabra, ou, noutras versões, com três cabeças - de cabra, de leão e de cobra -, ou então, numa versão mais generalizada, um monstro com cabeça de leão num corpo de cabra e com uma cauda de serpente. Como o dragão, deitava chamas pela boca, para além de devorar homens e exércitos inteiros.
Quimera era filha do gigante Tífon e da víbora Equidna, monstro que era metade mulher e metade serpente. Foi criada por Amisodores, rei de Cária. Vivia em Pátera, na Lícia, região do sul da Ásia Menor (actual Turquia). A sua monstruosidade gerava sentimentos de medo e de repulsa, o que fez com que Ióbates, rei da Lícia, tivesse mandado a Belerofonte que aniquilasse Quimera. Esta era acusada pelo soberano de efectuar devastações e roubos no seu reino.
Belerofonte apenas a conseguiu matar graças à ajuda de Pégaso, o cavalo alado. Segundo a lenda, terá penetrado no corpo do animal pela garganta armado de uma lança. A ponta desta lança de Belerofonte era, segundo a lenda, feita de chumbo, o qual, aquecido pelas chamas soltadas por Quimera, se terá fundido no corpo desta, provocando a morte do monstro por sufocamento.
Existia também uma ninfa na Sicília chamada Quimera, a qual se apaixonou por Dáfnis.
A palavra quimera, tornada um substantivo comum veio a ser sinónimo de "criação ilusória da imaginação", de "ideia falsa", tendo também alimentado alguma iconografia medieval.
Do dicionário on-line da Porto Editora - Infopédia
Obrigada M. pelas passagem das definições.
Utopia (substantivo feminino)
1. projecto de governo que, a ser exequível, asseguraria a felicidade geral;
2. projecto imaginário, irreal;
(Do gr. oü, «não» +tópos, «lugar», pelo lat. Utopìa-, «utopia, lugar que não existe»)
quimera (substantivo feminino )
1. MITOLOGIA monstro lendário, com cabeça de leão, corpo de cabra e cauda de dragão;
2. figurado fantasia; ilusão; utopia;
3. figurado absurdo;
4. BOTÂNICA organismo vegetal, misto, constituído por tecidos diferentes;
5. ICTIOLOGIA designação (por aportuguesamento da designação científica do género Chimaera) dos peixes holocéfalos, de corpo alongado, mais vulgarmente conhecidos por papagaio-do-mar, peixe-rato e rato;
(Do gr. khímaira, «monstro fabuloso», pelo lat. Chimaera-, «id.»)
http://www.infopedia.pt/homepage.jsp
A propósito dos comentários ao post anterior.
Sem querer desculpar a minha ignorância congénita por só ter descoberto a palavra utopia com uma dúzia de anos, gostaria de chamar a atenção para as definições acima de um dicionário on-line acabadinho de consultar. Admito, não levantei o meu traseiro do sofá para ir consultar os dicionários em papel que tenho cá por casa, mas sendo esta edição on-line da Porto Editora, julgo poder usá-la como referência.
Da génese grega da palavra temos o seu significado original – não lugar ou o lugar que não existe. Não existindo, de que forma é que essa não existência poderia melhorar de algum modo a vida que vivemos. Como um objectivo inatingível mas que serviria como um íman dos nossos percursos. E se a memória não me falha, que nem a história nem a filosofia são matérias que domine, o segundo sentido de utopia, como o lugar da felicidade, é um conceito que surge no século XIX em Inglaterra e em França, ligado aos movimentos sociais. Saint-Simon, Robert Owen e Charles Fourier ficaram conhecidos por socialistas utópicos. Em comum, uma ideia de que era possível organizar a vivência humana, o espaço e as formas de produção de uma forma mais justa e equitativa para todos. E em comum também o facto de nenhum deles ter vingado …
A utopia, se atingida, necessariamente seria um não movimento…
Mas a ideia subjacente a este texto é outra bem diferente, é que a quimera de um mundo melhor, a utopia, esse lugar ideal que não existe é o que nos inspira a caminhar. Chegar lá não é o importante, o importante é o percurso que se faz. E o percurso só se faz porque existem ideais a atingir, ou a procurar atingir.
E podem continuar a puxar-me as orelhas … existem muitas coisas que descobri muito tarde, outras cedo demais, mas é do somatório dessas experiências, desses erros, das ignorâncias, das pretensas sabedorias, dos sofrimentos, das alegrias, dos debates mais ou menos acessos, que eu me fiz quem sou, por isso não me envergonho de só ter descoberto a palavra utopia com 12 anos.
Esta história que não conhecia apanhei-a no "Espelho Mágico" que espero não se importe deste pequeno "mirror" que lhe faço. Adorei a história e o que ela encerra, a importância de ter objectivos, mesmo quando os mesmos parecem inalcançáveis.
"Um dia um aprendiz de filósofo chegou junto do seu velho mestre e perguntou-lhe:
-Mestre, podeis explicar-me o que é a Utopia?
O velho sorriu e apontando para o caminho em sua frente, disse:
-Estás a ver a linha do Horizonte? Caminhemos até ela!
Durante dias e noites, caminharam Mestre e aprendiz lado a lado, tão entretidos e concentrados, que, quem olhasse, não saberia quem ensinava e quem aprendia.
Durante dias e noites, trocaram saberes e ideias, partilharam o que cada um sabia sobre o mundo dos homens e dos deuses, até que o aprendiz, já impaciente e um pouco cansado, disse:
-Mestre...caminhámos durante tantos dias e parece que a linha do horizonte está cada vez mais distante?!
-Sim, é verdade – disse o velho – tal como a Utopia te parece, que quanto mais caminhas para ela, mais longe está!
-Mas...Mestre!? Se é assim...para que serve então a Utopia?
-Para caminhar, meu bom amigo...serve para caminhar!..."
O texto que a seguir transcrevo faz parte do contrato de licença de um software. Sim, aqueles textos que ninguém lê, e que concorda imediatamente, para poder seguir com a instalação do programa. Mas de vez em quando, principalmente nos programas que são “freeware” ou “shareware”, encontram-se pérolas de ternura, como neste caso.
"Dedication Public License (DPL)
By downloading the archive, you confirm your agreement in this license.
I. Freeware
First of all, the reasons why Spybot-S&D is free:
I.a. Dedication
Spybot-S&D is dedicated to the most wonderful girl on earth :)
I.b. Binary
What do you get if you buy software? Lots of ones and zeros, nothing more. If they were distributed as art, I could understand paying it. But if the main goal of their order is to earn money - by fees or ads - I don't like it!
I.c. Conclusion
This means that I grant you the license to use Spybot-S&D as much as you like. But if you like it, I ask two things of you: say a prayer for me (and the most wonderful girl while you're at it ;) ) to your god - or whatever you believe - and wish us some luck.
(...) "
Na praia de Apúlia costumava eu, em miúda, passar os meses de Verão. Para guiar os pescadores em tempos de neblina existia uma ronca colocada na zona central da praia. O som grave invadia a praia juntamente com a névoa húmida que filtrava o sol. O som parecia que ficava confinado, como se a névoa construísse barreiras à sua propagação. E o seu som, para além de guiar os pequenos barcos, afastando-os das rochas que defendiam a costa, protegia a praia que assim se tornava unicamente nossa, dos que tínhamos coragem de desafiar a névoa. Nesses dias, armados de casacos, baralhos de cartas e bolas, conquistávamos barracas alheias, jogávamos desafiadoramente nos espaços normalmente não permitidos, dizíamos que não à tirania do creme nívea que nos colava areia ao corpo.
Eu adorava os dias de neblina, adorava a humidade fina que se colava à pele, gostava do efeito do mar calmo que se diluía no céu.
A neblina que invadiu a costa nestes dias, o som que a espaços certos marca o ritmo do dia fez-me recordar esses tempos de criança e recorda-me o prazer de viver a dois passos do mar.

Às vezes apetece-me escrever sem pensar, deixar que as palavras corram velozes pela mente e que a mão, se for suficientemente rápida, as capture e cristalize.
Às vezes apetece-me fazer ligação directa entre o que sinto e o que escrevo e esquecer o Eu que pensa, que ordena, que organiza, que define, que restringe.
Às vezes apetece-me apanhar unicamente o ritmo das palavras, esquecer significados.
Às vezes apetece-me brincar com os sentidos segundos das ideias, procurar o que não é directo, o que desponta apenas.
Às vezes apetece não pensar, não ter lógica, não justificar, não arguir.
Às vezes apetece-me o apenas brincar com as letras que se juntam ao sabor de ordens místicas.
Às vezes apetece-me algo que eu não consigo identificar.
Às vezes apetece-me a não responsabilidade.
Às vezes apetece-me o sonho.
Às vezes apetece-me a liberdade de quem não tem amarras que lhe tolham movimentos, apetece-me ignorar a gravidade que me prende ao solo.
Às vezes apetece-me …
Estrado de madeira escurecida em que o uso acentua o veio, junta aberta, irregular. Uma salamandra contra o vidro, hoje desligada porque o tempo já aquece. Corrijo, não uma, mas quatro salamandras, distribuídas igualmente pelo espaço, reparo nas chaminés em inox já queimadas pelo uso.
Mesas redondas, pé de galo em alumínio e tampo em contraplacado, folha desenrolada, raiz de qualquer árvore, sou capaz de afirmar. Junto ao mar a aragem ainda corre forte, por isso o abrigo da caixilharia de madeira e vidro ainda é um conforto que não se dispensa.
Do lado de fora, um varandim contínuo, com mesas e cadeiras de encontro a uma guarda de aspecto náutico, corrimão em madeira e protecções em corda grossa. Uma pérgula executada em ripas de madeira protege com sombra o interior.
Lá em baixo, sobre o rochedo, brinca um dálmata ainda jovem.
O Inverno, que acabou, fez os seus estragos e o carpinteiro procura as tábuas soltas, passo atrás e passo à frente, numa dança cuja coreografia me parece familiar. Volta com martelo e pregos, meia dúzia de pancadas, um pouco de ruído que se sobrepõe á musica ambiente. Vou continuando a ouvir, com intervalos, outras pancadas, cada vez mais graves e distantes.
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Escrevi este texto há cerca de dois meses, no caderninho que anda sempre na minha carteira. Hoje estive a passa-lo para o computador e lembrei-me de vos lançar um desafio.
Conseguem, os que conhecem o Porto, identificar o local que eu estou a descrever?
Trabalhar as ideias lentamente, como o oleiro que dá forma ao barro, acentuando uns aspectos, esbatendo outros, fazê-las rodar entre os dedos e quando chegar ao fim, se o resultado não me satisfizer, começar de novo.
…
Trabalhar uma ideia lentamente como o oleiro que molda o barro, fazendo nascer um objecto da quantidade amorfa de material.
…
Trabalhar o barro como um escritor que pega numa ideia e lhe dá forma, lentamente, linha após linha, imagem após imagem, relendo, corrigindo palavras e pontuação, e chegando ao fim, se não me agradar, amarrotar a folha e começar de novo.
…
Trabalhar ideias como barro, lentamente dando-lhe forma, definindo o objecto imaginado.
…
Trabalhar as ideias lentamente, como o oleiro trabalha o barro, fazendo-o rodar longamente entre as mãos, começando por definir uma imagem geral que sucessivamente se vai aperfeiçoando, enchendo de pormenores e decorações, e no fim, se ainda não me agradar começar de novo.
…
Trabalhar as ideias lentamente, como o oleiro trabalha o barro, primeiro definindo a estrutura geral e depois pormenorizando e caracterizando.
…
Trabalhar as ideias com cuidado, como o oleiro molda o barro, dando-lhe forma lentamente, como quem esculpe e retira o que é excessivo, como quem molda e coloca a matéria no local correcto, como quem pinta e junta as cores para melhor mostrar as imagens, como quem pensa, e escreve mentalmente, recuando sempre que necessário, reescrevendo o já pensado, trabalhar as ideias com carinho ...
De tanto viver na cidade tenho tendência a esquecer coisas belas que aqui perdem a sua força, o seu encanto, como a luz da Lua que ilumina a natureza, sem qualquer auxílio eléctrico, hoje como há milhares de anos.
A intensidade dessa luz, esse brilho leitoso, perde-se completamente na cidade onde a iluminação artificial compete avidamente pelo estrelato.
Vi uma imagem num filme e pensei, há quanto tempo não ando eu, assim pela noite, iluminada só pela luz da lua e das estrelas?
…
O concurso do Zé António fez-me recordar este meu texto.
Foi um post do Zé António que me fez recordar este outro texto, vindo do outro lado do Atlântico. Em comum, a evidência que as palavras dos outros nos conseguem ensinar a ver, a pensar, a sentir, a agir e quem sabe a viver. Ás vezes os nossos sentidos precisam de ser despertados, porque pelo hábito ficam embotados e deixam de apreciar o que os envolve.
A oferta de um olhar diferente, traduzido em palavras ou em imagens, consegue pintar de novas cores o que nos envolve, consegue muitas vezes devolver confianças e sonhos.
“O dono de um pequeno comércio, amigo do grande poeta Olavo Bilac, abordou-o na rua e disse:
- Sr. Bilac, estou precisando vender o meu sítio que o senhor tão bem conhece. Será que o senhor poderia redigir um anúncio para o jornal?
Olavo Bilac apanhou o papel e escreveu:
- Vende-se uma encantadora propriedade, onde cantam os pássaros ao amanhecer no extenso arvoredo cortado por cristalinas e marejantes águas de um ribeirão. A casa banhada pelo sol nascente oferece sombra tranquila das tardes na varanda.
Meses depois topa o poeta com o homem pergunta-lhe se havia vendido o sítio.
- Nem pensei nisso, disse o homem. Quando li o anúncio é que percebi a maravilha que tinha.
Ás vezes não descobrimos as coisas que temos connosco e vamos longe atrás de miragens de falso tesouro. Valorize o que você tem, os amigos que estão perto de você, o emprego que Deus lhe deu, o conhecimento que você adquiriu, a sua saúde, o sorriso de seus pais, esses são os verdadeiros tesouros!”
O molhe marca uma linha horizontal escura pontuada no extremo pelo farol em granito com elementos em madeira e metálicos pintados de vermelho vivo. No céu cinzento, as nuvens quase uniformes deixam duas linhas, também horizontais, mais claras, não chega a ser céu, não chega a ser sol, apenas a diminuição da espessura que permite uma diferente tonalidade.
Em baixo o mar está dinâmico, ondulação média que se desfaz de encontro ao molhe ou no pequeno areal que serve de praia. Um perfil de gaivota em voo recorta-se sobre o branco de uma onda, mesmo no ponto em que esta toca o molhe.
É uma composição em tons de cinza azulado em que a única nota de cor está no pequeno farol.
O barco regressa da pesca, as cores esbatidas e as marcas de ferrugem mostram a sua idade. Vem carregado porque, qual cometa, traz na cauda um bando de gaivotas ansiando por comida fácil. Não tem um porte altivo, antes pelo contrário, parece afundar-se nas águas do rio, escondendo-se ou aconchegando-se na ondulação que provoca.
Outro grupo de gaivotas acompanha o borbulhar branco de uma crista de onda, daquelas que se desfazem em pequenas gotas deixando uma névoa localizada.
Ao longe, a linha de horizonte aparece difusa, efeito da névoa e da falta de luz do dia.
Fotografias tiradas pelo olhar que se entretém a observar a paisagem, olhar que descansa na agitação constante da natureza. Uma das vantagens destas fotografias que o olhar tira e a mente recorda é que na mesma imagem se conjugam elementos que estão desfasados no espaço e no tempo.
"A idade não protege contra o amor.
Mas o amor, em medida certa, protege contra a idade"
Jeanne Moreau - actriz
Recebi esta frase no meio de outras num pps que circula pela net.
Não posso deixar de concordar.
O amor, a felicidade, a paixão, o viver com intensidade, o fazer o que se gosta, a companhia dos amigos, uma boa conversa, as coisas lindas que se apreciam … tudo isso são poções mágicas anti-envelhecimento.
E mesmo quando as rugas desenham já sulcos no rosto, a alma continua lisa e radiosa como a pele de uma criança, o sorriso continua franco e envolvente, os olhos com um brilho vivo.
Obrigada a todos pela força, conselhos, simpatia e ajuda.
O braço de ferro continua segunda-feira, prometo dar notícia da evolução.
Hoje … foi dia de deixar a máquina pensar que eu tinha desistido, e de eu colocar a minha cabeça em outros afazeres.
Ao final do dia de trabalho a máquina ainda vencia o homem, neste caso, a mulher.
O bluff do “Format C:” não funcionou e a máquina riu-se na minha cara e disse-me:
“Então tu não sabes que o meu sistema operativo está no disco D?
E não te lembras como é que isto começou?
Contigo limpares com esfregona e detergente o disco C, não deixando nem vestígios de alguns ficheirinhos que me eram queridos.
A vingança é um prato que se serve frio … e eu tenho tempo, não me importa que as minhas entranhas estejam à mostra, despudoradamente, que me ligues e desligues sem respeito, com uma tampa de esferográfica, que me xingues, ameaces. A minha memória é perene, registo tudo o que fazes, tudo o que instalas, tudo o que tentas retirar e não esqueço uma afronta … vais sofrer ainda mais um pouco.
Sofrer de amnésia, eu? Só se não conseguir evitar, só se a pancada for muito grande.”
Computador 999 – Minzinha 0,5 *
*consegui instalar a impressora de rede :)
Actualização de resultados
Computador 2 - Minzinha 0
Posição de força pode ser tomada nas próximas horas ...
Format c:
Hoje andei o dia todo num braço de ferro com o computador.
Já não é luta nova, mas hoje ele esmerou-se.
Em 15 dias já instalei o sistema operativo 3 vezes, e hoje, depois de instalar o anti-virus não é que o gajo tem a lata de me dizer que eu não tenho permissão de administrador, que não posso activar o anti-virus!!! Se quisesse um anti-vírus para enfeitar, arranjava um laçarote.
E como ele me diz que não tenho permissão de administrador (quem me manda deixar o campo das passwords em branco) nem sequer o consigo desinstalar.
Advinha-se para amanhã nova luta, que eu espero que não acabe como hoje:
Computador 1 – Minzinha 0
Recordação do tempo em que procurava casa…dedicada a uma amiga que está a passar pelo mesmo.
“Ainda não encontrei a casa ideal, e já começo a estar farta de ver casas. O que na minha profissão não devia acontecer. Ainda por cima os meus alunos estão também a desenvolver programas de habitação pelo que ainda tenho que ver as casas que eles fazem.
A questão na procura de casa, para mim, coloca-se da seguinte forma:
- Procuro casa com boa orientação solar, sala a poente, quartos com qualquer orienação, excepto Norte. - já eliminei 30% do que existe disponível no mercado.
- Quero casa com 2 lugares de garagem - lá se foram mais 20%
- Quero casa com gás canalizado, e aquecimento central - lá se vão mais 20%
- Quero casa com acabamentos decentes, isto é, madeiras sem rabiosques e
roda-tectos o mais liso possível - lá se vão outros 10%
- Quero casa dentro de certos níveis de preço - eliminei 19.9%
Fico então com 0.1% para eu encontrar a casa ideal - mas onde é que ela para?
Já encontrei um apartamento jeitoso, com bom preço, boa localização. Já
estávamos para comprar mas antes queríamos fazer um teste à garagem, pois
parecia-nos apertada.
A garagem não passou no teste! O senhor da imobiliária esmurrou o carro dele 3 vezes a tentar provar que se fazia bem a manobra...
E é neste pé que estou.
Acho que já vi mais de 50 apartamentos neste último mês.
E encontro sempre defeitos....
Acho que a minha casa ideal anda muito bem escondida.”
Epílogo
Custou, mas acabei encontrando casa, depois de quase 3 meses de procura e mais de 100 apartamentos / moradias analisados, em diversos locais, sempre entre o rio Douro e o rio Leça, que de pontes e filas estava eu já farta. Uma casa em conclusão de construção, 2 meses para a escritura, diziam os vendedores, ano e meio até à mudança, foi o que efectivamente sucedeu.
Conselhos a quem procura casa:
- Definir logo à partida se pretendem casa nova ou se pode ser usada.
- Definir qual é o tempo de espera que aceitam.
- Definir com rigor qual é o limite máximo que podem gastar, incluindo custos indirectos.
- Definir tipologias e áreas mínimas (e máximas).
- Definir características das quais não abdicam, orientação solar, por exemplo.
- Só irem ver as casas que respondam a todos os vossos requisitos. (Não vale a pena ir ver algo que à partida tem logo algo que não vos agrada, só vão ficar maçados, moídos, vão perdendo a capacidade de discernimento e vão-se tornar presa fácil para compras menos aconselháveis).
- Depois de encontrada a casa “dos vossos sonhos” antes de assinar qualquer papel, exigir prova da existência de licença de habitabilidade (foi aqui que eu errei).
- Se comprarem em construção, estarem cientes que o tempo apontado poderá não ser cumprido, pelo que o melhor será estabelecer prazos e penalidades de atraso no contrato promessa. Nunca deixem nada só “de boca”, não é válido em tribunal.
E já agora, se tiverem mais conselhos, por favor deixem nos comentários. Por mim, não devem ser usados tão cedo, já tive a minha dose por alguns anos.
Ontem fiquei com um “dejá-vue” engasgado.
O problema dos “dejá-vue” que não nos agradam é que são extremamente difíceis de mastigar e engolir, porque já sabemos exactamente a que sabem e temos ainda memória fresca da forma áspera como atravessam a garganta parecendo querer levar a nossa pele junta com ele, queimando tudo à passagem. Tentamos assim esquivarmo-nos à sua ingestão, o que é quase impossível, porque um “dejá-vue” não se esfuma, não se derrete, fica ali, com cheiros e gostos bem presentes.
Mas existem também “dejá-vue” doces e deliciosos, nem todos são desagradáveis.
Sérgio Godinho canta com Caetano Veloso e eu escuto, deliciada, o CD. Não é a revelação, que o CD já tocou vezes sem fim no leitor do carro. É um sentido de quem retorna a locais conhecidos depois de andar longe, quiçá perdido. O que nos provoca o sorriso é o retorno, é o já lá ter estado e voltar. Gosto destas viagens que me levam de volta a partes de mim que vão ficando para trás à medida que eu avanço na vida. Não me consigo levar integralmente vida fora. Como cobra que muda periodicamente a pele, também eu vou deixando partes de mim imutáveis na memória, na minha memória, mas praticamente imperceptíveis para os outros. E a visita a esses “Eu” que em tempos fui, mas que tive que abandonar para poder prosseguir, ou que acabaram esquecidos no meio de outras coisas que se tornaram importantes, urgentes, e que também elas passaram não deixando memória, essas visitas são momentos que me tocam, são dádivas trazidas por músicas, odores ou olhares. Ás vezes as saudades são fortes e irracionais porque já nem sei do que sinto falta, já não sei que memórias as músicas invocam, não identifico situações nem locais, apenas o sentido do retorno e do reencontro com pequenas coisas que me davam prazer.
A propósito deste post no Vivendo a Vida .
Eu não tenho certezas sobre muitas coisas, Deus é uma delas.
Se por um lado não sou religiosa, e busco na ciência a explicação racional para os fenómenos observados, por outro lado não excluo a existência de uma entidade que agregue tudo. Se é uma entidade pré-existente e que ditou as regras que levaram à formação do nosso universo, se é um ser que resultou do nascimento do universo, não sei.
Só sei que é a existência dessas regras que nos permite existir e evoluir. Não criamos nada para o qual não estejam já definidas as regras que lhe dão suporte. Não existem invenções, apenas descobertas. As leis físicas que regem o universo são o que nos permite, por exemplo, comunicar à distância, transmitir imagens, ter equipamentos eléctricos em casa. Nós simplesmente aprendemos a fazer uso das potencialidades que este universo encerra. Não conseguiríamos inventar nada se à partida não estivessem definidas as regras, ou leis, que lhe darão suporte.
E é esse facto que nos permite lançar mensagens para o espaço, tentando comunicar com outras formas de vida, esperando que os mesmos possam descodificar o sinal enviado. As leis físicas são as mesmas por isso é unicamente uma questão de tempo e evolução tecnológica.
Se é Deus responsável pelo facto, ou se esse facto é a prova da existência de Deus, não sei.
(7-5-2004 – 9:00)
Marginal do Porto, junto ao parque da cidade, o “vassourinhas” dá voltas e voltas tentando limpar os vestígios de uma madrugada de Queima. Dois lixeiros munidos de pistolas de ar empurram para a rua o lixo acumulado no passeio. Mesmo os caixotes do lixo são despejados para a rua, para que o veículo de limpeza aspire copos de plástico e restos de embalagens.
Nas ruas secundárias de Matosinhos – Sul ainda se encontram carros estacionados num improvisado e hipotético separador central, pelos passeios e junto ao mar ainda permanecem jovens envoltos em mantos escuros.
Ainda faltam mais duas madrugadas de insónia forçada até que a calma regresse a Matosinhos – Sul.
Tenho saudades de risos cristalinos, contagiantes, daqueles que nos libertam do peso da vida. Brincadeiras doidas, como crianças que ganham força num riso para o seguinte. Aquele riso dobrado, triplicado, replicado em sonoras gargalhadas.
Tenho saudades de tempos mais despreocupados, de tempos quentes de Verão, tardes passadas à beira-mar, livros lidos com a avidez de quem mergulha integralmente na história.
Tenho sim, também saudades de sorrisos. Tenho sim saudades de olhares sem mágoas, olhares sem tristezas lactentes.
15-3-2004
Próximo sábado mais de meia centena de bloggers vão finalmente ver-se cara a cara. Por mim falo que não conheço ninguém, nem pessoalmente nem mesmo por foto. A Jacky diz que já está a stressar com a ansiedade.
Eu tenho algumas expectativas, claro, curiosidade em ligar textos e rostos. Nunca fui a um encontro destes, de bloggers, ou de frequentadores de canais do irc, por isso não sei como irei reagir. Tenho consciência que somos demais para conseguir conversar com todos, necessariamente se irão formar grupos.
Sei que vai ser sempre um choque porque vamos confrontar uma imagem de alguém com o que ela efectivamente é. E de certeza que quer essa imagem tenha resultado de descrições feitas quer da nossa própria imaginação dificilmente irá coincidir com a realidade.

“Que dizer? Que vestir? Como nos vamos apresentar?” continua a Jacky.
Acho que a última dúvida é importante. Não só como nos vamos apresentar mas como vamos ligar a pessoa que temos à frente ao blog que costumamos consultar no nosso computador. Já pensaram em fazer um daqueles crachás de lapela com o layout do blog para uma mais directa identificação? Deixo aqui o meu, directo e pouco imaginativo, que o tempo tem sido curto.
E o vosso como seria?

Mas podemos sempre seguir a sugestão do Fernando e permanecermos incógnitos, cada um arranja um nome, por exemplo de uma personagem de B.D. e usa esse nome.
O que acham?
(Eu cá fico com o Garfield ou com a Pink Panther)
(Poxa não devia ter dito, agora vou ter de arranjar outro).
PAPOILA (de 6/8 a 28/8 )
"Esta flor de cores brilhantes é a fonte do extracto usado para preparar o ópio. As pessoas nascidas sob o signo da Papoila gostam de viver ao ritmo da aventura. São optimistas, alegres e fazem questão de disseminar energia positiva e alto astral por onde quer que passem. Estão sempre em busca de novidades e não se lamentam quando algo dá errado, pois acreditam na importância de aprender com as experiências. Buscam avidamente novos conhecimentos e colocam paixão em tudo o que fazem. Tendem a exercer verdadeiro fascínio sobre o sexo oposto, mas podem se comportar de um jeito bastante instável nos relacionamentos amorosos." in Linguagem das Flores

Agrada-me ser uma papoila ...
Existem dias em que a inspiração não chega. Hoje é um desses dias.
Apesar do mar que se estende à minha frente, da sua ondulação ligeira e brilho vivo, apesar da espuma branca que se forma quase sob os meus pés, apesar do farol que se recorta contra o céu, sobre o molhe, apesar das gaivotas que passam lentamente à frente dos meus olhos, perscrutando o mar em busca de peixe, apesar do sol que brinda o mar, apesar de tudo não consigo escrever. Já ensaiei inícios vários, abandonados algumas linhas depois não satisfeita com o resultado. O erro deve ser certamente meu que quero contar algo que apenas se sente. Uma descrição é pálida, falta-lhe o calor do sol que me chega, reflectido pela ondulação do mar, falta o encanto da música, faltam todos os pormenores em que eu me prendo mas que contados perdem a graça.
A ferrugem na salamandra não é sinal de degradação, mas a marca do tempo e da proximidade do mar. Gosto da ferrugem, gosto da textura da ferrugem em cima do metal, do modo como lhe vai alterando a forma. A ferrugem nos metais é um pouco como as rugas nos humanos, existem porque estamos expostos, porque sorrimos, porque choramos, porque sentimos, porque vivemos. O ferro sem marcas ainda não viveu, ainda não cumpriu os seus desígnios.
Não consigo transmitir a beleza da corda escurecida pelo uso quando o sol desenha com sombras os fios que se entrançam.
Existem dias em que a inspiração tarda em chegar …
Para mim, este é um dos arruamentos mais bonitos do Porto.
Gosto do desenho da via, do percurso que se faz, curvando num sentido e depois no outro, mostrando sempre vistas diferentes.
Gosto muito das árvores, e das cores que adquirem nas diversas estações. Gosto da forma como filtram a luz do sol e a luz do dia, criando uma atmosfera diferente.
Hoje passei por lá e as arvores estavam com esta cor.
E vocês! Qual é a vossa rua / avenida / alameda / viela …. preferida?



Quando precisarem de mapas, este site tem mapas de todo o mundo.
A praia lançava-me um convite, à medida que eu contornava a rotunda do Castelo do Queijo, e depois seguia, descrevendo a curva da marginal de Matosinhos e o cheiro a maresia invadia o carro.
Abri mais as janelas, o ar exterior não conseguia competir em frescura com o ar condicionado, mas o odor forte marítimo compensava o calor.
O dia fora extraordinariamente quente, o sol brilhava com uma força pouco usual desde manhã cedo. Uma centena de metros de distância do mar e a temperatura subia logo vários graus. Na praça atravessar o espaço que separava umas arcadas das outras, parecia ser atravessar o deserto, o ar seco e o sol queimando a pele.
Debaixo das arcadas, por comparação até parecia fresco... mas era uma sensação rapidamente ultrapassada mal a pele se habituava de novo à temperatura e uma fina camada de suor a recobria outra vez.
Estava decidida a aceitar o convite lançado pela beira-mar, e estender-me no areal aproveitando os últimos raios de sol. Não esperava que esses últimos brilhos, já quebrados, conseguissem alterar a tez da minha pele, branca ainda, mas esperava que pelo menos me conseguisse proporcionar aquela sensação de ligeira ardência de pele em fim de dia de praia. Sensação que, inexplicavelmente, não consegue ser atingida se em vez de me estender no areal, preferir a calma da varanda a três quarteirões do mar. Aquela sensibilidade que transforma o calor de obsessivo em reconfortante, envolvente, acariciante. Aquela sensação de arrepio que mimetiza outros momentos.
No areal, o sol já havia perdido parte da sua força, uma ligeira neblina filtrava a luz, e uma aragem mantinha a pele fresca. Cruzei-me com varias pessoas que terminavam o seu dia de praia, seis da tarde, exactamente no momento em que estendi a tolha na areia e olhei o telemóvel, meu único relógio desde que acabei conquistada, ou vencida, ou rendida à comodidade de estar sempre contactável. O relógio de pulso foi abandonado no verão, como todos os anos para não marcar o braço com uma mancha clara, mas também pela sensação de liberdade que isso proporciona, não saber que horas são e não me importar com isso. Foi abandonado e não mais retomado.
Deitada iniciei a leitura de um livro, o tipo de escrita não me cativava, frases curtas, ambiguidade. Algumas imagens bonitas, sim, mas uma história que se conta muito pouco, que se deixa perceber, que se deixa imaginar mas que não corre fluida como um rio, como a água que foge da nascente, como eu gosto.
Gosto de ler e gosto que as palavras me conduzam ao longo da história como quem faz um passeio, com ritmos diferentes, vendo cidades diferentes, mas num movimento que evolui e que não se imobiliza abruptamente.
Não gosto da condução nervosa de quem pára bruscamente e acelera com a mesma rapidez, não gosto de sentir o solavanco, gosto do iniciar suave, de uma paragem que se anuncia.
O texto não me agradou, parecia a escrita nervosa de quem está parado num semáforo esperando impacientemente que o sinal fique verde.
Se tivesse o ritmo da poesia, as frases curtas, as paragens abruptas seriam bem vindas, como quando fico brincando com o pedal do travão ao som da música, tentando, pelas luzes vermelhas intermitentes, passar a música que escuto a quem mais compartilha a fila comigo.
Abandonei a leitura no final do segundo capitulo. Não abandonei, interrompi, porque apesar do estilo de escrita não ser aquele com que mais me identifico, não quero colocar palas nos olhos e fechar-me para outras formas de sentir a nossa língua.
O sol já não tinha praticamente força para se sobrepor à brisa que sopra em fim de tarde e a pele vai sentindo, alternadamente, o arrepio de frio e a sudação do calor.
Opto por dormir um pouco, fechar os olhos, pensar, reflectir e esperar que a mente se desligue um pouco da realidade, dos sons que a envolvem, os gritos dos miúdos que jogam à bola, os comentários do grupo que joga às cartas. Se abstraia mesmo do som do mar, e sinta unicamente um zumbido sem sentido, sem significado mas que aconchega o meu cérebro.
(5-8-2003)
Mais vícios, hábitos e prazeres descritos passo a passo. E como quem conta um conto acrescenta um ponto, mais uma palavra a ser lançada para a reflexão; Fotografia.
Tirar fotografias é uma prazer desde há muito tempo, desde criança e da altura em que pela primeira vez me colocaram uma máquina nas mãos. A máquina fotográfica da família passou a ser a minha máquina, dela me apropriei sem pedido de autorização mas também sem contestação. Ainda conservo essa máquina, embora um pouco maltratada face a uma queda em que ela me amparou o embate com o solo.
Hoje, com a facilidade e a economia das fotografias digitais, acabo a fazer muitas mais, a experimentar muito mais, se não gostar, se ficar mal, é só apagar. Mas continuo a gostar de uma máquina não digital, em que eu controlo velocidade, abertura, brinco com a profundidade de campo, em que imagino o resultado mas tenho de esperar pela confirmação. O imediatismo da fotografia digital também lhe retira algum encanto.
O Alex fala dos seus Vícios, Hábitos e Prazeres. E lançou mais um tema a juntar aos restantes, as viagens.
Então falemos de Viagens.
Adoro viajar, conhecer outros locais, comungar de outros tipos de vida. Gosto particularmente quando a viagem se afasta do que são os guias turísticos e se embrenha em rotas menos trilhadas, em olhares menos espantosos mas nem por isso menos belos. Gostava de dizer que as viagens são um hábito de todos os dias, mas não são. São um hábito de férias grandes em que me transformo em esponja tentando absorver tudo aquilo com que entro em contacto.
De uma conversa com um amigo surgiu uma lista de palavras, coisas que geralmente associamos, mesmo que em brincadeira, a vícios. Não sou particularmente atreita a vícios, mais a hábitos.
Internet:
Hábito absorvente. Vício, muito provavelmente. Vou fazendo desintoxicações cíclicas nas férias grandes! Até já me disseram que o meu local preferido para sair à noite é o portátil.
Álcool:
Muito pouco, em festas, um jantar mais formal ... e umas cervejinhas nas férias... ou quando me sinto ... de férias. Muito pouca resistência, pareço o Mercúrio, com asas nos pés.
Tabaco:
Dei uma passa uma vez, chegou ... não era mau, mas também não valia a pena pelas consequências.
Drogas:
Nunca... o meu corpo fabrica tudo o que preciso.
Café:
Sim, vários por dia ... com adoçante (mas não por questões de engordar, é mesmo porque um comprimido é a dose certa)!
Comida:
Pode ser um prazer, um hábito é de certeza.
Sexo:
Sim, por prazer, nunca por hábito. Mas vício, também não é.
Cinema:
Gosto, mas infelizmente não é um hábito.
Música:
Sempre, mesmo no silêncio existem melodias que ecoam na minha cabeça. Vício, talvez... como o ar que respiro.
Livros:
Podem ser viciantes, já me perdi até de madrugada com livros. Foram um hábito forte, desde miúda. Nos últimos anos, o hábito tem perdido a força, resultado do ritmo de vida e de outras coisas com que facilmente me perco.
(Ultima actualização)
Blogs:
Ainda nem um vício nem um hábito, estou ainda na fase da paixão. Mas acho que são completamente viciantes, de um passa-se a outro, desse ao seguinte e assim, quando damos conta, se passou o serão.
E quais são os vossos vícios? Ou os vossos hábitos?