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abril 30, 2005
Questões de género
Haverá uma escrita feminina e uma escrita masculina?
E essa diferenciação a nível da escrita, a existir, será unicamente a nível dos conteúdos, ou também a nível formal?
O tema tem entusiasmado alguns estudiosos que fazem o que é suposto, estudam! E às vezes chegam a algumas conclusões, mas nem sempre. Não sendo eu uma estudiosa, não tenho opinião validada por inquéritos, análises, trabalhos de campo, mas tenho, quão mesmo, opiniões e sentires.
A minha perspectiva igualitária diz-me que não deve existir uma escrita feminina e uma masculina, que a existir a distinção, a mesma pode ser um motivo de descriminação ou valorização diferenciada. Que devem existir escritas de pessoas, e que cada uma delas se coloca de determinada forma nas palavras, forma essa que não será imutável ao longo do tempo, mas que muitas vezes será perfeitamente reconhecível.
Mas limpando a resistência inicial à diferenciação, sinto em muitos casos diferenças nos temas escolhidos, na forma como são tratados, muitas vezes até nas palavras usadas, nas imagens invocadas.
Limpando a resistência inicial, que é fruto maior do mundo em que vivemos, da necessidade de defesa, da reacção por antecipação, orgulho-me de me colocar a mim, mulher, naquilo que escrevo, e nesse sentido, considerar a minha escrita profundamente feminina. Profundamente feminina mas nem assim diferente da escrita profundamente masculina de homens que conheço que se colocam igual e inteiramente naquilo que fazem.
Acho que o problema da definição está essencialmente na carga que damos aos adjectivos de masculino e feminino, passando da identificação de feito por, para um conjunto de características, não explícitas e universais, mas implícitas, internas a grupos, e muitas vezes estereotipadas, que nos deixa relutantes no uso e na aceitação do qualificativo.
Este mundo dos blogs tem-me dado oportunidade de ir pensando sobre este assunto, na forma como eu escrevo, na forma como outros escrevem, nas assumpções que tomo quando leio artigo e coloco um sexo no seu autor que depois se revela não o correcto.
Quantas vezes já me abstenho desses processos divinatórios e deixo em suspenso tal decisão até encontrar variações explícitas do género das palavras que não deixem margem para dúvida. Outras vezes até já me questiono sobre a importância de estabelecer um sexo, uma idade, um contexto profissional e cultural para o autor do que lemos.
Mas os estudiosos estudaram, dissecaram a escrita de homens e mulheres, contaram artigos, adjectivos, número de palavras por frase, frases por parágrafo, enfim, parametrizaram a escrita de forma a estabelecer conclusões. E nessa dissecação formal da escrita, conseguiram encontrar divergências, percentualmente definidas, que apontam para a diferença.
Não querendo questionar a validade do estudo (que cito de memória) coloco ainda a hipótese de essas diferenças assim contabilizadas resultarem mais de um contexto cultural e social do que de uma estrutura cerebral efectivamente diferenciada. (Não que negue a sua existência, mas como todos sabemos o próprio cérebro se altera pela estimulação de que é alvo.) Porque nós todos somos moldados pelo banho cultural onde somos mantidos desde o berço, porque os nossos estudos, a nossa forma de aprender e ensinar, as conversas com os amigos, as leituras, as viagens, todas essas experiências fazem de nós aquilo que somos.
Por exemplo, se eu fizesse agora um inquérito tentando estabelecer a preferência de mulheres e homens pelo cor-de-rosa, acham que a resposta (diferente para os sexos, julgo eu, mas eventualmente sujeita a surpresa) decorria de uma estrutura cerebral diferenciada ou de uma questão de cultura, de educação, enfim de estereótipos?
As questões de género fascinam-me, quer sejam na escrita quer noutros campos, perceber o que é inato e o que é apreendido, o somos efectivamente e o que fazem e fazemos de nós, a formação e a formatação, discorrer sobre os diálogos tantas vezes mudos entre os sexos, a sedução, encantos, partilhas…
Utopicamente desejaria que quase nada fosse inato, porque assim teríamos a liberdade maior de poder efectivamente construir a nossa vida, de nos moldarmos, de poder assumir os desafios e a eles responder em função do nosso esforço. Em verdade assim não é, existem possibilidades cortadas desde a origem, limites que para alguns serão sempre quimeras inatingíveis, restrições físicas que cortam as asas a mais altos voos. Mas ainda assim a surpresa na ultrapassagem de limitações pode existir, como a que tive com o homem que vi há dias na Rua do Campo Alegre, na zona de pendente mais acentuada, pedalando com esforço na subida. Zona difícil, mais difícil ainda, quando na bicicleta carrega vários objectos, entre eles a muleta com que ampara a falta de uma perna. Senti-me tão pequena na minha vida nessa altura…
[Originalmente publicado aqui] [Comentários iniciais]
Publicado por Cainha às 11:43 PM | Comentários (0) |
Apelo

Descoberto via 100nada
"(...) Nelson Mendes tem 32 anos e é tetraplégico desde os 19. Publicou um livro, realizou diversas exposições das suas pinturas, foi entrevistado por alguns jornais, esteve em dois ou três programas de televisão.(...)Acabámos de criar e alojar o blog do Nélson e tentaremos, por todos os meios, divulgar a situação. A ideia é contribuir para tornar o mais possível pública uma situação concreta, de um ser humano em concreto, com vista à resolução de apenas três coisas que poderiam melhorar significativamente a sua qualidade de vida:
1. Que os vizinhos do prédio onde vive consintam em que seja construída uma rampa, ou outro meio adequado, para que ele possa sair de casa.
2. Que ele tenha acesso permanente e gratuito, ou a preços reduzidos, à Internet.
3. Que lhe sejam prestados cuidados e assistência domiciliária gratuitas.(...)"
Se não puderem ajudar de outra forma, pelo menos divulguem, pode ser que outros o possam fazer.
Publicado por maria às 04:06 PM | Comentários (3) |
Sábado

Publicado por maria às 09:25 AM | Comentários (1) |
Masculino vs Feminino
Na sequência deste post, o Nikonman fez-me a sugestão de lançar a outros blogs o mesmo desafio, de envergar outras roupagem, calçar os sapatos do sexo oposto e escrever. E eu comecei a fazer um texto à volta da existência ou não de diferenças entre a escrita dos dois sexos (ou mais) pensando colocá-lo aqui, como introdução ao desafio a lançar. Decidi entretanto doutra forma, e podem ler o texto no Café Expresso Tadechuva que acaba de sair.
Os desafios, esses, lanço-os aqui, e são para os seguintes bloggers, esperando que os mesmos os aceitem, passando-o a outros, tornando-se isto numa efectiva corrente de escritas.
TheOldMan, Gotinha, Encandescente, Roxy e finalmente ;) São Rosas.
Podem ler algumas das respostas ao mesmo desafio em vários blogs, deixo aqui links dos que me apercebi, peço desculpa se existirem mais não indicados aqui.
Escrita no Masculino feita por mulheres
Desejo - Jacky ; Yang - Pandora ; Dançando o tango - Mad
Escrita no Feminino feita por homens
No feminino – Yardbird ; No feminino - Nikonman ; Mulher a dias – Orca ; Número perfeito - Fernando
Publicado por maria às 12:32 AM | Comentários (2) |
abril 29, 2005
Sexta

Publicado por maria às 09:22 AM |
abril 28, 2005
Óleo de tangerina
(post em resposta ao desafio do Nikonman)
O dia estava límpido, um sol forte reflectia-se no espelho de água e fazia texturas no tecto. Ondulações sensuais, variações de brilho e de tom. Às vezes um arco-íris tomava forma para logo se dissolver. Olhando o tecto parecia que estava olhando através de uma cortina diáfana, uma realidade que se revelava lentamente.
Pela enorme caixilharia de vidro via o mar revolto ao longe, via a agitação das ondas e das árvores que contrastava com o silêncio da sala, com a minha calma.
Estava perdido nestas observações quando reparei que ela já tinha chegado para a massagem, já se tinha deitado de bruços e aguardava, com uma toalha de seda cobrindo as nádegas.
Hoje seria diferente, queria que ela sentisse a diferença, que não fosse mais um dos hábitos que se adquirem, e que só valorizamos se lhe sentimos a falta.
Teria que quebrar a rotina, a rotina do corpo que conhecia já de cor, a rotina dos movimentos já esperados. Hoje teria que ser diferente.
Pedi-lhe que se virasse de frente. Ela olhou-me com estranheza mas acedeu.
Peguei num frasco com óleos de frutos e espalhei nas minhas mãos. Um cheiro a citrinos invadiu a sala. Peguei-lhe nos dedos dos pés e comecei a massajá-los suavemente, um a um.
Na minha posição via o recorte dos dedos contra o fundo da toalha de seda que lhe cobria parte do corpo. O azul forte contrastava com o moreno da pele. Imaginei os dedos dela como cordilheiras de montanhas que se recortavam num céu escuro de tempestade, escuro e ao mesmo tempo com um brilho intenso de um sol que lutava para não ser vencido.
Massajei-lhe as plantas dos pés em movimentos lineares sempre retomados. Sentia a tensão desaparecer, deslassar. Peguei num dos pés entre as mãos, e massajei-o completamente, seguindo para o tornozelo.
Reparei que a pulseira que me habituara a encontrar havia desaparecido. Talvez a tivesse perdido, pensei. Sempre adorara a forma como a pulseira descaía sobre o tornozelo, a forma como o pé saía valorizado, a consciência de sensualidade que a mesma significava.
Peguei no outro pé, e massajei-o também. Quando cheguei ao tornozelo reparei numa pequena tatuagem, feita em tons de castanho, quase se confundindo com o moreno da pele. O motivo era abstracto, floral talvez, mas parecia que sempre ali tinha estado tal era o modo como assentava. Muito leve, como uma textura, como uma marca de nascença.
Pensei em como gostaria de poder massajá-la de uma forma mais sensual, como gostaria de usar mais do que as mãos para acariciar aquele corpo.
As minhas mãos continuavam a trabalhar, independentemente dos pensamentos que me assaltavam. Às vezes tinha medo que qualquer trejeito no meu rosto deixasse transparecer que pensava nela de outros modos. Desviei a atenção dos pés e percorri com o olhar o corpo dela, as pernas nuas, a toalha que tentava ocultar, mas que ainda tornava mais excitantes as formas que se revelavam, os contornos que se tornavam perceptíveis.
Quando cheguei ao rosto reparei que ela estava de pálpebras cerradas, e de boca entreaberta. Senti que ela estava completamente abandonada nas minhas mãos. Os olhos fechados deixaram-me descansado, ela não me observava, podia continuar com as minhas fantasias. Imaginei que podia usar os lábios, que os humedeceria e que percorreria a perna, do tornozelo ao joelho, num beijo contínuo.
Ela estremeceu e eu assustei-me, ter-me-ei deixado levar pela minha fantasia?
Mas não comentou nada, e eu também não, que poderia dizer? Que enquanto, profissionalmente, as minhas mãos se ocupavam do seu corpo, a minha mente se deixava levar e eu era amante fervoroso, que sorvia avidamente cada frémito, cada reacção.
Continuei percorrendo as pernas, numa massagem rápida, ritmada. Ora uma coxa, ora outra e por fim as duas ao mesmo tempo, em movimentos desfasados.
Reparei que ela entreabriu mais os lábios, e poderia jurar que tinha deixado escapar um suspiro.
Continuei cada vez mais rapidamente, imaginava que não eram as minhas mãos mas as minhas coxas que esfregavam as dela. Imaginava o meu corpo todo massajando o dela, comprimindo o dela. As mãos que agarravam os seios, a lábios que se enterravam na curva do pescoço.
Ela estremeceu e retesou-se, senti que corava, que suava. As coxas apertaram-se prendendo as minhas mãos. Reparei que as mãos agarravam com força a marquesa, as unhas quase perfurando a pele.
Sentia arqueando-se, elevando as nádegas. Podia jurar que ela se tinha vindo, ali, à minha frente, literalmente nas minhas mãos.
Estava profundamente excitado, tinha medo que o volume se notasse debaixo da roupa, mas ela permanecia de olhos fechados. Afastei levemente a toalha que lhe cobria as ancas e comecei a massajar o ventre. Estava agora ao lado da marquesa, ao nível das mãos dela.
Senti que roçava ligeiramente o meu corpo nas mãos dela, que permaneciam agarradas à marquesa. Tentei afastar-me mas a massagem aproximava-me novamente. Reparei que ela acompanhava o meu movimento com as costas da mão, sentindo-me. Descuidadamente encostei-me mais, para que ela me sentisse.
Não reagiu. Deixou-se estar encostada.
Cada vez mais eu me sentia excitado, uma vontade incrível de fazer amor com ela.
Senti que ela afastava a mão. Pensei que finalmente se tivesse apercebido do meu estado e que o pretendesse ignorar. Continuei com a massagem, agora mais lentamente, com mais cuidado.
Mas ela voltou a palma da mão para cima, meteu-ma no meio das pernas e agarrou-me firmemente. Abriu os olhos lentamente e fitou-me longamente, como se avaliasse as minhas reacções.
Disse por fim: "Quero-te … agora … não consigo resistir mais."
Despiu-me, a minha erecção era por demais evidente.
Aos pés da marquesa, puxei-a pelas ancas, as pernas abrindo-se. A toalha azul tentando esconder, mas facilmente escorregando para o chão. Entrei profundamente nela. Os pés nos meus ombros traziam-me o odor dos citrinos.
Comecei uma dança louca, conduzida furiosamente, mãos nas ancas dela. Os seios movendo-se ao mesmo ritmo, os cabelos louros em desalinho.
Viemo-nos violentamente, com as pernas dela enlaçando a minha cintura, as minhas mãos enterradas nas nádegas dela.
Lá fora, o céu continuava límpido e o mar agitado.
Publicado por maria às 11:10 PM | Comentários (4) |
Quinta

Publicado por maria às 09:21 AM | Comentários (2) |
abril 27, 2005
Quarta

Publicado por maria às 09:19 AM |
abril 26, 2005
Terça

Publicado por maria às 09:19 AM | Comentários (3) |
abril 25, 2005
Segunda

Publicado por maria às 09:18 AM | Comentários (2) |
25 de Abril
(De como devemos ser ecológicos e reciclar tudo, incluindo os posts, ou dos inconvenientes/vantagens de ter blogs com mais de um ano de existência.)
Publicado por maria às 12:00 AM | Comentários (4) |
abril 23, 2005
25 - IIII - 74
O meu lado preguiçoso e ocupado dizia-me;
“Pega no texto que escreveste no ano passado e colocaste no extinto blogsforana!.”
O meu lado consciencioso e marrão contrapunha;
“Não acho isso correcto, parece que estás a fugir a uma responsabilidade.”
Voltava o lado preguiçoso, ocupado e racional a dizer;
“Mas quase tudo o que possas dizer sobre o 25 de Abril já lá colocaste, as recordações que tens são tão poucas, eras pequena ainda.”
O lado consciencioso, marrão mas sensível não aceitava o argumento e dizia:
“Existem sempre muitas formas de contar a mesma história, existem recordações que são despertadas pelo som leve e ritmado do bater no teclado do computador, pela vontade de ver umas palavras seguirem as outras, como formigas no carreiro. Existem novas formas de sentir porque um ano se passou entretanto e com ele tantas coisas se alteraram e outras que se deviam ter modificado incrivelmente continuam na mesma.”
O lado preguiçoso, ocupado, racional e prático voltava à carga;
“Já não te reflectes no escreveste nesse texto?”
O lado consciencioso, marrão, sensível e responsável nem pensava em esquivar-se à resposta.
“Ainda me revejo completamente no texto, essas recordações não se alteraram nem o tempo que passou me obrigou a vê-las com outros olhos, senti-las de outra forma. Continuam a ser as minhas recordações desse dia, dessa época ”
O lado preguiçoso, ocupado, racional, prático e teimoso apenas disse;
“Não vejo razão lógica para que não possas utilizar o texto, não vejo necessidade de repetires ideias com ligeiras correcções apenas como um ensaio, não sinto em ti a vontade de contar outras coisas, de tentar outras relações entre eventos. Usa-o, e se achas que, em consciência, não estás a responder verdadeiramente ao desafio lançado, faz uma nota prévia, informa o leitor.”
E o lado consciencioso, marrão, sensível, responsável mas transigente aceitou os argumentos, pegou em caneta e papel e preparou-se para escrever a nota prévia. E como era também o lado minucioso, lado picuinhas diria o lado prático, explicou e fundamentou as razões da escolha.
O lado preguiçoso, ocupado, racional, prático, teimoso, lógico percebeu que vencendo, não venceu, e que das razões de ambos se fez o texto que acabam de ler, e que do ser de ambos se fez também, um dia, o texto que lerão a seguir, se sobrar folgo, tempo, paciência, pachorra, condescendência, energia, gosto, vontade … que a mim já se me esgotam os qualificativos …
[Originalmente publicado aqui] [Comentários iniciais]
Publicado por Cainha às 11:41 PM | Comentários (0) |
30 (+ 1) anos
Era dia de passeio, o primeiro desde que entrara para a escola primária. O farnel estava preparado do dia anterior, numa marmita de alumínio baço e tampa vermelho vinho, bebida, laranjada colocada numa pequena garrafa vestida com um entrançado plástico vermelho e preto. A excitação era grande, demasiada para adormecer.
Nessa noite outros não dormiram, percorreram quilómetros, encomendaram-se a santos e a ideais, colocaram o destino das suas vidas nas decisões e acções tomadas, e alteraram assim também o destino de um país.
O dia amanheceu para um país diferente, mas eu não o sabia nessa altura. O dia de passeio acabou a ser dia feriado, a escola fechada, a televisão ligada o dia todo. Um vizinho de quem eu gostava como um avô, passou esse dia na sala de casa dos meus pais, sentado em frente à televisão tentando não perder nada do que estava a suceder. Ainda hoje o revejo, de samarra vestida, sentado curvado na ponta do sofá, palito sempre no canto da boca e a na cabeça a boina que lhe deu o cognome.
O Boininha, como todos o conheciam, tinha feito campanha pelo Humberto Delgado e com isso granjeado a sua quota-parte de problemas, que poderiam ter sido bem maiores não fosse ele tão arraia-miúda.
Existem imagens que ficam vincadas na memória, marcadas como a ferro quente em madeira frágil, mesmo que o tempo desgaste a madeira, ficam sempre marcas, cicatrizes do que existiu. Lembro-me de ver, na televisão, a abertura da prisão, os presos que saíam, recordo imagens que mais tarde confundi com outros locais, a porta da prisão e de uma garagem pública, para mim enorme, pareciam o mesmo sítio. Precisava de situar os acontecimentos nos locais que conhecia.
O passeio acabou a ter lugar algum tempo depois, e se nas cidades pequenas não se viam ainda diferenças, na estrada nacional e no Porto notavam-se os movimentos das tropas que despertavam a nossa curiosidade. Não tenho a certeza mas é provável que nunca antes eu tivesse visto um militar em seu uniforme.
Apesar da meia dúzia de anos que tinha na altura, comecei a perceber outras diferenças, não que o antes tivesse sido difícil para mim, mas porque o depois me concedia coisas que antes não existiam. Os comícios políticos, os autocolantes da propaganda partidária, as músicas que simbolizavam a revolução, os slogans gritados aos quatro ventos, algum vocabulário entretanto aprendido, as pessoas que falavam, trocavam ideias, outras que se encolhiam, tentando perceber se aquele sol era de pouca dura, se a repressão viria mais forte depois, se a mudança estava ali para ficar, se a mudança poderia ser ainda maior do que a que desejavam.
Auto-gestão foi uma das palavras novas que aprendi, repetida muitas vezes à medida que os empregados das têxteis da zona tomavam conta das fábricas, se organizavam em comissões e geriam a empresa por sua conta. Não sei com que resultados, era pequena demais para me aperceber de tal, mas a avaliar pela situação alguns anos depois, nenhuma delas vingou.
Muita gente vendeu, naqueles tempos que se seguiram, os seus bens, temendo as nacionalizações. Outros aproveitaram esse pânico e compraram. Lembro-me bem disso porque assim ganhamos vizinhos novos na freguesia, pessoas que vinham de fora e que se instalavam à medida que algumas das maiores casas mudavam de mãos.
A escola também foi alvo de mudanças, a separação de sexos que ainda se mantinha foi abolida, mesmo antes do final do ano lectivo. Os rapazes que costumavam espreitar por cima do muro do recreio passaram a compartilhar a nossa sala de aula e as nossas carteiras. Apenas me recordo de um, a que chamavam “ratinho”, tão pequenino era. Tinha o dobro da minha idade mas ainda não sabia ler e era efectivamente ladino como um rato. Dos outros praticamente nem me lembro, no ano lectivo seguinte mudei de freguesia e de escola, mudei de professores e de colegas, e todas essas recordações ficaram empoeiradas.
Passaram (mais de) três décadas, as recordações próprias que tenho do 25 de Abril de 74 quase nada têm a ver com a revolução, e contudo estão fortemente ligadas a ela. Muitas das recordações da minha infância perderam já as datas, perderam o tempo em que aconteceram, perderam o antes e o depois. 1974 continua mais definido que qualquer outro ano, lembro-me dos dias de sol desse Verão, dos passeios que fazia com os meus pais como se percorrêssemos outro país, lembro-me de ter começado a descobrir outras músicas que antes estavam banidas e agora tocavam livremente na rádio. Mais do que recordações dessa altura eu tenho imagens, como se a minha mente se tivesse divertido a fotografar eventos para mais tarde recordar.
[Originalmente publicado aqui] [Comentários Iniciais]
Publicado por Cainha às 11:37 PM | Comentários (0) |
Café EXPRESSO
Publicado por maria às 04:07 PM | Comentários (4) |
abril 22, 2005
Tibete

(recebida por e-mail)
Adorei esta fotografia, pela calma, pelo jogo de tonalidades e planos, pela simetria, pelo brilho mas também pelo facto de invocar outras coisas. Não parece daquelas pinturas que fazíamos quando crianças, colocando tinta numa folha e dobrando-a a meio esperando ser surpreendidos pelo resultado? Imaginem a surpresa de desdobrar a folha e encontrar tal paisagem, como se a folha fosse uma janela que permitisse espreitar outros locais, outros mundos. Porque as folhas de papel tem essa propriedade mágica de abrir portas e janelas, ensinar caminhos. Porque as folhas brancas, quer sejam as páginas de um livro ou a telas que suportam a tinta que faz o quadro, não tem dimensão fixa, não se encerram nos seus limites, são espaços amplos onde podemos colocar todo o mundo ou deixar o vazio falar por si.
Folhas de papel, telas enquadradas, ecrãs de computador, são suportes da nossa imaginação, do nosso sonho, da nossa vontade de ser e de fazer.
Adorei a fotografia ainda mais pelo que me fez pensar e sentir.
Publicado por maria às 11:24 PM | Comentários (3) |
Tradição e inovação
“(...) a tradição é a sequência contínua de todas as inovações, portanto o guia mais fiável para o futuro. A tradição é como uma seta apontando para o futuro, nunca para o passado.”
Le Corbusier – Talks with students – Princeton Architectural Press – New York1999 pag 31
Publicado por maria às 08:27 PM | Comentários (1) |
abril 21, 2005
Adivinhem ...

...quem voltou!
Publicado por maria às 12:05 AM | Comentários (5) |
abril 18, 2005
Parabéns!!!!!
Publicado por maria às 10:07 AM | Comentários (3) |
abril 17, 2005
Concurso
Descobri hoje :)
Publicado por maria às 04:32 PM | Comentários (5) |
Se...

o Café Expresso Tadechuva tivesse um anúncio em néon ...
Publicado por maria às 02:51 PM | Comentários (6) |
abril 16, 2005
Genealogia das idades
“I was once like you are now” (1)
Temos todos, assumidamente, uma relação filial com os mais velhos, com aqueles que nos antecederam, que desbravaram caminhos, coligiram conhecimentos e saberes que hoje nos permitem sermos quem somos, como somos. Somos, sem dúvida, filhos dos nossos pais biológicos mas somos também filhos, directos e indirectos, dos nossos pais culturais e sociais. Seres, cuja recordação muitas vezes nos arranca sorrisos de olhar, pelo carinho e gratidão que se mantém. Sonhos nossos que foram feitos de recordações emprestadas, sem suporte real mas palpáveis. Caminhos delineados em função de palavras escutadas ou lidas, de inspirações de exemplos externos.
“You're still young that's your fault
There's so much you have to go through” (1)
Mas essa relação de filiação não é pacífica, não é serena. No confronto das idades surge também imposição, surge revolta. Os laços existem para poderem ser atados e desatados, esticados, enrodilhados, desfeitos e refeitos. Os nossos desafios serão sempre os nossos desafios, erros devem ser cometidos também, que da experiência dos outros não podemos fazer sempre o nosso conhecimento, o nosso crescimento. Ciclos e rituais que devem ser cumpridos, metas estabelecidas e ultrapassadas. Novas metas alicerçadas em desafios, argamassadas por sonhos.
"It was said of them, in older times
That the child is the father of the man,
and, yet, in growing, know not the man, and of the man's ways.
He watches the aged ones, old and seemly wise and wonders, could he ever grow to be such as they...." (2)
Mas somos ainda filhos das crianças que outrora fomos. Somos filhos da evolução que tivemos, de todos os momentos que passamos. Relações parentais aparentemente estranhas. O adulto, refém da criança, das escolhas e decisões tomadas. O velho, filho do jovem.
Responsabilidade imensa, esta, das mais tenras idades, de construir caminho e garantir futuro.
(1) Cat Stevens – Father and son
(2) Magna Carta – Soliloguy 1

[Originalmente publicado aqui] [Comentários iniciais]
Publicado por Cainha às 11:31 PM | Comentários (0) |
Outro Sol

Publicado por maria às 09:11 PM | Comentários (2) |
Correntes de livros
"é iniciada aqui uma cadeia de literatura pela blogosfera portuguesa, vou chamar-lhe o ex-libris da tugosfera.
a iniciativa foi do barrie do the pink bee, que fez o primeiro post a 7 de março, e foi-me passada pelo guy do non tibi spiro para lhe dar "o sabor do sul da europa". espero que a sigam."
O Zecatelhado (aqui) e o Ognid (aqui) colocaram-me como mais um elo nesta corrente, e como eu não resisto (muito tempo) a um desafio, aqui vai.
Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
(Esta é logo para assumir a ignorância, não li o livro do Ray Bradbury, nem, pensava eu, vi o filme de culto do François Truffaut. Mas depois de ler este resumo, e de ver esta galeria de imagens sei que a história já me passou pelos olhos, há muitos anos. Engraçado como as coisas conseguem estar completamente esquecidas e conseguem ser reavivadas facilmente.)
Dantes eu gostava de ser o Livro da Vida aquele onde todas as informações estão guardadas, memórias do que já passou, códigos que definem o que há-de vir. Hoje sei que prefiro saber menos e sentir mais. Que livro gostaria de ser? Talvez aquele que eu um dia possa escrever.
Já alguma vez ficaste apanhadinho(a) por um personagem de ficção?
Já, por vários, mas aí notoriamente a televisão e o cinema venceram em número e força. E há diversas maneira de estar apanhado por um personagem, querendo ser como... , ou querendo estar com ...
Mas a título de exemplo, porque muito, muito antigo ... a Zé, a Maria-rapaz dos livros de Os Cinco, era alguém com quem me identificava.
Qual foi o último livro que compraste?
Ensaios e Discursos - Miguel Torga
Qual o último livro que leste?
A Arquitectura no Estado Novo - Pedro Vieira de Almeida
Que livros estás a ler?
Ando sempre com livros "em leitura" espalhados pela casa e pelo carro. Alguns deles:
Barragem contra o Pacífico - Margueritte Duras; Henry & June - Anais Nin ; As cidades invisíveis - Italo Calvino; Arquitectura e Sociedade - Michel Freitag ... e mais uns quantos.
Que livros(5) levarias para uma ilha deserta?
Robinson Crusoe - Daniel Dafoe, como manual de sobrevivência. (Acho que esta tem sido resposta habitual)
A Ilha do Dia Antes - Umberto Eco, como inspiração.
A Jangada de Pedra - José Saramago, para comparação.
O Velho e o Mar - Ernest Hemingway, para aprender a pescar ... ou para aprender a não desistir.
Fernão Capelo Gaivota - Richard Bach, para continuar a sonhar.
E folhas ... e livros de páginas brancas, e lápis, aparos, penas, tinta ....
A quem vais passar este testemunho (3 pessoas) e porquê?
Acho que toda a gente já recebeu mas mesmo assim vou arriscar.
Para a Annie, porque acho que às vezes ela gostava de uma ilha deserta, desde que pudesse levar o Athilla.
Para o Barbant porque é sobre livros e escritas.
Para a Thita, porque sim!. (não) sou criança (mas) posso ditar as minhas regras :)
E os vencedores são:
Os vencedores deverão ser os livros que apesar de tudo sobrevivem aos homens que os escreveram.
Publicado por maria às 04:40 PM | Comentários (6) |
Sai aos Sábados

Mais uma edição já disponível . . . . . . . . . . . . . . . .
Publicado por maria às 12:32 AM | Comentários (3) |
abril 10, 2005
Recebida por e-mail
"O homem é o único animal que consegue estabelecer uma relação amigável com as vítimas que pretende comer!"
Publicado por maria às 11:36 PM | Comentários (13) |
E laranja

Publicado por maria às 11:22 PM | Comentários (1) |
Verde

Publicado por maria às 11:21 PM | Comentários (1) |
Douro

Publicado por maria às 11:18 PM | Comentários (4) |
Douro

Publicado por maria às 07:00 PM | Comentários (1) |
Café EXPRESSO Tádechuva

Publicado por maria às 04:21 PM | Comentários (5) |
abril 09, 2005
Expresso
Devia ser da responsabilidade, só podia ser da responsabilidade, esse nervoso miudinho que a tinha tomado de assalto.
Não que ela não tivesse já alguma experiência, já servia cafés, atrás daquele balcão, discreto e alto, há algum tempo, mas agora era diferente, o estabelecimento tinha amplas janelas para a rua, mais clientes, mais visibilidade.
No seu café, a penumbra protegia-a. Os clientes eram habituais, já se tinham estabelecido cumplicidades, jogos de olhar que substituíam longas conversas, pedidos ou agradecimentos destilados num único gesto.
Passar a trabalhar num novo café seria diferente, novas caras, novas exigências, novas personalidades, novas solicitações às quais era necessário responder.
Teria ainda de abandonar o conforto e a omissão de um balcão demasiado alto para a sua pequena estatura. Teria agora de circular entre as mesas, estar atenta, olhar os clientes nos olhos, ser chamada por eles, quem sabe, até ser apelidada de “dona”!
Entrou um cliente, o primeiro, que se sentou numa mesa próxima da entrada, o que a obrigava a ela a percorrer todo o espaço, a deixar a sombra protectora e a receber a luz do sol da manhã filtrada pelas janelas. Ajeitou a saia e fez-se ao caminho, quilómetros que eram, porque assim lhe pareciam.
“Bom dia, o que deseja?”
“Um Expresso.”
Tirou um café, e um segundo logo de seguida. Olhou para os dois, comparou o creme que se acumulava na superfície e escolheu o primeiro. Colocou no pires um pau de canela e um pequeno bago de café e chocolate.
Pousou-o tremulamente sobre a mesa, e mesmo sem deixar que a chávena se aproximasse dos lábios, perguntou ansiosamente:
-Como está?
[Originalmente publicado aqui] [Comentários Iniciais]
Publicado por Cainha às 11:26 PM | Comentários (0) |
abril 04, 2005
Desfasamentos
Quando ele chegou, ela já dormia. Quando ela saiu, dormia ele ainda.
As frases, para terem força, devem ser despidas de pormenores.
Não vale a pena dizer que ela o tinha esperado acordada, e que tinha sido vencida pelo sono, de luz acesa e livro aberto.
Não vale a pena referir que quando ela se levantou, ele já estava semi-desperto.
Não vale a pena acrescentar que no tempo de espera ela adormeceu e acordou várias vezes, que apagou luzes, esperou, escutou, desistiu.
Que a cama vazia que se espera preenchida é incómoda, desconfortável.
Que a cama que se sabe vazia pela noite toda, é um reino só seu, não refém de esperas e vontades de outros. É um reino de fantasia que dará suporte ao seu sono e seus sonhos.
Que a mesma cama não é efectivamente a mesma cama todos os dias, são mundos distintos.
Que o sono que se sabe condicionado por movimentos e ruídos, não se liberta, não fluiu como um rio, não parte como um carro, fica, como avião de carrossel, preso, em movimentos cíclicos, suspenso da iminência do acordar.
As fases, para serem visíveis, são despidas de outros pormenores.
Publicado por maria às 07:19 PM | Comentários (1) |
abril 03, 2005
Desfocada ...
... porque existem muitas coisas para as quais não tenho certezas.

Publicado por maria às 01:16 AM | Comentários (6) |
abril 02, 2005
Vida
Nada me prende a nada.
Quero cinqüenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja —
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.
Fecharam-me todas as portas abstratas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número da porta que me deram.
Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta — até essa vida...
Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.
Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me naufrago;
Ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.
Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma...
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, últimos restos
Da ilusão final,
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.
(...)
Álvaro de Campos - Lisbon Revisited
Publicado por maria às 11:49 PM | Comentários (3) |
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Publicado por maria às 11:33 PM | Comentários (4) |
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Publicado por maria às 11:32 PM |
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Publicado por maria às 11:30 PM |
O que importa
Marco Polo descreve uma ponte, pedra a pedra.
– Mas qual é a pedra que sustém a ponte? – pergunta Kublai Kan
– A ponte não é sustida por esta ou por aquela pedra – responde Marco, – mas sim pela linha do arco que elas formam.
Kublai Kan permanece silencioso, reflectindo. Depois acrescenta: – Porque me falas das pedras? É só o arco que importa.
Pólo responde: – Sem pedras não há arco.
As cidades invisíveis – Ítalo Calvino
Publicado por maria às 12:41 AM | Comentários (3) |
abril 01, 2005
Abril

Publicado por maria às 11:44 PM | Comentários (2) |

